Crônica: Amanhã será outro dia ou ... o chuchu que mete medo

Não sei se houve algum aspecto tenso entre Plutão, Saturno, Urano e Vênus – ou nenhuma das opções aventadas – mas que estes últimos dias andaram esquisitos pro meu lado, lá isso andaram. 

Aporrinholas dos mais variados calibres e pra todos os gostos. 

Mas sou durona, da escola da Scarlett O’Hara ( infelizmente sem o Rhett Butler) e sempre penso, tal como minha heroína, que amanhã será outro dia.

A gente tem que ser um pouco Scarlett pra sobreviver. E sobreviver numa boa, porque fazer da vida um vale de lágrimas ou um rosário de reclamações, definitivamente não dá. Os cães ladram e a caravana passa, diz o ditado árabe que o saudoso Ibrahim Sued usava a torto e a direito toda a vez que lhe aporrinhavam de alguma maneira.

Depois não há nada pior do que quem vive se queixando com amargura da vida. Isso aqui é uma passagem muito rápida. Quero deixar leveza e bom humor no meu rastro. E a determinação da Scarlett para descartar tudo o que me aborrece hoje, na certeza de que o amanhã será muito melhor.

                                                                                                  ***

Agarro-me a este otimismo e tento pensar positivo, mas a manchete dos jornais no Dia de Independência, quando escrevo, me apavoraram. O chuchu, aquele legume sem gosto e sem graça, voltou a ser o vilão da inflação, quem diria! Ouvir falar da leguminosa novamente como símbolo daquilo que é o maior pesadelo dos que, como eu, a viveram, acaba com qualquer sentimento de amor à pátria, vamos combinar.

Dona Dilma, toda pimpona, de tailleurzinho beige e fio de pérolas, ocupa o horário nobre não com chuchus, mas com abobrinhas para enganar aos incautos. Quem viu a presidente  na televisão – naquela fina estampa e toda sorridente – pensava que ela contava as últimas gracinhas do netinho Gabriel, tal a candura da fala e do gestual. Não é possível que os marqueteiros do Planalto acreditem que todos os brasileiros são débeis mentais, que todos vão acreditar naquele cenário fascinante e deslumbrante que ela nos ofereceu: a Saúde? Nos trinques. A inflação? Que que é isso? A Segurança? Nota dez. De quebra, um Brasil que “não se acumplicia com o malfeito”. Seria cômico se não fosse sério.

                                                               ***

Vou para o Facebook, onde muito me divirto e troco idéias com amigos virtuais e outros de uma vida, e acabo achando o programa melhor do que sair de casa. É mais seguro com certeza.

A minha turma do Face é danada de crítica e mal sabem os políticos o que rola ali naquela minha página. Ninguém se engana mais com as abobrinhas e estamos todos engasgados com o chuchu. Aliás, estamos todos engolindo sapo com chuchu, o prato da saison politique.

Minha amiga brasileira que mora em Paris há 20 anos e tem um pequeno pied-à-terre no Leblon veio de férias com o marido francês. Voltou horrorizada com os preços. Comia em restaurante a quilo e pagava mais do que num bom bistrô francês e com direito a vinho. Cá não volta tão cedo, me disse. Mês que vem vai paras as Ilhas Maurício. Sai mais em conta, mesmo sem apartamento próprio.

Ela, pelo menos, pode viajar, fazer seus planos. Eu não posso. Trabalho como uma moura e não tenho dinheiro para sair de férias, coisa que fiz até o ano passado. Como continuo ganhando o mesmo salário e ainda mais uns trocados de outras empreitadas, passo a ter certeza de que há algo de podre nas contas do Brasil. E não é só o chuchu, o vilão da hora.

No Face, um amigo da juventude me diz que ano que vem muda-se para Miami, onde o filho vai estudar. Fez as contas e tem certeza de que viverá melhor. Ele é que é feliz. Com o passivo que tenho – no caso, minha adorável família – não tenho peito pra tanto.

É Brasil, é chuchu, é abobrinha – e cara alegre.

                                                               ***

A adorável Scarlett puxou das terras de sua amada Tara raízes de algum tubérculo – batata, com certeza, porque nos States não existe mandioca.

Não posso imitar minha heroína: o tal do chuchu, que dá tanto na cerca que já virou piada, a gente arranca com um peteleco. Sem dramas, sem frase de efeito, sem lágrimas.

O chuchu é a cara do Brasil.