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Neoliberalismo, codinome ilusionismo

Jornal do Brasil ADHEMAR BAHADIAN*

Canal de televisão por assinatura nos ofereceu entrevistas com assessores econômicos presidenciais. Boa ideia, péssimo horário, suspicazes entrevistadores. O horário tardio excluía o grosso dos eleitores. Os entrevistadores, conhecidos comentaristas de uma nota só. Não havia diversidade de pensamento nem presença de professores independentes a esmiuçar o economês. Enfim, coisa de quem não prega prego sem estopa.

De qualquer forma deu para ver os riscos que corremos nas mãos de alguns iluminados, principalmente do putativo superministro, Doktor Strangelove (para quem não o conhece, recomendo o filme “Dr. Fantástico”, de Stanley Kubrick, de 1964). Nosso Doktor é ardente defensor das sandices do pensamento de Mies e Hayek, elos perdidos do neoliberalismo austríaco pré-Primeira Guerra Mundial e, posteriormente , trasladado para a Escola de Chicago, nos Estados Unidos.

Nosso Doktor, como o personagem de Kubrick, é um mestre do realismo fantástico, capaz de encontrar trilhas ardilosas para convencer incautos de que estão diante do verbo macroeconômico mais brilhante da Via Láctea. Em sua argumentação falsamente cartesiana, navegam nomes de filósofos como Hobbes, revolucionários como Robespierre, convocados a respaldar a mais moderna revolução econômica dos novos tempos do século 21, globalizado pela financeirização mundial. Não por acaso, nosso Strangelove é um ilustre membro da confraria, como aliás, outros sábios brasileiros que se dedicaram altruisticamente a elaborar programas governamentais. Nenhum deles, porém, com a picardia fundamentalista de Strangelove.

Domingo passado, recordei que, na Constituição, o pleno emprego e a livre iniciativa têm por fim assegurar a todos existência digna conforme os ditames da justiça social. Resguarda, ainda, a Constituição, a soberania nacional, a função social da propriedade e a redução das desigualdades sociais (vide artigo 170 da Constituição em vigor).

Nosso Strangelove considera a Constituição uma vetusta senhora a demandar no mínimo um botox ou, melhor, uma radical mastectomia. Os mecanismos de proteção ao assalariado são anomalias inaceitáveis no mundo contemporâneo, onde a financeirização, o capital transnacional, deve encontrar os mais favoráveis mecanismos de proteção. O recado de Strangelove não poderia ser mais claro: as reformas do governo de turno, vejam só, são insuficientes para o Brasil moderno. O Estado brasileiro é paquidérmico e devemos aceitar um Estado mínimo, onde o poder de polícia seja o aspecto mais relevante.

Nosso Strangelove sugere, ainda, um congelamento dos salários dos servidores civis, o aumento das contribuições para a previdência, o cancelamento de concursos públicos por pelo menos dois anos, tudo em nome de uma corrente pra frente Brasil.

Trata-se de um jogo ilusionista. A defesa de um Estado mínimo é uma cantilena dos neoliberais que Strangelove perfila gostosamente. Mas aqui se está diante de uma empulhação, uma desfaçatez, um conto do vigário, uma patranha, uma arrematada fisgada no Estado, em nome do suposto livre jogo do mercado. Os neoliberais, indistintamente, se consideram os monges da ética governamental porque são a favor da mínima intervenção estatal. São matreiros, esses senhores. E de quebra nos consideram parvos patetas de suas pretensiosas pantomimas. Na realidade, o que nos propõe Doktor Strangelove nos seus múltiplos orgasmos elitistas? Nada mais nada menos do que a privatização de todas as nossas companhias estatais, Petrobras inclusive, para ajustar o déficit fiscal. Agora é que a porca torce o rabo: como fazer essa mágica sem a mais profunda e estupradora intervenção estatal? No neoliberalismo, o Estado é um capacho dos megarricos. E no Brasil se arma o circo dos liberticidas, em nome de uma ordem sem progresso. De longe, escuto o tropel dos caçadores e o latido de cães farejadores. A caça ao pote de ouro já começou.

* Ex-embaixador do Brasil na Itália (e-mail: bahadian@jb.com.br)



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