Jornal do Brasil

Rio

No Rio, número de lixeiras caiu à metade nos últimos seis anos, sem que houvesse a necessária reposição

Jornal do Brasil CELINA CÔRTES, celina.cortes@jb.com.br

Quando criada a Lei 3273/2001 — batizada de Lixo Zero —, em 6 setembro de 2001, na primeira gestão do ex-prefeito César Maia, foram instaladas na cidade inúmeras papeleiras, como a Comlurb chama as pequenas lixeiras cor de laranja, cinza, verdes ou azuis, coletoras de lixo. A partir de 20 de agosto de 2013, quando a lei começou a ser aplicada, com fiscalização e cobrança de multas, os sujismundos predominantes eram os que atiravam ao chão guimbas de cigarro. Às vésperas de completar 17 anos, a legislação tem cumprido seu papel educativo, entretanto, o número das papeleiras, que se espalhavam pela cidade, caiu à metade nos últimos seis anos.

Macaque in the trees
Ricardo Coelho joga seu lixo no saco improvisado (Foto: Marcos Tristão)

A Comlurb não contabiliza o total arrecadado com as multas, de 20 de agosto de 2013 a 27 de agosto de 2018, em função da correção monetária. Porém, as 19.724 multas aplicadas no período, considerando o atual valor de R$ 205,60, a empresa teria arrecadado mais de R$ 4 milhões, suficientes para comprar quase 58 mil papeleiras, a R$ 70, a unidade.

Segundo a Comlurb, entre 2012 e fevereiro de 2018 foram instaladas 64.616 papeleiras no Rio. Dessas, 13.675 se perderam, sobretudo pelos roubos e atos devandalismo, causas que chegam a representar 25% de perdas em algumas regiões. Atualmente, existem em torno de 30 mil papeleiras, menos da metade do volume instalado nos últimos seis anos. A perda anual é estimada em cerca de cinco mil unidades, tanto por vandalismo quanto por necessidade de reparo e manutenção. Quando muito danificadas, sem chances de reparo, conforme a empresa, as papeleiras são retiradas do local e entram no programa de reposição. No entanto, na prática não é o que se vê.

Macaque in the trees
Saco de lixo improvisado foi instalado pelo ambulante Sérgio Gomes (Foto: Marcos Tristão)

Só na Avenida Rio Branco, uma das principais artérias da cidade, no Centro, existem apenas duas papeleiras no lado ímpar, da Biblioteca Nacional, na Cinelândia, à Avenida Presidente Vargas. Em cada estação do Veículo Leve sobre Trilho (VLT), contudo, há quatro papeleiras, duas de cada lado do acesso e outras duas na saída. Na avenida propriamente dita, porém, conta-se nos dedos o número de caixas coletoras, obrigando os agora bem-educados — pela força da legislação — transeuntes a segurar seu lixo nas mãos ou colocá-lo nos bolsos até encontrar o tão ansiado destino final.

É o que acontece, por exemplo, com o aposentado Ricardo Coelho, 59, que na última segunda-feira acabou recorrendo a um improvisado saco plástico amarrado a um poste, em frente ao número 133 da Avenida Rio Branco, para se livrar de um pedaço de papel. “Isso acontece no Rio como um todo. Na Zona Sul havia muitas lixeiras, agora, até lá elas viraram uma raridade. Na Zona Norte, então, nem se fala. Costumo rasgar o papel e guardá-lo no bolso até encontrar uma lixeira, o que está cada vez mais difícil”, lamenta.

Macaque in the trees
A caçamba que também recebe dejetos miúdos (Foto: Marcos Tristão)

Quem instala no improviso o lixinho de plástico escuro diariamente ali é o desempregado Sérgio Gomes, 54 anos, que busca emprego em serviços gerais há um ano e, enquanto isso, vende sacolas como ambulante na Rio Branco, entre as ruas da Assembleia e Sete de Setembro, do lado ímpar da Rio Branco. “Todo dia boto essa lixeira para as pessoas não jogarem seus restos no chão”, explicou, enquanto recolhia suas sacolas para escapar de uma investida dos fiscais da prefeitura.

Da Rua Pedro Lessa à Rosário, do lado ímpar, existe apenas uma caixa coletora. Fora o porto seguro das estações do VLT, despejar lixo é uma epopeia na Rio Branco — o que dá uma medida do que pode ser a situação no resto da cidade —, no trecho a partir da Avenida Presidente Vargas para quem vem da Praça Mauá. Antes dali, entretanto, há pelo menos duas papeleiras azuis em cada quarteirão até a Praça Mauá, benesse atribuída ao Porto Maravilha, selo que carimba os coletores. São as únicas que ainda mantêm o dispositivo para receber as guimbas de cigarro.

Macaque in the trees
27/08/2018 Rio de Janeiro (RJ) Falta de lixeiras no centro do Rio, Av. Rio Branco (Foto: Marcos Tristão)

Na esquina de Rio Branco com Presidente Vargas, o jornaleiro Felipe Silva tomou a precaução de encostar à arvore em frente à sua banca de revistas um barril de plástico azul para quebrar o galho dos pedestres que não têm o que fazer com o lixo: “Já houve caso de cliente fumando cigarro aqui na banca sem ter onde jogar a guimba. Tem gente que vem da Rua do Ouvidor até a banca só para isso”.

Sem reposição

Em frente ao Edifício Edson Passos, próximo à esquina com Sete de Setembro, o jornaleiro Felipe Carvalho tomou providência semelhante: mantém duas caixas de papelão de cada lado de sua banca. “Aqui tinha um coletor de lixo, destruído numa das primeiras passeatas ‘Fora Temer’, antes que de ele assumir a presidência, no ano passado. Mas nunca foi reposto”, diz. A seguir, a ambulante capixaba Edvirgem Porto, há sete anos na esquina de Rio Branco com Sete de Setembro, já se acostumou a amarrar uma sacola de plástico à carrocinha onde vende doces e biscoitos amanteigados. “Na hora que saio, vedo o saco, e é a própria Comlurb que recolhe”, explica.

Em frente ao prédio 110 da Rio Branco, o Conde Pereira Carneiro, uma caçamba faz o papel das inúmeras lixeiras que faltam por ali: além do material de obras que justifica sua presença, ostenta restos de quentinhas, papeis amassados e outras miudezas que deveriam ser destinados aos coletores de lixo. Também não é difícil encontrar sacos plásticos pendurados nas árvores como frutas exóticas, num dos improvisos que a população cria ante a falta de locais apropriados para este fim.

E se não há uma única papeleira dos dois lados do nobre trecho entre a Avenida Almirante Barroso e a Rua Araújo Porto Alegre, onde ficam o Theatro Municipal e o Museu Nacional de Belas Artes, transformado em boulevard na reforma promovida pelo ex-prefeito Eduardo Paes, a Cinelândia está equipada com oito coletores, com tudo para virar um exemplo de limpeza na cidade, apesar da presença de moradores de rua.



Recomendadas para você