(Crônica) Fred Suter: para sempre

Guardo de todos os amados que me deixaram e partiram para o andar de cima apenas as boas recordações, imagens de saúde e paz, os traços dos rostos inalterados pelo tempo ou pela doença que os consumiu. Brigo com meus pensamentos quando me aparecem com detalhes que quero esquecer. 

Expulso o que me desagrada. 

Assim, me lembro de minha mãe tricotando sapatinhos para o neto que nasceria em breve; de minha avó, bengala em riste, pronta a atacar se saíssemos da linha; do Fernando, lindo e belo, camisa jeans, me esperando na porta do cinema em Copacabana;  de minha querida Rege, vibrando na plateia do Ney Matogrosso no Metropolitan; do Cacau, à beira da piscina no apartamento da Barra. Tanta saudade!

Do Fred. O que vou guardar do Fred, meu parceiro de vida, meu colega de trabalho por quase 20 anos? Muita coisa boa, algumas tristes, alguns desentendimentos – mas, sobretudo, guardarei as muitas risadas que demos juntos. Eu sou de gargalhar - Fred, não. Não gargalhava, mas ria bem. Rimos muito juntos. De tudo, de todos e de nós mesmos.

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Na sala do Zózimo no Jornal do Brasil. Muita gargalhada. Certa noite, Fred fora com grupo de amigos ao People – boate que marcou época no Leblon. Ele implicava com a maioria dos cantores nacionais. Só gostava de música clássica, de jazz, da Ella, da Billie. Quando ele está lá, entra a Elba Ramalho,  da qual ele ouve um telefonema no bar ( naquela época, não havia celulares). A cantora tentava explicar para alguém onde se encontrava. E gritava “ Estou no People”. Do outro lado a pessoa não entendia. Aí, ela resolveu soletrar: “ No People. P, I, P, O, L!!!!”

Claro que dois dias depois, a paraibana ficou arretada quando leu a nota no Zózimo, com o maior destaque. A cidade gargalhou com isso.

Anos depois, a gargalhada foi em O Dia. Déramos uma nota absolutamente inócua, contando que a Regininha Poltergeist tinha sido vista na véspera, no BB Lanches, no Leblon, altas madrugadas, tomando um suco já não me lembro mais com quem. Lá pelas tantas, liga o pai da moça, irado, querendo tomar satisfações e dizendo que a filha não estava lá, que dormia em paz, que isso e aquilo. Eu atendi e assegurei a ele que consertaríamos a notícia, mas que, francamente, era uma coisa boba, sem a menor relevância, que ninguém nem prestara atenção nela, etc etc. De nada adiantou. Só que na hora de redigir a nota, me dei conta de quem não tínhamos o nome do dito senhor. Então, sapequei “ Corre a informar o Sr. Poltergeist, pai da Regininha idem, que sua filha não tomava suco na madrugada do BB.” Rimos de chorar com o Sr. Poltergeist.

De outra feita, na minha casa de Teresópolis aonde ele chegara a bordo de um Galaxy Landau LTD ( daqueles que em uma acelerada gastava-se quase um tanque de gasolina), imaginamos com o Roberto Mota, que foi grande amigo do Fred, criar a Vigaristur – cujo nome dispensa explicações. O cliente estrangeiro, de preferência,  compraria uma viagem a Gramado e iria parar em Teresópolis, onde os carneirinhos prometidos seriam os bodes da pracinha do Alto cobertos por uma colcha de chenile branca. Ou a viagem para os cantões suíços que terminaria em Campos do Jordão ou Nova Friburgo – e os diretores da Vigaristur só embolsando uma grana preta às custas dos incautos. Passamos aquela tarde construindo trajetos absurdos e chorando de rir da bobajada – que volta e meia era ressuscitada, principalmente quando eu notava que meu companheiro de trabalho estava melancólico ou mal humorado.

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Fred foi uma pessoa divertidíssima em seu jeito muito Fred de ser: irônico, mordaz, sutil. Era extremamente generoso. Seu humor peculiar era evidente nas milhares e milhares de notas que escreveu ao longo da vida. Zózimo Barrozo do Amaral e Fred Suter foram uma dupla literalmente do barulho – e muito do que hoje se atribui apenas ao Zózimo saiu da cachola do Fred. Posso afirmar porque trabalhei com os dois -  juntos e separados.

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Fred Suter foi um dos meus mestres. Mas foi, sobretudo, o parceiro. Dividimos juntos alegrias e tristezas; rimos muito e  tivemos também  momentos de muita angústia, outros de dúvida, muitos de acertos. Brigamos também. Faz parte da vida.

Hoje dele só quero guardar os bons momentos, as risadas, o afeto, o carinho, a generosidade. Aquele homem sempre azul – porque ele só usava roupas azuis. É duro e é difícil dizer adeus, mas não me resta outra alternativa.

Portanto, adeus, meu amigo querido. Descanse em paz. Eu nunca vou te esquecer.