Cheiro de saudade

Não pude ir à missa pelo décimo aniversário da morte de Evandro Carlos de Andrade, sexta passada, na Igreja de Santa Inês. Uma gripe que não me larga há quase três semanas foi a culpada. 

Achei inacreditável, quando li o anúncio no jornal, que já se tenham passado 10 anos da sua partida tão prematura.

Foi um grande chefe. Muito, muito exigente. Evandro era implacável com o erro e quase paranóico com a precisão das informações na minha longa época no jornal O Globo, quando internet não era nem sonho e as máquinas de escrever elétricas eram o máximo em matéria de upgrade tecnológico. 

 Chegou a implantar na redação os primeiros computadores e, enquanto todos nós penávamos com as aulas e sonhávamos em verde fosforescente ( a cor das letras dos monitores daqueles tempos jurássicos), ele já dominava a badalhoca como se nunca tivesse feito outra coisa na vida.

Obsessivo juramentado, era quase perfeito em tudo o que fazia. E ai de quem trilhasse o caminho da imperfeição ! As segundas-feiras eram o dia do terror generalizado: durante o fim de semana, ele rabiscava o jornal inteiro, apontando erros os mais variados, com uma letra bonita, de quem estudou caligrafia e uma caneta vermelha que cuspia desaforos e broncas e que fizeram muita gente boa ficar tão vermelha quanto a tinta.

Bonito, alto, desempenado, autoconfiante, presidia a redação de seu aquário, onde poucos eram os eleitos que recebia para amenidades. Já para as broncas... Abafa o caso!

Sabia elogiar também, o que dá o tempero a qualquer chefe que se preze e que queira ser respeitado por seus subalternos.

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Certa vez, durante um dos concursos anuais do homem mais bonito da redação ( tinha o das mulheres também), Carlos Leonam, que era meu editor, transmitiu ao Evandro que a contagem em seu favor estava muito apertada. Ele praticamente estava perdendo para o Renato Maurício do Prado, se não me engano. Só as mulheres votavam. Com aquela confiança que Deus lhe deu, ele garantiu: “Vou ganhar... Mas não se esqueça de avisar a Ana Maria que conto com o voto dela...” Ganhou, claro. Ele era mesmo um bonitão muito charmoso.

Era obsessivo fora do jornal também. Quando resolveu aprender a dançar, contratou a rainha das gafieiras, a professora Maria Antonieta. Em três tempos, já era praticamente um Fred Astaire tupiniquim. Dançava muito bem e com muita elegância. Riscava os salões com o mesmo aplomb com que cruzava a redação da Rua Irineu Marinho, quando saía do aquário para uma voltinha entre seus discípulos.

Anos depois, apaixonou-se pela Teresa, sua segunda mulher, cantora de domingo, e resolveu que fazer dueto, àquela altura, era tudo o que queria. Virou o sucesso dos karaokês da cidade.

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Devo muito do que sou a ele. E jamais me esquecerei quando, em 1982,  me encarregou de fazer as entrevistas para o livro 30 Anos de Reportagem, que contaria as peripécias do colunista-vedete da casa, naquele tempo, mestre Ibrahim Sued. Receoso do que o Turco poderia fazer com uma repórter em início de carreira, ele chamou seu braço direito, meu queridíssimo Henrique Caban, e os dois foram me escoltando até a casa do Ibrahim na primeira noite da rodada de entrevistas. Acho que me saí bem e acabei amiga do colunista das 10 mais elegantes por causa dessa intervenção fundamental do Evandro. Ele e Caban me avalizaram. Foi uma coisa da maior consideração, que jamais esquecerei.

Quando troquei O Globo pelo Jornal do Brasil, atendendo a um convite irrecusável do Zózimo Barrozo do Amaral, ele não gostou. A despedida deixou um travo amargo entre nós. Que passou, depois, como tudo passa.

Jamais me esquecerei do Evandro, como jamais me conformarei com sua morte tão prematura. Logo ele que era obsessivo também com a sua saúde. Trapaças do destino.

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Nosso país está mais pobre com a morte do presidente Itamar Franco. Era um homem digno, decente, ético, que honrou a cadeira que ocupou.

Vai fazer falta no Senado. Vai fazer muita falta para o Brasil.