Dia santo de guarda 

Tantos anos depois, ainda sinto a aflição e o medo: no meio da procissão da quinta-feira Santa, enquanto a Madalena levantava o sudário e cantava seu canto triste, minha irmã, então com não mais do que 10 anos, evaporou-se na multidão que acompanhava o séquito pelas ruas do Alto de Teresópolis, onde tínhamos nossa casa e onde religiosamente passávamos a Semana Santa.  O sufoco ainda foi maior porque,  naquele tempo de muita civilidade e respeito às coisas santas, gritar numa hora dessas era impensável. Mamãe, não me lembro bem por quê, não estava conosco. Desconfio que a mana estava meio que aos meus cuidados, daí o pânico – não me lembro também da presença da Babá. Só me recordo do medo, da angústia, do pavor de chegar em casa e ter que encarar a justificada fúria da vovó, da mamãe, de todos...

Mas tudo acabou bem, claro, e graças ao Bom Pai. Um amigo nosso, de seus 20 anos ( o que pra mim já era a velhice total!), que conhecia não apenas a família como a casa da Rua Sloper, viu aquela lourinha linda, perdidona, e reconheceu nela a Bel, filha da Honorina, figura mais do que conhecida pra ele. Botou a pequerrucha em seu Ford Falcon, que era o máximo, estalando de novo, e depositou-a sã e salva no colo de uma incrédula e agradecida  mamãe, totalmente poupada do susto que só eu levei. Ouvi um sermão sobre o meu total descuido, “largar a mão de uma criança pequena, no meio da multidão!!!”, e tudo ficou por isso mesmo. A Semana Santa seguiu em paz – e em silêncio, porque a Babá vigiava para que não se ouvisse rádio (TV ainda era artigo raro), nem se falasse muito alto, e nem que se cometesse a heresia de pegar um baralho pra jogar. “Na Sexta-feira Santa, Jesus morreu na cruz pra nos salvar,e vocês não podem fazer barulho. É falta de respeito.”

Cá pra nós, a Babá conseguia ser mais rígida e mais carola do que minha tia freira e do que todas as freiras do Santa Úrsula. Era uma figura, sempre de véu branco nas missas – o véu branco das virgens, porque jamais se casou. Véu preto só as mulheres casadas podiam usar. Arrematava o uniforme sempre muito branco e bem engomado com a fita de Filha de Maria e vivia numa reza sem fim. Abençoada criatura! Morro de saudade da minha Babá Salvina. Ela odiava o nome, com toda a razão, e todos a chamávamos de Maria, o nome de Nossa Senhora.

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A Igreja ficou mais moderna desde o Concílio Vaticano II, muitas filigranas da Fé foram abolidas ( o uso do véu obrigatório nas missas, entre eles), mas o milagre da Semana Santa, a Ressurreição do Cristo, o choro da Madalena arrependida, a covardia de Pôncio Pilatos, a frieza dos centuriões são eternos para mim. O jejum, a abstinência de carne, um certo recolhimento espiritual, ainda que mais aliviados hoje, são coisas que fazem parte do ritual da Páscoa – para os católicos como eu, a mais importante de todas as festas da Igreja.

Depois das muitas procissões que segui em Teresópolis, poucas eu vi. Lembro especialmente de uma, há coisa de 8 ou 10 anos, numa Semana Santa que passei com meus amigos Chicô e Paulo em Paraty. Muito linda, com as etapas da Via Crucis distribuídas por ricas capelinhas/estações espalhadas pelo centro daquela jóia colonial do litoral oeste do Rio de Janeiro. Dizem que há belíssimas no interior da Espanha, mas nunca tive oportunidade de acompanhar alguma, ainda que muito tenha sassaricado por Toledo, Santiago de Compostela, Granada e Sevilha. Um dia, vou. Adoro toda a representação da Semana Santa – e lamento não ter podido assistir à de Nova Jerusalém, quando convidada, em data que não tinha como sair do Rio.

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Páscoa é Cristo e é família. Dia de alegria, de renovação da fé. Dia, aqui em casa, de almoço com a família e os amigos mais chegados, quase irmãos. Os irmãos da vida, aqueles que se contam nos dedos. Bela Antonia já anda meio desconfiada de que o coelhinho é o Papai Noel do outono, finge que acredita, fatura os chocolates, mas ainda não entende bem o  real sentido de toda aquela comemoração. O que me faz lembrar que já está mais do que na hora do catecismo, do recolhimento, da oração.

Está mais do que na hora de minha pequena saber como é rico, generoso, reconfortante  e iluminado o caminho da fé.

Uma Feliz Páscoa a todos!