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País - Editorial

Novas caras nas eleições

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Recentes dados que procuram oferecer melhor panorama sobre o papel e a dimensão das eleições que virão em outubro confirmam observação há muito elaborada por cientistas: elas constituem um processo que prefere não se caracterizar por atropelos; optam por seguir um roteiro fenomenológico; e, gradualmente, as camadas sociais vão abrindo caminho para o protagonismo. Portanto, uma caminhada que se faz com passos curtos, morosos, mas constantes.

Neste 2018, chamados às urnas, os brasileiros começam a perceber que, na evolução desse processo, as eleições revelam maior participação de segmentos da sociedade até agora ausentes; se não tanto, contempladas com modestas inclusões. A começar pela presença feminina que se submete ao voto. Representa quase uma terça parte das candidaturas registradas no TSE e nos tribunais regionais. Se o olhar for ao passado, é algo expressivo.

Com esse número, elas revelam nova contribuição no cenário de manifestação democrática. Alcançam expressivo patamar de 30% no quadro geral dos concorrentes. Pois, não bastasse o fato de terem chegado a quase um terço do universo em disputa, vem dos tribunais outra informação, não menos importante, além daquele percentual de participação: o contingente feminino se distribui por todo o território nacional.

Destaca-se também nas estatísticas, ainda incompletas e sujeitas a alterações, pois só na semana passada é que se encerrou o tempo hábil para os registros, a presença de militares na corrida para as urnas. Mesmo na dependência do fechamento dos registros, é sabido que mais de 100 deles se dispuseram a concorrer, sem que falte um ex-capitão, lançado para concorrer à Presidência da República, cargo a que só aspiravam os generais, quando tudo podia se resolver longe do aval dos eleitores. Sem levar em conta avaliação de temperamentos e de propostas, há que se considerar, pelo menos, que eles optam pela via democrática para chegar ao poder.

Ainda quanto à presença de militares, cinco dentre eles apresentaram-se para disputar a governadoria estadual, e 38 postulam cadeiras no Senado e na Câmara dos Deputados. Não escapa dos analistas a constatação de que a contribuição dos homens da caserna é hoje, portanto, bem mais expressiva, se comparada com o passado.

Em ambos os cenários, feminino e militar, fica para melhores avaliações no futuro o fato de que essa participação vai revelar sua quase perfeita distribuição por todos os estados, independentemente de sua expressão política ou econômica. Ora, para um país que ostenta entre os principais desafios a releitura de seu perfil federativo, a diversidade de candidatos de camadas sociais surgidas de Norte e Sul, de Leste a Oeste, pode reservar, no seu conteúdo, alguma preocupação em mostrar um Brasil mais diversificado, menos metropolitano, menos desigual. Já não é pouco.

A presença desses setores, geralmente equidistantes ou com modesta participação na condução das eleições, revela-se expressiva, antes mesmo de se submeterem ao teste de outubro. Originários de todos os cantos, trazem um pouco do espírito federativo, que tanto tem sido reclamado. Nem cabe discutir se algumas dessas candidaturas revelam apenas o embalo de sonhos impossíveis, que as urnas haverão de derrubar impiedosamente. Num primeiro momento, o que está no jogo eleitoral não é a vitória, mas a participação.

Por essas e outras razões, conclui-se, como se disse, que o processo eleitoral é, substancialmente, um exercício. Se antes as mulheres se desinteressavam e os militares não se achavam adequados para a política, a experiência de 2018 pode ser um passo à frente na marcha rumo a eleições cada vez mais democráticas e democratizantes, só interrompida nos tropeços e arranhões sofridos pelas instituições.



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