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País - Editorial

Bancos sem educação

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Não estivesse o país condenado a conviver com perplexidades, que são muitas, como se vê no dia a dia, teria causado espanto e revolta, quando ficou sabendo que, no semestre passado, os lucros dos bancos que operam por aqui quase ombrearam seus lucros com os investimentos gerais que o governo aplicou no campo da educação, durante igual período. Confirmada essa preocupante comparação, a sociedade brasileira se revelou diante de um fenômeno inadmissível para a opinião pública de nações civilizadas.

Principalmente aquelas que zeram da educação – ela antes de qualquer outra preocupação – o pilar de seu grande desenvolvimento. Uma coincidência facilmente percebida é que os países mais educados são exatamente os que não foram escravizados pelas instituições financeiras.

Quanto aos escândalos, como esse que semestralmente se repete no Brasil, com a divulgação dos lucros, em outras partes do mundo resultariam em penas rigorosas. Sobre as manobras perversas de juros escorchantes adotadas também pelas instituições financeiras oficiais, como vemos aqui, diga-se que são algo totalmente fora de cogitação os mercados internacionais.

Intolerável. Tanto que nos raros casos ocorridos em centros asiáticos, o banqueiro vai para a cadeia ou suicida-se. Os nossos costumam ir para Paris. Os outros governos, diferentemente dos nossos, conseguem preservar sua autoridade, impõem-se com vigor e cobram decência nas relações com os clientes. Aqui, a Fazenda e o Banco Central, quando se dirigem aos donos de bancos, nunca para admoestá-los, falam com aquela humildade dos negros cativos.

Posta a desconcertante comparação, que foi matéria de primeira linha neste JB, edição de terça-feira, a pergunta que não pode calar é o porquê de os bancos tanto enriquecerem e a educação tão empobrecida, para não se falar de outros contrastes, que deviam merecer reações corajosas dos governantes.

O muito e o tão pouco seriam, no caso, coincidência desimportante? Teriam algo a ver a riqueza fabulosa e a indigência constrangedora?

Como os dirigentes nada têm feito, nem mesmo ameaçam fazer, restaria a expectativa de que os candidatos à Presidência da República (um deles estará assumindo as rédeas do poder em janeiro ) ferissem o grave problema da agiotagem praticada pelos bancos; mas que o ferissem com necessária clareza, coragem, para que não se revelem comprometidos, de véspera, com a poderosa engrenagem dos agentes financeiros, esses mesmos que sangram o país, até agora impunemente.

Nos debates manhosos pela televisão, o problema tem sido tratado pelos candidatos apenas a bordo de referências passageiras. É tal a gravidade do problema causado pelos bancos, que, em rigor, devia figurar como assunto predominante na pauta dos debatedores. Mas, quando falam, não oferecem garantias transparentes de que estariam dispostos a se vestirem de xarife para atacar o banditismo que rege o sistema financeiros no Brasil.

E, se vão um pouco além, deploram a situação das vítimas dos juros escandalosos, mas não atiram contra os agressores. Um balancete que nivela bancos e educação, aqueles cada vez mais ricos, esta cada vez mais pobre, é suficiente para sacudir os governos - o cessante e o que vai começar - e mostrar que a situação chegou a um ponto em que não mais cabe fazer vistas grossas.

Os donos dos dinheiros perderam as medidas no avanço sobre a sociedade. Monsier Confort, homem de negócios, quando decidiu vir para Minas, escapando de uma Europa conflagrada, foi aconselhado por um amigo, já veterano nestas terras, a conviver com perplexidades. Diria que chegou a conhecer muitas, mas não tão graves como a que produzem os bancos agora, meio século depois.



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