Pais: ausência e presença

Meu pai morreu quando eu tinha dois anos: foi-se aos 47 anos, vitimado por um enfarte. Não teve tempo de chegar às maravilhosas descobertas científicas, que hoje prolongam com toda a sorte de intervenções e cirurgias a vida dos cardiopatas. Foi uma perda e tanto. Uma ausência da qual me ressinto até hoje – afinal, enquanto todo mundo tinha pai, eu não podia e nem posso sequer saber qual teria sido a diferença de sua presença em minha vida. Mesmo o que me restou dele é história de segunda mão: chegaram a mim através de minha mãe, já que papai era filho único e ficou órfão muito cedo.

Pelo que fiquei sabendo, teria gostado dele, de quem aparentemente herdei muita coisa: o gosto pelas línguas, pela leitura constante, pela viagens... Meu pai, diplomata, viajou bastante. Mas não viveu o suficiente para me contar das viagens, nem se preferia Paris a Londres ( onde, aliás, morou por 12 anos, portanto deveria gostar mais), ou Manet a Monet,  Fla ou Flu, ou se gostava mais de doce do que de salgado, ou se esperava que viesse um menino quando eu nasci. Não tenho essas informações. Tantos anos depois, ainda penso em como seria bom tê-lo conhecido, ter tomado broncas, ter ganhado beijos. Ausência doída.

Coisas da vida. Injustas, às vezes, mas coisas da vida.

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Em compensação, dou testemunho de fé do paizão que é meu filho. Vê-lo em seus afazeres de pai, sempre por perto de Bela Antonia, é coisa que me enche de orgulho. E de tranqüilidade em relação ao futuro da pequena. Quem tem um pai como o Chris, só pode dar certo.

Como seu horário de trabalho permite e minha nora tem horário apertado como veterinária, é ele quem cuida da filha pela manhã: comanda os preparativos pré-escola, ajuda no banho, a vestir, a pentear o cabelo, leva para a escola, não sem antes verificar se a mochila está em ordem e a merendeira idem. Agora, ela almoça no colégio, porque tem horário integral, mas antes tinha a função do almoço também. Ele é rígido, disciplinador ( muito mais do que eu e o pai dele fomos), mas, tal qual o Che, sin perder la ternura jamas. Os dois são grandes companheiros e isso me deixa tranqüila. Ele não é de muitos paparicos, mas o amor está ali, em todos os pequenos detalhes: no pregador de cabelo colocado certinho, nos cadarços bem amarrados do tênis, na caderneta assinada, nas reuniões de pais a que não falta, em todas as festas juninas, ecológicas, dos livros, a todas as reuniões de pais a  que comparece de cara alegre, na maior participação.

Fico feliz que minha Bela Antonia possa ter com o pai dela todas as experiências que não pude ter com o meu. Os afagos e os cascudos, o riso e o choro. Tudo isso faz parte da vida – e que bom que eles estão juntos nela!

Bela Antonia já me contou que tem um presente especial para o pai. Seja lá o que for,  o menino merece.

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Um abraço especial a todos os pais e vovôs que hoje festejam a sua data. Saúde e sucesso.