Crônica: Recordar é viver

Bela Antonia – para quem não conhece, minha neta de 8 anos, a única que tenho – volta às aulas na terça que vem, dia 7. 

Está feliz, porque ama a Escola Parque que freqüenta desde os dois anos e porque não teve o gosto que a vovó teve de férias que começavam no início de dezembro e iam até o início de março. Velhos tempos, belos dias. 

O mundo de hoje não dá essa folga. 

Aliás, não dá nem pra vovó, que permanece sem férias, como contei aqui há algumas semanas.Mas ela curte a azáfama que se instala nessa volta às aulas. A antecipação do que está por vir conta menos, a essa altura, do que o prazer de comprar a mochila nova, a lancheira da hora, os lápis, canetas e muitos livros ( graças a Deus!!!!) que a escola pede para o bom desenvolvimento do ano letivo. A pequena já é craque no computador, o que acho um espanto, mas os livros ainda fazem parte da vida escolar, o que é um alívio e tanto. O tempo passa, o tempo voa, e a Bela Antonia já vai para a terceira série – a mais traumática e complicada do primeiro grau – como todos sabemos e os professores já se encarregaram de alertar aos pais no final do ano passado.Na quarta passada, ela foi às compras com os pais – e, enquanto fazia isso, eu viajava no tempo, como sempre, aquele refúgio das boas recordações, o cofrinho de felicidade que mantenho cheio para me ajudar a levar a vida numa boa. Há quem não suporte visitar o passado. Eu adoro. Recordar é viver, como canta a marchinha dos meus carnavais.

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Lembrei mais uma vez dos meus tempos de colégio, quando mamãe saía comigo e com a mana para a compra do material escolar. É uma evocação tão forte que chego a sentir o cheiro das malas de couro ( as mochilas de hoje), que também chamávamos de pastas – umas coisas pesadíssimas, sempre com umas chavinhas micro – responsáveis por muito desvio na espinha, como se dizia. Hoje seria desvio na coluna. Ali dentro, colocávamos um caderno para cada matéria, estojo - de preferência com dois andares, que guardavam lápis, canetas, borracha, apontador – régua, compasso, esquadros, livros de português, matemática, história, geografia, ciências e por aí vai. Era um peso danado. As malas, muitas vezes, pareciam maiores do que as alunas que as carregavam.Todo esse material comprávamos todos os anos na Casa Cruz, ali no Largo de São Francisco, onde está plantada desde 1893, segundo leio em seu site. Um de seus proprietários, “Seu” Aristides, ficava no caixa e acabou virando amigo de mamãe, tantas eram as compras que ela fazia ali e por tantos anos. Era um homem finíssimo, de poucas palavras, mas que talvez intuitivamente já soubesse o valor do tal de atendimento personalizado tão em moda hoje no nosso comércio. A visita à loja era o ponto máximo do nosso retorno ao ano letivo. Mamãe mandava a lista do material antes e nós íamos buscar depois, com direito a mais uma rodada de comprinhas “essenciais” – a caneta tinteiro que só se ganhava depois dos 12 anos, a lapiseira da hora, os decalques para enfeitar os cadernos, o estojo que já trazia apontador embutido e demais badalhocas. Era o melhor pedaço. De lá saíamos carregando pesados pacotes, embrulhos em papel pardo arrematados com forte barbante cor-de-rosa, de modo a podermos carregá-los Rua do Ouvidor abaixo, onde fazíamos pausa para o almoço de praxe na Confeitaria Manon. Muitas vezes eram necessárias duas viagens – era um tempo pré-delivery – e não se mandava compras em casa, muito menos do Centro para a Zona Sul.Se fechar os olhos, posso ouvir o barulho e o cheiro das ruas, gozar do conforto do ar condicionado que já funcionava na Manon, raridade naqueles tempos, sentir o gosto do coquetel de camarão que pedia sempre. ( Aliás, continuo amando coquetel de camarão e não entendo porque coisa tão gostosa ficou démodé).Comprar material escolar era um programão para mim e para a Bel. Muitas vezes recordamos juntas desse tempo bom que não volta mais.

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A ordem, agora, é o Made in China. Meu filho, horrorizado, me conta que pagou R$ 370 numa mochila. Nem tenho coragem de perguntar sobre o resto. Desconfio que minha Bela Antonia, pelo andar da carruagem, não terá uma mana como eu tive ( essencial, fundamental, tudo de bom!!!). Não posso culpar minha nora e meu filho. O Brasil virou o país mais caro do mundo, quem diria. Nem por isso o melhor. Não oferece aos seus cidadãos saúde e educação – o básico para qualquer nação que se pretenda desenvolvida. Só o custo de vida sobe. O resto desce assustadoramente.Ter mais de um filho é um risco que pouca gente quer correr por aqui. Tá certo. Pra que botar filho no mundo se não se tem meios para educá-lo? Fica a sugestão de reflexão para esse governo de altíssimo ibope e pouquíssimas ações em benefício de seus cidadãos. Ainda que cética, não custa tentar. Teimosa, sonho que dias melhores virão – e que poderei, quem sabe? -  ganhar outro neto.