Jornal do Brasil

País - Artigo

A eternidade do cosmos

Jornal do Brasil MARIO NOVELLO*

Nos últimos anos os cientistas realizaram uma etapa importante no conhecimento do mundo: foi ultrapassada a avalanche midiática que pretendia identificar a imagem simplista e ingênua do chamado big bang – um cenário de descrição do universo em sua fase extremamente concentrada – com o “começo do mundo” como se fora uma grande explosão.

Com efeito, cresceu na comunidade cientifica internacional a aceitação de que o universo teve um tempo de evolução ilimitado em seu passado. Uma consequência notável desse novo cenário foi a imediata separação da visão cientÍfica do mundo com a religião, uma vez que o cenário do big bang tinha sido apropriado por uma fantasiosa identificação religiosa.

A partir da observação de que o volume total do espaço tridimensional varia com o tempo (cósmico) alguns cientistas consideraram a teoria de que a expansão observada do universo é somente uma fase e que outras configurações teriam ocorrido no passado.

Uma proposta nesta direção foi consubstanciada em um modelo cósmico do físico Richard Tolman que, na década de 1930, examinou a possibilidade de além da atual fase de expansão do universo, teria existido uma fase anterior na qual esse volume teria diminuído.

A dificuldade em aceitar essa configuração esbarrava na impossibilidade de existir uma continuidade analítica entre a fase de colapso e a de expansão como no modelo de Tolman. A razão é clara: nessa versão, no momento de passagem de uma fase à outra, uma singularidade aparece, onde toda forma de matéria e energia existentes assumiriam valor infinito. Do ponto de vista prático, isso significa que nenhuma forma de informação passaria de uma fase para outra. Por essa razão, a proposta de Tolman foi relegada.

Essa dificuldade só foi sanada ao fim de 1979 quando surgiram dois cenários construídos independentemente por cientistas da antiga União Soviética e do Brasil, representando configurações do universo sem singularidade, sem um início em um tempo finito, possuindo bouncing. Isto é, o universo teria passado por uma fase de colapso gravitacional na qual seu volume espacial total teria atingido um valor mínimo, diferente de zero e, em seguida, iniciado o atual processo de expansão. Tal propriedade elimina a singularidade nos modelos big bang e permite a passagem de informação sobre a estrutura do universo de uma fase de colapso para a de expansão.

Esses cenários cósmicos permitiram o exame de configurações mais sofisticadas e complexas, onde mais de um ciclo colapso-expansão teria acontecido e a imaginativa proposta de Tolman se tornou uma ideia viável.

Recentemente alguns cientistas americanos sugeriram um cenário cosmológico no qual haveria um momento final de colapso sem sequência, numa inversão do impossível big bang, apocalítica do fim do mundo com data marcada, num futuro longínquo. Não se trata, porém, de verdade científica, mas de possibilidade teórica como tantas outras.

A ideia de que podemos saber rigorosamente qual o final de nosso universo não faz parte do que chamamos conhecimento científico, tratam-se de propostas de cenários possíveis. Mesmo que aceitemos como princípio que as leis físicas não se alteram com a evolução do universo, há várias possibilidades para o futuro do cosmos. Elas dependem dos modos como a matéria irá se comportar. Existem vários cenários teoricamente aceitáveis, gerando diversas alternativas. A que apontamos, cuja origem remonta a Tolman, é uma outra possibilidade, menos inquietante talvez.

Contrariamente ao catastrofismo dos americanos, parece que os poetas conseguiram imaginar o futuro do universo numa versão mais amena. Com efeito, é T. S. Elliot quem provoca um olhar distinto ao prescrever, como uma premonição, que “o mundo termina, não com um estrondo, mas com um lamento”.

Os ciclos cósmicos de Tolman e a liberdade poética de Elliot sugerem que, afinal, esse mundo termina, não com um estrondo, mas com o surgimento de outro ciclo. É essa sequência inesgotável de universos que desemboca em um lamento. Lamento de eternidade.

* Professor emérito do CBPF



Tags: opinião

Recomendadas para você