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Rolé Carioca disseca a história da Primeiro de Março, a rua mais antiga da cidade

Jornal do Brasil CELINA CÔRTES, celina.cortes@jb.com.br

Quando se atravessa a Primeiro de Março, um dos principais corredores de trânsito do Centro do Rio, a maioria dos motoristas sequer imagina que aquela é a rua mais antiga da cidade, que se chamava Rua Direita e ligava o Largo da Misericórdia à Ladeira de São Bento. Não por ficar à direita ou esquerda de algo, apenas porque a cidade começava a nascer no Morro do Castelo, cujo acesso se dava por ladeiras sinuosas. Era direita apenas por ser plana e reta. Quem quiser conhecer essa história em detalhes — e melhor, a pé e de graça — não pode perder o próximo Rolé Carioca, que parte amanhã, às 9h, do estacionamento do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).

O conhecimento de alguns dos bastidores que não constam dos compêndios históricos, compartilhado pelos guias — os professores de história Rodrigo Rainha e William Martins —, garante o charme do passeio. Uma das curiosidades é que antes da chegada da Família Real ao Rio, em 1808, a cidade, já capital do império português, recebia recursos para a construção de sua Sé. Chegaram até a enviar pedras bentas. “Só que quando D. João desembarcou no Rio e foi procurar a tal Sé para ser coroado, constatou que existiam ali apenas as fundações”, revela, divertido, Rainha, professor de História da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e da Estácio de Sá, sobre um passado que já começa com roubalheira.

“O projeto inicial da Sé ficava no Largo de São Francisco. Dom João foi conduzido a uma igreja de negros na Rua da Vala, hoje Rua Uruguaiana, e se indignou. Acabou por se contentar com a pequena igreja da Santa Cruz dos Militares como Sé”, relata o historiador. Só em 20 de março de 1816, após a morte de sua mãe, Dona Maria, Dom João VI foi aclamado como rei de Portugal, do Brasil e Algarve na Capela Real Portuguesa, com sua magnífica talha dourada em estilo rococó do mestre Inácio Ferreira Pinto, depois elevada a Catedral — ou Sé da cidade.

Macaque in the trees
Interior da Igreja Santa Cruz dos Militares, onde D. João trocou gato por lebre

A visita começa pelo estacionamento do CCBB, de frente para a Av. Presidente Vargas, onde as histórias partem da antiga alfândega, hoje Casa França Brasil, local de desembarque das mercadorias que chegavam à cidade pela Baía de Guanabara. Dali, a vista alcança a Candelária. Diz a lenda que, no início do século 17, uma tempestade naufragou o navio Candelária, no qual teriam sobrevivido o casal de portugueses Antonio Martins de Palma e Leonor Gonçalves, que prometeu construir ali uma ermida dedicada a Nossa Senhora da Candelária. A inauguração da igreja só aconteceu em 1811, com altares esculpidos pelo mestre Valentim, substituídos em reformas posteriores. O maior destaque são as cúpulas de pedra de lioz portuguesa da então mais alta construção da cidade, com 62,24 m de altura. Lamentavelmente, sua história tornou-se indissociável da Chacina da Candelária, quando foram assassinados ali oito adolescentes, em julho de 1993.

Contradição emblemática

O próprio prédio do CCBB é destaque, imponente construção inaugurada em 1906 para abrigar a Associação Comercial, transformada em sede do Banco do Brasil, em 1920, e em CCBB, em outubro de 1989. A rua pode ser vista em perspectiva daquele ponto, com imóveis que contam a história da cidade em seus primeiros 435 metros — da Avenida Presidente Antônio Carlos à Presidente Vargas —acrescidos pelos 185 metros restantes até a Rua São Bento. Ela passou a Primeiro de Março em 1875, em homenagem à vitória aliada na Batalha de Aquidabã, que encerrou a Guerra do Paraguai.

Em seguida vem o Instituto Brasileiro de Audiovisual Darcy Ribeiro, que “homenageia um dos mais importantes brasileiros relativos às políticas educacionais”, conforme ressalta Rainha; a sede histórica dos Correios, um dos serviços criados no país após a chegada da Família Real; a Igreja Santa Cruz dos Militares, mais antiga daquele conjunto; e a sede da Justiça, a segunda do país, precedida por Salvador, cuja porta de ferro fundido da metade do século 19 denuncia a idade do imóvel, de estilo eclético.

A seguir vem o conjunto de casarões do Arco do Teles, da família de nobres portugueses Telles de Menezes, construção do século 18 para comunicar a antiga Praça do Carmo, atual Praça 15, com a Rua da Cruz, hoje Ouvidor, circuito da alta sociedade da época. Pulando-se a Igreja Nossa Senhora do Carmo, há o que restou do Convento do Carmo, rasgado pelo espigão de 140 metros do Centro Cândido Mendes, aberração arquitetônica que desconsidera o entorno característico da ambiência para as concentrações de imóveis históricos.

Chega-se, então, à cereja do bolo: a Praça 15, onde está o Paço Imperial, em frente à Igreja Nossa Senhora do Carmo, a antiga Sé. Ali, segundo Rainha, ocorre uma “contradição emblemática”: “Em 15 de novembro, Dom Pedro II foi destituído do trono e cria-se uma república que é, na realidade, um ‘novo império’, suportada por militares, eleitores do primeiro presidente, Floriano Peixoto, que dirige o país com mão de ferro. Era preciso apagar a memória da Família Real. Uma das primeiras iniciativas do novo regime foi trocar o nome de Largo do Paço por Praça 15”, relata o professor. A estátua equestre da Praça 15 não é a de Deodoro da Fonseca, que proclamou a República, mas do general Osório. Rainha conta ainda história parecida sobre o Palácio Tiradentes, sede da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, antigo Parlamento Imperial, que abrigava a Cadeia Velha. “Tiradentes era um desconhecido e foi alçado a herói pela República, personificado na vigorosa estátua de um homem barbado, à semelhança de Jesus Cristo”, diz.

Já a história do Paço Imperial começa em 1733, quando o governador Gomes Freire de Andrade pede licença ao rei Dom João V para construir uma sede para o governo do Rio de Janeiro. A obra, projeto do engenheiro militar português José Fernandes Pinto Alpoim, foi iniciada em 1738. Ele aproveitou os edifícios pré-existentes, o Armazém Real e a Casa da Moeda, que continuaram a funcionar no andar térreo. Quando a sede do Vice-Reino do Brasil foi transferida de Salvador para o Rio de Janeiro, em 1763, a Casa dos Governadores passou a casa de despachos do Vice-Rei, promovida a Paço Real em 1808, com a chegada da Família Real. Foi de uma de suas sacadas que o imperador Pedro I disse ao povo “fico”, em 9 de janeiro de 1822, diante da iminente ameaça de seu retorno a Portugal, e a princesa Isabel leu a Lei Áurea, em 13 de maio de 1888.

O passeio termina na quarta igreja colonial de São José, em apenas 435 metros de rua — Rainha explica essa concentração pela escolha dos endinheirados por igrejas como símbolos de poder —, e no Edifício Estácio de Sá, exemplar modernista, erguido em 1956, nas franjas do Morro do Castelo. “Aqui começa uma história que não existe mais, do morro onde nasceu a cidade, perto da foz, para garantir a defesa da cidade. Foi demolido pelo Plano Agache, que preconizava mais torres e concreto armado, e pelo prefeito Carlos Sampaio, sócio da empresa que promoveu o desmonte”, alfineta, lembrando a força que tinham as Irmandades naquela época, no caso do Morro do Castelo, representada pelos jesuítas.



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