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A falta de propostas de combate à desigualdade entre presidenciáveis aflige

Jornal do Brasil GILBERTO SCOFIELD JR.

Das poucas certezas que eu tenho na vida, uma delas é considerar a desigualdade de renda no Brasil uma imoralidade. Penso que não há projeto de país que dê certo sem desconcentrar a prosperidade das mãos da meia dúzia de milionários de sempre. E me aflige não ouvir essa discussão entre os candidatos à Presidência no debate eleitoral. A ideia de construir muros, cercas, grades e armar a população me soa de uma boçalidade colossal diante de tanta miséria. Não será andar armado que me trará tranquilidade. Passar todos os dias de manhã, como eu passo, pela Avenida Graça Aranha e perder a conta da quantidade de gente, famílias inteiras, dormindo nas calçadas é o que não me deixa deitar a cabeça no travesseiro em paz comigo mesmo ou com meu país. Se isso é ser esquerdista, paciência.

Ano passado, o jornal “The Guardian” publicou um artigo muito bom, chamado “Quanto maior a desigualdade, mais chances de nos afastarmos da democracia”, escrito pelo professor da Universidade de Nova York, Branko Milanovic (autor do espetacular livro “A desigualdade no mundo: uma nova abordagem para a era da globalização”). Nele, o autor usa de big data para provar que a desigualdade não é apenas uma questão moral, mas política e de desenvolvimento econômico. Com uma foto imensa da favela da Rocinha com os prédios de luxo de São Conrado ao fundo ilustrando o artigo, Milanovic pondera que tanto a tese da igualdade de renda absoluta quanto a desigualdade radical como a vista na América Latina impedem o progresso econômico e social. E que, em termos de desenvolvimento econômico, há desigualdades que empurram um país para a frente – as que aparecem por conta de esforços diferentes, por exemplo – e outras que o atrasam – as que derivam de gênero, raça ou da riqueza herdada. Em outras palavras: não há como se ater à meritocracia se as oportunidades estão nas mãos de poucos.

E mais: há uma relação forte entre desigualdade e política. Diz Milanovic: “Em todo o sistema político, mesmo na democracia, os ricos tendem a ter mais poder político que os pobres. O perigo é que este poder seja usado para promover políticas que ajudem a cimentar o poder econômico dos ricos. Quanto maior a desigualdade, maiores as chances de nos afastarmos da democracia e nos transformarmos numa plutocracia”. Plutocracia é o regime onde o poder é exercido pelos mais ricos. Ainda no “Guardian”, o professor defende que o exercício do poder não pode se guiar apenas pelas estatísticas de médias – como renda per capita, por exemplo, que é dividir toda a riqueza do país pelo número da população -, mas pelo uso de uma grande base de dados que ajude a detectar anormalidades como a desigualdade.

A ideia de que a discussão sobre a redução de desigualdade é necessariamente uma coisa de “comunista” ou de esquerda já há muito tempo ruiu. Semana passada, por exemplo, a revista “The Economist” – que está longe de ser um panfleto sindical – publicou um artigo chamado “Assim como a desigualdade cresce, aumenta também a influência política dos ricos” em que cita o magistral livro “Por que as nações fracassam”, do economista e professor do MIT, Daron Acemoglu, e do cientista político e professor da Universidade de Chicago, James Robinson. Repetindo: Universidade de Chicago, berço do neoliberalismo. A “Economist” diz algo que parece óbvio, mas não é: a prosperidade de um país está também na capacidade de governos de garantir igualdade para todos. A revista cita também recente estudo dos professores Derek Epp e Enrico Borghetto sobre parlamentos europeus e desigualdade.

“A relação entre a riqueza concentrada e o poder político dos ricos dificilmente se limita aos gastos políticos ou à América. Os ricos têm muitos meios para moldar a opinião pública: financiar think tanks que se vendem como apolíticas, por exemplo, ou comprar empresas de comunicação. Embora seu poder às vezes possa ser usado para influenciar o resultado de um voto em particular, ele é frequentemente empregado de forma mais sutil, para moldar narrativas públicas sobre quais problemas merecem atenção. Epp e Borghetto analisaram projetos de lei apresentados a parlamentos de nove países europeus entre 1941 e 2014. A crescente desigualdade, segundo eles, está associada a agendas políticas mais focadas em questões relacionadas à “ordem social”, como crime e imigração. Questões como justiça econômica são descartadas. Eles atribuem isso ao “poder negativo da agenda” dos ricos. À medida que sua riqueza aumenta, eles têm uma maior capacidade de pressionar os políticos para enfatizar alguns tópicos em vez de outros. A evidência de que a riqueza concentrada contribui para o poder concentrado é preocupante. Sugere que reduzir a desigualdade se torna menos provável, mesmo quando se torna mais urgente”, diz a revista.

O artigo, no entanto, não termina pessimista: “Os ricos são poderosos, mas não todo-poderosos. Ou iguais em sua determinação de manter as políticas distributivas fora da agenda. E as democracias ocidentais ainda funcionam. Se os líderes políticos tentassem, poderiam descobrir que a redistribuição é um tema vencedor nas urnas”. A dois meses das eleições, não ouço propostas por aqui.



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