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O grito de Munch, a tecnologia e o terceiro talher

Jornal do Brasil THELMA LOPES*

Uma rápida passeada pelas redes sociais é suficiente para enxergar como todos parecem mais felizes que você. Ali tudo é olhado pela lente da suposta felicidade. Em uma espécie de “museu de mim”, cenas banais são exibidas como se possuíssem algum ou igual valor para outrem. E assim, refeições, vias engarrafadas ou casais amorosos são retratados como algo de interesse coletivo ou digno de nota especial. Uma das consequências da espetacularização distorcida do cotidiano é a ditadura da alegria. É como se o sofrimento inerente aos percalços, que toda vida comporta, não fosse cabível e necessitasse de maquiagem. E no mundo onde a euforia constante é quase obrigação, erradamente, tristeza e depressão são compreendidas como sinônimos.

Hoje, quando o paradigma dominante é o científico e tecnológico, vivemos imersos em cultura medicalizante, na qual se espera que, como passe de mágica, as dores cessem. Não por acaso, drogas como o Prozac foram nomeadas “pílulas da felicidade”, amplamente utilizadas e rendido bilhões de dólares ao fabricante. Mas a tristeza é natural e saudável. Constitui resposta, em parte explicada pela Química, às situações frustrantes. Integra o processo de elaborar perdas e construir alternativas. Depressão é doença. Síndrome incapacitante, acomete pessoas de diferentes idades, gêneros e estilo de vida. É um dos temas prioritários da Organização Mundial de Saúde e o tratamento pode envolver a junção de terapias comportamentais e fármacos.

Nesse cenário, cabe a reflexão a partir de diferentes aportes. Por um lado, o aparato tecnológico exerce papel decisivo no estabelecimento das relações interpessoais, uma vez que novas formas de comunicação foram possibilitadas pela tecnologia e apresentam carga simbólica própria. O mundo virtual inclui uma gama de códigos de conduta no qual “parecer” é mais importante do que “ser”. Fotografar e publicar uma paisagem que você sequer teve tempo de contemplar naquela viagem dos sonhos tornou-se mais importante do que vê-la de fato. Interromper o jantar romântico para postar o momento vem sendo priorizado em comparação à intimidade. As relações de proximidade também foram alteradas. Se a internet pode aproximar quem está longe, por meio de múltiplos mecanismos de busca e interação nas redes sociais, também pode afastar quem está próximo. Não raro, o celular segue ladeando garfo e faca como um terceiro talher, calando amantes e amigos nas rodas de bar.

Do ponto de vista das ciências, a pesquisa voltada para a concepção de antidepressivos, inibidores seletivos de neurotransmissores ou reguladores de humor tem se modernizado, gerando produtos cada vez mais refinados tecnicamente. Contudo, o verdadeiro progresso científico não pode estar desvinculado dos fenômenos sociais, assim como deve manter diálogo permanente com outras áreas do saber. No entanto, com frequência, o predomínio de lógica demasiadamente biologicista, associada ao desprezo por interpretações mais amplas, tende a dispensar determinantes fundamentais. Nessa direção, o impacto das causas sociais nas questões desencadeantes das doenças passíveis de tratamento medicamentoso costuma ser desvalorizado.

Mas há ponderações que não podem ser evitadas: como ser indiferente diante de tantas desigualdades e suas repercussões? Como não se abalar pelos que vivem em condições subumanas? O que queremos camuflar insistindo na ideia de que se afetar com o próprio sofrimento e o do outro é improcedente? Para as artes, tristeza ou depressão podem ser impulso criativo e elementos para renovar linguagens. A dor de Edvard Munch, nascido no século 19, ecoa em seu grito até hoje. A figura andrógena que berra ao centro do quadro, fala sobre uma vida repleta de traumas. Em sua história pessoal enfrentou o fanatismo religioso do pai e as mortes precoces da mãe e irmã. As marcas dessas dores podem ser vistas no conjunto de sua obra. Buscando retratar seus sentimentos, o norueguês atribuiu valor subjetivo às cores. Diferentemente dos contemporâneos Paul Gauguin ou Toulouse-Lautrec, apostou nos tons escuros e sombrios para expressar seu estado de espírito. Assim se aproximou dos preceitos do expressionismo alemão.

Fato é que o imediatismo e individualismo característicos de nosso tempo, muitas vezes, empobrecem as leituras possíveis sobre o que nos cerca, já que valorizam determinados sentimentos ou saberes em detrimento de outros. E, sim, talvez, como diz a canção, seja melhor ser alegre que ser triste, mas melhor mesmo é existir em plenitude.

* Artista profissional, mestre em Teatro e doutora em Ciências



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