Nosso maio francês?

Alfredo Sirkis*

O que sucede atualmente nas ruas brasileiras tem mais a ver com o maio francês do que com o nosso movimento de 68 e também aqueles do final dos anos 70, meados dos 80 ou inicio dos 90, que tinha foco claro: “abaixo a ditadura”. “anistia”, “diretas já” e “fora Collor”.  A revolta estudantil de Paris, em 68, começou em Nanterre e na Sorbonne justamente com essa característica difusa, refletindo um mal estar de sociedade, cultural,  com profusão de bandeiras mas sem um tema central. Outro dia  meu amigo Dany Cohn-Bendit, líder do maio de 68, francês, hoje líder dos verdes no parlamento europeu,  me  telefonou desde Bruxelas:  "me explique o que está acontecendo no Brasil?" respondi: “é você quem tem que me explicar, Dany!”

  O maio de 68 parisiense eclodiu em um período de pleno emprego, aumento do padrão de consumo, reforço do estado de bem estar e  consolidação da Quinta República,  no segundo mandato de sete anos do general Charles De Gaulle, o estadista que havia salvo a França da guerra da Argélia. Não estavam dados, no maio francês,   ingredientes clássicos identificados como causas de revolta: miséria, desemprego, queda no padrão de vida, inflação (ou deflação) galopante.  O velho presidente, conquanto autoritário,  não era um ditador, a situação econômica comparada a de hoje era boa, praticamente o auge dos “trinta anos gloriosos”  do pós-guerra que encerrar-se-iam com a crise do petróleo de 1973.

  A França governada pela direita, era um “estado de bem-estar” mergulhado numa cultura conservadora onde a juventude --a numerosa geração dos baby boomers do pós guerra-- sentia-se oprimida na escola e em casa por uma onipresente caretice cultural e de costumes. Havia como aqui um enorme distanciamento entre o establishment político gaullista da geração da II guerra e essa juventude irreverente que sonhava sexo e rock and roll (e começava a experimentar certas drogas). Não havia, naturalmente,  nem internet nem redes sociais.  O veículo de comunicação era o panfleto, o jornal militante,  o dazimbao. Era dominante a guerra fria. O mundo era analógico.

  A liderança visível, Dany Cohn-Bendit, Dany le Rouge (Dany, o vermelho), apesar do apelido, tendia para o “libertário”, gênero de anarquista light. Deu o tom na imprensa pelo seu talento de comunicador. Foi expulso da França --era oficialmente cidadão alemão-- e o movimento, já em descenso, acabou herdado pela extrema-esquerda leninista.  Muito embora o maio de 68, tenha começado libertário,  plural e, como aqui atualmente, bastante poético-espontaneísta ele acabaria principalmente nas mãos de maoístas e trotskistas de diversos grupos que enquadraram essa herança de maio, principalmente a Ligue Communiste Revolutionaire (trotskista) e a Gauche Proletariene (maoísta).  Os ganhos palpáveis –aumentos salariais e avanços trabalhistas—foram do movimento sindical liderado pela CGT dominada pelo Partido Comunista Francês hostil aos estudantes mas que soube pegar uma eficaz carona no seu movimento com uma greve geral e uma mesa de negociação com o patronato.

  Veio o post-festum: uma manifestação de quase um milhão de pessoas na Av. Des Champs Elysées em apoio o velho presidente e logo depois, em eleições antecipadas, a maior vitória da direita francesa em toda sua história, correspondendo a uma derrota eleitoral arrasadora dos partidos de esquerda. O movimento herdado de maio continuou a rebrotar nas ruas periodicamente conduzido pela geração 68 em diversos momentos, nos anos 70 e 80,  sem nunca mais alcançar aquele grau de efervescência e participação. Maio de 68 mudou pouco da política francesa. De forma desdobrada no tempo foi sendo identificado com uma mutação cultural e de costumes, na sexualidade, nas artes, na cultura de um modo geral. Resultou também num grande individualismo o qual muitos responsabilizam, hoje, pelo que identificam com uma erosão do civismo, dos valores do trabalho e, até, pela crise da previdência pelos efeitos da satisfação imediata de consumo e pela aposentadoria precoce. O ex-presidente Nicolas Sarkosy chegou a culpar 68 pelas mazelas da França de hoje.

 Há de fato algumas analogias entre aquele movimento e o que assistimos aqui. Ausência de uma opressão aguda, de uma liderança unificadora, de uma causa ou plataforma coerente para além de um “mal estar” de sociedade. Um corte levemente libertário e utópico. Uma sensação dos partícipes de estar fazendo história e um olhar desconfiado da chamada maioria silenciosa. A grande questão será a de como gerir o descenso de massas, sempre inevitável,  deixando algum acúmulo de organização e de e de conteúdo programático consquistando medidas concretas minimamente factíveis.

  O desafio é conseguir evitar que neste descenso, quando gradualmente diminuir a presença da classe média,   o lupensinato e o tráfico não venham a  desviar o protesto para o campo do saque e da violência, inclusive  bélica. Episódios sintomáticos já ocorreram como o da Maré, no Rio. Não se sabe de fato se haverá esses desdobramentos. A situação da periferia de SP,  com o PCC à espreita,  é perigosa. No Rio pode vir um "troco" pelas UPP e pela expulsão do tráfico de parte das favelas. Todo cuidado é pouco.

  Onde certamente dá para avançar é justamente lá onde tudo começou, em São Paulo, tratando  da crise da mobilidade urbana com ações concretas e factíveis: parar de subsidiar a compra de carros e priorizar obras para o automóvel.  Usar os recursos no transporte de massas e coletivo. Aumentar o tempo de validade do bilhete único para 3 horas, multiplicar investimentos em BRT,BRS, VLT, transporte hidroviário, ciclovias e oferta de bicicletas. Instituir a taxa de congestionamento com pedágios eletrônicos em horários e trechos intensamente demandados. Acabar com o subsídio da gasolina e instituir, gradualmente,  (compensando socialmente) a taxa de carbono em substituição a outros tributos (para não aumentar a carga tributária).

   Enfim, o movimento pode terminar melhor exatamente lá onde começou: pode ganhar consistência se questionar oferecendo alternativas à crise da mobilidade urbana.

*Alfredo Sirkis é jornalista, escritor e deputado federal pelo PV-RJ