Uma volta pelo passado

Quando meu filho mudou-se de uma casa em Vargem Grande para um apartamento no Recreio, herdei seu papagaio, o Brasil ( também conhecido como Bill), bicho esperto, falante, que me chamou de vovó bem antes de Bela Antonia falar. Sou louca por ele, somos todos. E então o poleiro dele foi pro espaço, as pet shops das redondezas não tinham o produto, de modo que, sábado pela manhã, fui dar com os costados na rua Santa Clara, em Copacabana, que tem uma grande loja para animais os mais diversos. Saí de lá carregada de bugingangas pro Bill e resolvi, já que estava por ali mesmo, dar uma caminhada de dois quarteirões para passar pela Rua Dias da Rocha, onde cresci e vivi dias inesquecíveis, até me casar, em 1974.

A cada vez que vou a Copacabana, volto mais desconcertada com as absurdas mudanças que ocorreram no bairro. Com o perdão da má palavra, esculhambaram a Princesinha do Mar. A linda Confeitaria Colombo virou Banco do Brasil, a chiquérrima Nuance deu lugar a mais uma drogaria da vida, a Casa Sloper, agora, é livraria, e o Cinema Copacabana, que ficava justo em frente à minha rua, é hoje uma academia de ginástica. O Mercadinho Azul já era há anos. Era lá que comprávamos as nossas calças Lee e os cigarros importados. Dos velhos tempos, permanece a Cirandinha, casa de chá e lanches, que ficava bem ao lado da Barbosa Freitas, onde mamãe comprava nossos presentes de Natal.

Entrei na minha rua pela Avenida Copacabana. Hoje ela é uma rua de pedestres. No lugar do bucolismo de antanho - era uma rua cheia de lindas casas com vastos jardins, além da vila onde nasceu a Bossa Nova - um monte de camelôs. E os velhos prédios, todos obviamente protegidos por cercas que não existiam, noves fora os sistemas de segurança que protegem os cidadãos, enquanto fazem de suas vidas um verdadeiro Big Brother.

Antes de chegar ao meu antigo prédio, o Edifício Maria Luiza, passei pelo Shangri-la, onde moravam meus amados amigos Regina e Cacau Martelli, ele morto muito prematuramente, e uma ausência que choro até hoje. Lembrei deles, de nós, das amigas do Santa Úrsula que moravam ali perto, de todas as festas, as farras, os choros e os muitos risos da nossa feliz adolescência. Saudade gostosa, preciosas lembranças.

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Na segunda-feira, abro meu e-mail e dou com uma mensagem da Regina. Uma bonita e comovente mensagem que trazia triste notícia: a morte de seu pai, Italico Martelli, personagem inesquecível da minha vida.

Bonito, muito alto, italianíssimo até no nome, Italico foi o primeiro homem que vi cozinhar. E como cozinhava!

A primeira bouillabaise que comi foi feita por ele. O Cacau, que era um gozador, dizia pra mim: "Vem comer o aquário que o Italico botou na mesa!!!!" Porque era, realmente, uma rica bouillabaise, com todo os peixes, mariscos e crustáceos a que tinha direito, e aquela bela cor que ( hoje sei) só o açafrão dá. Não sei aonde o Italico terá descolado açafrão numa época em que mal se encontrava champignon. Com certeza na Colombo, que era também o armazém sofisticado da época. Ou na Casa Oliveira. Sei lá. O que sei é que sinto até hoje o maravilhoso gosto da sopa. Foi também nesse dia que fui apresentada ao pão de alho, que ele preparou para acompanhar a bouillabaise. Pão de alho, que hoje é pau que rola, na época, era a maior novidade.

Naquele tempo, era uma coisa notável um homem cozinhar. E ele adorava preparar novidades pra nós - ele que, de formação, era químico industrial. Na cozinha da Dias da Rocha, o mestre-cuca fez químicas notáveis para nosso deleite.

Italico viveu gloriosos 95 anos - faria 96 em dezembro - e Deus deu a ele uma morte rápida. Ainda bem. Aquele gigante - tão grande quanto enorme era o carinho que sempre me demonstrou - não merecia ficar de cama, abatido, esperando seu fim. Não pude ir ao seu enterro ( quando li a mensagem, já era tarde), e tirando o fato de que não pude abraçar e consolar minha amiga, preferi assim. Teria sido muito doloroso ver o gigante inerte, adormecido. Quero lembrar sempre dele com seu avental de cozinha, as longas mãos cortando cebolas e cheiros verdes, limpando peixes e carnes, botando no forno a lasagna maravilhosa. Só lamento o filho chef não ter provado daquela bouillabaise inesquecível. Uma pena.

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Ciao, caro! Ti voglio bene. Descanse em paz.