Salvem o Jardim Botânico!

Nasci no Jardim Botânico – ou melhor: nasci em Botafogo, na Casa de Saúde Santa Lúcia, mas a bucólica Rua Corcovado, no dito JB, foi meu primeiro endereço. A casa da minha avó – que lá continua até hoje, agora transformada no convento fundado por minha tia carmelita. Morei em Copa, em Ipanema, na Barra – e voltei ao Jardim Botânico há 11 anos e aqui pretendo ficar até quando Deus quiser. Falando Nele, pra mim, o JB é um pedaço do paraíso – apesar de todos os pesares. 


Moro a poucos passos do Jardim Botânico, aquele lindo parque, criado por Dom João VI,  em 1808. Conheço jardins botânicos mundo afora e juro que poucos são tão belos quanto o nosso. Ando sempre por lá e tropeço em turistas deslumbrados com um lugar que, além de todos os seus encantos,  ainda oferece de lambuja a vista do Cristo Redentor. Foi, como sabemos todos, o jardim preferido de nosso Maestro Brasileiro, o inesquecível Tom Jobim. Caminhar pelo parque, mirando as raras espécies de plantas, as majestosas e por isso mesmo imperiais palmeiras, o lago das vitórias-régias, é caminhar com a poesia, enquanto respiramos o ar puro que existe enquanto, do lado de fora, respira-se o monóxido de carbono que os ônibus, carros, vans e que tais jogam para aumentar a poluição nossa de cada dia. É dos meus maiores prazeres pegar Bela Antonia pela mão e passar uma manhã por ali – eu caminhando, ela correndo, deslumbrada, porque descobriu a pequena cascata, a casa de pedra, o lago das tartarugas...

Amo o Jardim Botânico e entrei em depressão quando soube que Liszt Vieira – um verde sério, uma pessoa digna – está pensando em deixar a presidência da Fundação porque não foi capaz de expulsar dali aquela gente que se assentou, na maior, e está em suas casas, impedindo o JB de crescer, naquela base do daqui não saio, daqui ninguém me tira. Impotente diante do pé-firme da moçada, Liszt quer pedir o boné.

Liszt é do PT. Quem está mexendo os pauzinhos para que não se resolva a contento o imbróglio fundiário – que coloca em rota de colisão as políticas ambiental e habitacional do governo Dilma – é o senador Edson Santos, também petista. Sua Excelência nasceu e criou-se ali, à sombra das palmeiras imperiais, e não quer de jeito nenhum que sua família deixe o paraíso. Membros de sua família, aliás, dirigem a Associação dos Moradores do Horto, entidade que está na linha de frente da regularização fundiária. É impressionante como certos membros do partido governista se agarram às suas boquinhas, verdes, vermelhas, amarelas, não importa, mas sempre boquinhas. As ocupações são irregulares. O Jardim Botânico precisa se expandir. O pessoal não quer sair. O senador também não quer que eles saiam. O presidente da instituição ameaça jogar a toalha, o que seria um desastre, depois de nove anos de bem sucedida administração.

Quero mais é saber o que dizem sobre o assunto nossos candidatos à Prefeitura do Rio, aliás o que diz nosso prefeito Eduardo Paes, tão bem cotado nas pesquisas, que dão sua vitória como líquida e certa. Alguma coisa tem que ser feita. Nem que para isso seja preciso a petista-mor, a Super Dilma, dar um choque verde nessa pendenga e restabelecer a ordem das coisas.

Era só o que faltava termos um senador petista de donatário de capitania no Rio de Janeiro.

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É muito emocionante – e admiravelmente bem escrito – o livro “A Queda”, de Diogo Mainardi. O duro crítico do PT no geral e de Lula, no particular, o brilhante e cáustico jornalista, faz uma declaração de amor de rara beleza a seu filho, Tito – este, sim,  o herói que transformou e deu uma alma ao seu pai. Todo o relato é um hino de amor, mas sempre erudito; muitas vezes sentimental, mas nunca piegas. Faz jus à inteligência e  à erudição do autor. Ao cabo dele, só cabe um pensamento: vida longa ao Tito, o lindo menino moreno e esperto, que agora anda, livre, por Veneza.