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Prefeito não implementa linha de microcrédito, e moradores da Vila Kennedy se queixam de prejuízos e dívidas

Jornal do Brasil MARIA LUISA DE MELO, malu@jb.com.br

Quase seis meses depois de terem seus quiosques e eletrodomésticos destruídos por agentes da Prefeitura, durante ação da Secretaria de Ordem Pública, 52 barraqueiros da Praça Miami, na Vila Kennedy, Zona Oeste da cidade, ainda aguardam uma linha de microcrédito prometida pelo prefeito Marcelo Crivella, para recompor o prejuízo. Há um mês, 52 novos quiosques foram entregues pela Prefeitura, mas apenas dez reabriram as portas. Sem freezer, geladeira e outros eletrodomésticos, a maioria dos vendedores ainda não conseguiu voltar ao batente. A linha de financiamento, batizada de “Rio Empreendedor”, criada pela Prefeitura para atender a população dali e publicada no Diário Oficial no dia 13 de março, foi cancelada.

A consequência da promessa não cumprida pelo prefeito Marcelo Crivella reflete-se no dia a dia da população: geladeira vazia e muitas contas não-pagas.

“Eu e meu marido estamos com o nome negativado, porque não conseguimos pagar nossas contas durante os meses (nos quais) ficamos sem o quiosque. Há sete anos, tiramos nosso sustento e o dos nossos três filhos da praça. Na ação, a Prefeitura destruiu os três freezers que nós tínhamos, depois propôs uma linha de microcrédito para que a gente pagasse, parcelado, pelo prejuízo que eles nos causaram. Mas, agora, nem isso querem cumprir”, reclama Dayanne Cristine Moreira da Silva, de 33 anos, ao lado dos três filhos. Ela mostra fatura de cartão de crédito sob negociação e conta de luz com aviso de corte.

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Dos 52 quiosques entregues pela Prefeitura, só dez foram reabertos. Uma linha de microcrédito foi publicada no Diário Oficial, mas foi cancelada (Foto: Bruno Kaiuca)

“Só queremos trabalhar com dignidade. O que temos agora é um freezer emprestado, que não sabemos até quando vão deixar com a gente. E nada de ressarcimento por parte da Prefeitura. Não queremos mais esperar. Perdemos muita mercadoria e só temos promessas não cumpridas. A linha de microcrédito virou lenda. Meu sentimento é de fracasso e impotência diante dos meus filhos”, acrescenta.

Mais adiante, a vendedora de crepe Eliane Assis, de 38 anos, chora ao contar a dificuldade que vem passando para sustentar cinco filhos nos últimos seis meses.

Ela e o marido trabalhavam no quiosque destruído e além de perder freezer e geladeira, perdeu também a máquina de fazer crepes – iguaria carro-chefe de sua barraca.

“Me sinto humilhada. Minha barraca estava cheia de mercadorias. Perdi tudo. O microcrédito era uma esperança para comprar tudo de novo, mas nem isso querem fazer”, conta ela, em casa humilde que conseguiu erguer com o dinheiro do trabalho na barraca, há oito anos. Eliane voltou ao trabalho há cerca de um mês, mas as vendas ainda estão limitadas. Ela, agora, conta apenas com uma geladeira emprestada por uma amiga. Ainda precisa reaver sua máquina de fazer crepes, freezer, entre outros pertences.

“Desde que o Exército chegou aqui, não apreenderam armas nem drogas. Não controlaram tráfico nem a violência. Só mexeram conosco, que somos trabalhadores”, diz ela em referência às ações do Exército junto à Secretaria de Ordem Pública (Seop).

Depois da repercussão negativa da operação da Seop, ainda em março, o prefeito Marcelo Crivella prometeu que, através do Programa Rio Empreendedor, um financiamento de até R$ 15 mil seria disponibilizado aos moradores. Na ocasião, os barraqueiros foram orientados pela Prefeitura para abrir conta como pessoa jurídica no Banco de Brasil, instituição escolhida para arcar com o microcrédito. Mas a promessa não foi à frente, sob alegação de que a linha de crédito Rio Empreendedor “tornou-se inviável devido às altas taxas de juros do mercado”. A Prefeitura alega ainda que “a Secretaria Municipal de Desenvolvimento, Emprego e Inovação busca outra possibilidade junto à Caixa Econômica, que está em processo de análise”.

O JB pediu uma entrevista ao secretário de Desenvolvimento, Emprego e Inovação, Renato Moura, mas o pedido foi negado.

Procurada, a Caixa Econômica Federal informou que houve uma reunião com a Prefeitura, no último dia 3, para esclarecimento sobre o “microcrédito produtivo orientado Caixa”. Desde então, “a Prefeitura se comprometeu a reunir maiores informações, como o quantitativo de comerciantes interessados neste tipo de crédito, e verificar a possibilidade de uma apresentação do produto para estes”. Depois disso, moradores contam que houve um encontro com representantes da Caixa e dos barraqueiros para apresentação do produto, mas nada ficou resolvido.

“O que mais nos revolta é que nós poderíamos conseguir esse financiamento sem o intermédio da Prefeitura. Indo até uma agência da Caixa, por nossa própria conta. Não estão nos ajudando”, critica a vendedora Grasiele Gomes, de 40 anos.

Uma outra promessa ainda não cumprida foi a da Light. A concessionária de energia elétrica comprometeu-se a doar um refrigerador para cada barraqueiro. Procurada, a empresa informa, desde o início do mês, que os refrigeradores serão entregues “nas próximas semanas”, sem fixar um prazo para tal.



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