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No aniversário do MNBA, visitante pode acompanhar restauro de obras adquiridas do Museu do Louvre

Jornal do Brasil CELINA CÔRTES, celina.cortes@jb.com.br

Com um pé no passado e de olho no futuro, o prédio de 15 mil m² do Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), no Centro, sopra 110 velinhas no próximo sábado. O palco do mais completo acervo do século 19 do país — cujas estrelas são a “Batalha dos Guararapes” e a “Primeira Missa do Brasil” (Victor Meirelles) e “Batalha do Avaí” (Pedro Américo) — anuncia a primeira visita guiada ao Projeto de Restauração das Moldagens em Gesso, na Primavera dos Museus, em 19 de setembro. As 11 estátuas de gesso adquiridas do Museu do Louvre, em Paris, localizadas nas duas principais galerias do MNBA, passam pela mais minuciosa restauração já realizada. O processo, iniciado em uma sala fechada, agora está aberto à visitação nas próprias galerias. Esta semana, será instalado um banner explicativo de todo o passo a passo do processo de restauro.

A primeira das 11 peças, que chegaram em vários lotes, foi comprada pelo império brasileiro do governo francês em 1839, com fins didáticos, para as aulas de anatomia. Chegaram na Academia Imperial de Belas Artes, que antecedeu a Escola de Belas Artes (EBA), onde as galerias foram construídas só para abrigá-las, “hoje um dos locais do MNBA de maior interesse dos visitantes”, acrescenta Larissa Long, chefe do Departamento de Restauração. A peça que mais desperta a atenção é a imponente Vitória de Samotrácia, representação da deusa grega Nice, de 202 AC, cujo original, de mármore, fica no topo de uma escadaria, no Louvre. “Foi a única delas doada pelo governo francês”, acrescenta Larissa.

Macaque in the trees
Elisabete Grillo e Viviane Teixeira restauram o "Baile à fantasia"

Embora as peças já tivessem passado por restaurações anteriores, esta é a única que as radiografou — todas são estruturadas sobre ferro e madeira, e é preciso checar o estado deste material não visível —, pela empresa Ultrarad Rio Imagem Médica, contratada pela Holos Consultoria, vencedora da licitação de 2017. O processo começou em 2014, pelo mapeamento de danos pelas equipes do museu, e a licitação de 2016 não encontrou candidatos à altura. Patrícia Salles, sócia de Christina Penna na empresa vencedora, explica que as radiografias foram fundamentais, por exemplo, para localizar os pontos de sustentação da asa da Vitória de Samotrácia, que estava prestes a cair.

O trabalho deve estar concluído em dezembro e sofreu um atraso, em função das duas vertentes que decidiam o processo: “Uma propunha que as peças saíssem do restauro como se estivessem novas. A outra, vencedora, preferia que fossem mantidos as marcas do tempo, maximizadas pelas obras do metrô e do VLT. Sempre que quebrava algo, o material era guardado na reserva técnica. Então, só vamos recuperar essas peças, não haverá nenhum acréscimo fake”, esclarece Patrícia.

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Vitória de Samotracia, em pleno restauro

O novo desafio da Holos, com seis especialistas envolvidos no restauro, é a liberação, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), de quatro pequenos frascos das tintas da loja Talas, de Nova York, para a conclusão das três peças restantes. “Elas foram compradas em 27 de julho e chegaram ao Brasil três dias depois. Aqui, passaram pelos Correios, ficaram dez dias na Alfândega e estão presas na Anvisa”, conta Patrícia.

Embora a EBA tenha se mudado para o Fundão, em 1974, deixou no museu este precioso acervo. Foi ali que estudaram nomes como Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Cândido Portinari e Victor Meirelles, entre outros.

Restauro adotado

Outro ineditismo em andamento é a restauração, por três especialistas da empresa Libra Cultural, do óleo sobre tela de 149cm x 209cm “Baile à fantasia”, de Rodolpho Chambelland, de 1913, bancada pelo artista plástico Marcos Chaves, 57 anos, e seu companheiro, Kevin Ridgley, 54. Algo comum nos Estados Unidos, os dois desembolsaram R$ 30 mil à Associação de Amigos do MNBA pelo prazer de contemplar a obra e proporcionar o mesmo deleite aos simples mortais. “Ano passado, participei de um programa sobre o museu e esse foi um dos trabalhos escolhidos. Passei a frequentar a casa e pensei o quanto o quadro seria mais bonito se fosse limpo. Comentei a ideia com meu companheiro, e foi ele quem sugeriu que adotássemos o restauro da obra”, revela Chaves.

Mais novidades previstas até o fim do ano são a reabertura da galeria de obras modernas, onde os visitantes poderão apreciar quadros como “O lavrador de café”, de Cândido Portinari — o MNBA detém o maior número de suas telas, mais de 200 — e o icônico “Manteau rouge”, autorretrato de Tarsila do Amaral. Também é aguardada a tela “Olga Benário”, de Portinari, retratando a mulher do legendário Luiz Carlos Prestes, assassinada em um campo de concentração nazista, doada pela filha do casal, Anita Leocádia.

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"Manteau rouge", de Tarsila do Amaral

Em novembro, o museu inaugura ainda a exposição “São Francisco na Arte de Mestres Italianos”, sobre este que foi um dos mais populares santos católicos. Serão exibidas 20 telas do período renascentista ao barroco, entre os séculos 15 e 17, ainda inéditas no Brasil, de mestres como Ticiano Vecellio, Pietro Perugino e Orazio Gentileschi. As obras pertencem às coleções de 15 museus de sete cidades italianas, a exemplo da Galleria Corsini, do Palazzo Barberini e do Museo di Roma. “O MNBA sempre esteve ligado, ou acompanhou, os movimentos da arte, e esperamos preservá-lo para as gerações futuras”, resume a diretora Mônica Xexéo, primeira funcionária de carreira a assumir o cargo.

Projeto do arquiteto espanhol Adolfo Morales de Los Ríos (1858-1928), o prédio do MNBA tem estilo eclético do fim do século 19 e início do século 20. A construção estava incluída no contexto das grandes transformações urbanísticas introduzidas no Centro da cidade pelo prefeito Pereira Passos (1836-1913). Este ano, também completam 45 anos do tombamento do prédio pelo Instituto de Patrimônio Histórico Nacional (Iphan).



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