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Coluna da Segunda - Só Bolsonaro não viu

Jornal do Brasil OCTÁVIO COSTA, octavio.costa@jb.com.br

Estamos a exatos quarenta dias do primeiro turno das eleições para Presidente da República e, no próximo sábado, começa enfim a propaganda gratuita dos candidatos no rádio e na TV. Trata-se da campanha mais curta da história. E especialistas, como o cientista político Antonio Lavareda, entrevistado ontem pelo JB, acreditam que Geraldo Alckmin e Fernando Haddad devem ser os principais beneficiados pelo fatiamento do tempo nas mídias tradicionais. Graças aos critérios de divisão determinados pelo Congresso, Alckmin ganhou direito a um verdadeiro latifúndio, com 11 minutos de exposição diária, divididos em dois blocos, e 434 inserções durante o primeiro turno (12 por dia). Haddad (no caso de impugnação de Lula pelo TSE) terá tempo mais que suficiente para se fazer conhecido dos eleitores e colar sua imagem no carisma do ex-presidente. Com 4 minutos e 46 segundos e 188 inserções, o PT, que sempre exibiu produções criativas, saberá dar conta de seu recado.

No horário eleitoral gratuito, quem sai perdendo é o deputado Jair Bolsonaro. Ele terá apenas 16 segundos diários e 11 inserções. Fica bem atrás de Ciro Gomes (1 minuto e 16 segundos e 50 inserções) e até mesmo de Marina Silva (42 segundos e 28 inserções). O ex-ministro Henrique Meirelles aparece em terceiro lugar com a generosa fatia de 3 minutos e 50 segundos e 151 inserções. Mas seu problema não é tempo na TV e no radio, mas sim o fardo pesado de representar o legado (melhor dizendo, a impopularidade recorde) de Michel Temer. Meirelles investiu R$20 milhões do próprio bolso na campanha. É dinheiro jogado ao vento. Faria melhor se distribuísse seus bilhões em causas filantrópicas, como faz Bill Gates. Quanto a Alvaro Dias, que desfrutará de 1 minuto e 20 segundos e 52 inserções, parece que nem ele mesmo leva a candidatura à sério. Já é hora de ele abrir o olho.

Voltemos, porém, a Jair Bolsonaro. Dizem que a força do ex-capitão do Exército está nos seus seguidores no Facebook e no Twitter. Estima-se que ele tem um público fiel de 8 milhões de seguidores nas redes sociais. E aí estaria sua força e o motivo de exibir algo em torno de 20% nas pesquisas de intenções de voto. Dizem também que esse percentual estaria cristalizado e o levaria ao segundo turno. Cá com os meus botões, não estou tão certo disso. Acho que o deputado do PSL sofrerá desgate na reta final da campanha. Não só pela exígua exposição nas mídias tradicionais (8 segundos em cada bloco), mas, também, como reflexo de suas posições radicais e anacrônicos.

Nos comícios pelo interior de São Paulo, Bolsonaro repetiu, em tom de ladainha, seus ataques às feministas, às diferenças de gênero, à educação sexual e ao que ele chama de ‘ameaça comunista’. A claque conservadora que o acompanha respondeu com aplausos. Mas qualquer pessoa minimamente antenada com a evolução da sociedade, da cultura e da ciência só pode ter uma reação diante da pregação reacionária do ex-capitão: aplicar-lhe uma sonora vaia. O discurso de Bolsonaro, como o do macarthismo, ficou vencido em meados dos anos 50 do século passado. O tempo passou na janela e só Bolsonaro não viu. Diante da pobreza de suas ideias (se é que ele as tem), o ex-capitão, de fato, não precisa de mais de 8 segundos em cada bloco. Mais do que isso seria um desperdício.

Um sonho de vida

Ainda não li as memórias de José Dirceu. Pelo que vazou, ele conta que chorou ao ser demitido pelo presidente Lula no dia 16 de junho de 2005, após Roberto Jefferson responsabilizá-lo pelo mensalão. É um pouco diferente a versão das pessoas que trabalhavam com ele na Casa Civil à época. Em breve resumo, eis o que recordam. Quando Jefferson o atacou, Zé Dirceu estava em Lisboa. Voltou de Portugal na noite do dia 15 de junho e, na manhã seguinte, assim que chegou ao gabinete, às 9 horas, comunicou a decisão de deixar o cargo. Os assessores ficaram perplexos e pediram que voltasse atrás. O ministro, porém, explicou que estava apanhando sozinho. “Deixaram-me com a brocha na não”, teria dito aos mais íntimos. À tarde, o homem que fundou e estruturou o PT tornou pública sua carta de demissão. Portanto, não foi demitido. Pediu demissão. Os assessores não sabem se o chefe chorou na audiência com Lula. Zé Dirceu sempre foi duro na queda, mas vai ver que percebeu que se despedia de um sonho de toda a vida.



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