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País - Eleições 2018

Popularidade de Lula, uma faca de dois gumes para a esquerda

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O constante aumento da popularidade de Lula complica ainda mais as já incertas eleições presidenciais, inclusive para a própria esquerda, já que seu dirigente histórico, preso por corrupção, será com toda probabilidade excluído da disputa.

As intenções de voto no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva aumentou de 30% a 39% desde junho e está 20 pontos na frente de Jair Bolsonaro, segundo pesquisa Datafolha publicada na quarta.

Outras duas pesquisas atribuem a ele 37%, o dobro do candidato de extrema-direita.

"O povo quer Lula", proclama o PT, mas a análise das pesquisas pode oferecer interpretações menos conclusivas.

Lula é citado espontaneamente como o candidato preferido de 20% das pessoas questionadas pelo Datafolha (eram 10% em junho) e Bolsonaro por 15%, enquanto que nenhum dos outros onze candidatos é mencionado por mais de 2%. E 41% ainda não sabe em quem votará.

"Lula cresce por efeito da 'notoriedade da marca' e pelo desconhecimento da maioria dos demais candidatos, ou seja, ele e Bolsonaro são os elementos mais conhecidos aqui, principalmente com o ex-presidente tendo feito descaradamente campanha antecipada, em nome de uma suposta ‘caravana’ pelo Brasil", afirma Jason Vieira, da consultora Infinity Assets, recordando que o líder do PT "vai aguardar, tentar gerar um factoide politico, pois precisa dizer que não pode ser eleito".

Lula é, além disso, uma figura proeminente no país desde o fim da ditadura militar (1964-85). Desde 2002, ganhou diretamente duas eleições e outras duas através de sua herdeira política Dilma Rousseff.

"Lula domina o panorama político há vinte anos ou mais" e "quando ele não figura, a indecisão é muito grande", afirma José Augusto Guilhon Albuquerque, professor emérito de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP).

A campanha de Lula evoca seus anos de governo, de crescimento com programas de inclusão social. "Lula presidente, para que o Brasil volte a ser feliz", é seu lema.

E o PT denuncia dentro e fora do Brasil a "prisão injusta" de seu líder. O Comitê de Direitos Humanos da ONU chegou a pedir que ele possa disputar a eleição, mesmo que ainda tenha recursos judiciais pendentes.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que até agora não se pronunciou a respeito, mas deverá fazê-lo no máximo em meados de setembro e com toda certeza invalidará a candidatura de Lula, evocando a Lei da Ficha Limpa.

Dilemas do PT


Uma das chaves das eleições residirá na capacidade de Lula transferir seus votos para Fernando Haddad, seu companheiro de chapa, que deverá assumir seu lugar quando o TSE se pronunciar.

Segundo o Datafolha, o ex-prefeito de São Paulo tem apenas 4% das intenções de voto nos cenários sem Lula. E 31% dos eleitores de Lula afirmam que votarão na pessoa que ele indicar.

Alguns analistas acreditam que a presença de Lula complica a vida de Haddad, que até agora não foi designado como seu substituto oficial.

"Era correto insistir na candidatura de Lula, mas lançando mais cedo o nome de seu eventual substituto. Isso teria dado boas perspectivas ao candidato. O que faz o PT não é bem isso. Prolonga a 'candidatura' de Lula até o limite, mas visivelmente faz corpo mole com quem é o real candidato", afirma o acadêmico Ruy Fausto, autor de "Caminhos da esquerda: elementos para uma reconstrução".

Jason Vieira acredita que o PT manterá essa postura enquanto for possível.

Outros candidatos em condições de dividir o eleitorado lulista expressam suas críticas.

"Ninguém está acima da lei. Faltam pucos dias para a conclusão do processo eleitoral e ainda estamos em uma situação que fragiliza muito a decisão dos eleitores", declarou na terça-feira Marina Silva, a segunda colocada nas pesquisas sem Lula.

Para o ex-ministro de Lula, Ciro Gomes, "o PT está agindo de má fé porque todo mundo sabe que Lula não será candidato".

Muitas conjecturas apontam para um segundo turno Bolsonaro-Haddad ou Bolsonaro-Geraldo Alckmin, o candidato favorito dos mercados e que até agora não supera os 10% das intenções de voto.

"O número de indecisos é a coisa mais enigmática desta eleição. Eles vão se definir no segundo turno", conclui Vieira.



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