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Música, divina música!

Jornal do Brasil RAQUEL STIVELMAN*

Nós, humanos, somos basicamente iguais em nossas necessidades fundamentais e nas nossas emoções primordiais. Divergimos tão somente nas maneiras, na intensidade manifestada e nas diversas características próprias do contexto. Vale lembrar que é sempre muito importante contextualizar, uma vez que, segundo recente resultado de importante pesquisa, foi comprovado que a força da genética representa unicamente 20% da influência no futuro ser que seremos.


Não é este o foco maior das reflexões deste artigo. Iremos tentar desenvolver um tema maravilhoso, qual seja, a importância e o efeito da música para os seres humanos.


Desde as mais priscas e remotas eras, o homem produziu e se mostrou muito sensível face à emissão de sons e ritmos. Com o passar do tempo e o surgimento dos mais diversos instrumentos musicais, aqueles bafejados por talentos especiais compuseram sons harmoniosos que despertavam o encantamento das plateias privilegiadas que as consumiam. A plebe, a ignara plebe, também se deleitava com o que podia receber ou se apossar daquele presente sonoro. Aliás, os representantes da plebe se outorgaram o direito de produzir e consumir suas próprias peças musicais. Daí a explicação sobre a existência da música erudita, refinada, burilada das classes dominantes e aristocratas, incluindo nesses privilegiados o clero; e a música dita popular, espontânea, cheia de vida e de ritmo, entretendo e expressando a alma dos mais diversos povos.


É preciso que se repita e se compreenda sempre que o homem, em sua essência, quer atender, em primeiro lugar, às suas necessidades básicas. Uma vez alcançadas e atendidas essas necessidades, ele parte em busca de satisfação de outras, tidas como suplementares, mas que se tornam essenciais também. O que diferencia os homens, repito eu, é a maneira segundo os quais essa busca e satisfação ocorrem. As línguas, os meios de comunicação, o timing diferem muito, mas os objetivos a serem satisfeitos são os mesmos. As mães dão vida e alimento às suas crias, em todos os tempos e em todos os rincões da Terra: os homens são os provedores, que se lançam à pesca e à caça para o sustento e a sobrevida de sua família; o homem guerreia na conquista e na defesa de seus patrimônios e na sua ambição por mais território e assim por diante. Algumas tentativas foram surgindo, no sentido de alcançar, ou ao menos descobrir no terreno da comunicação uma maneira única de expressão.


O esperanto, uma língua artificial mais falada do mundo, cujo dicionário foi publicado em 1894 por Zamenhof, é iniciado por Ludwig Lazar (1853 – 1917), um oftalmologista polonês judeu. Não vingou a universalidade deste idioma.


Hoje, o inglês é a língua universal, porém a língua mais falada e mais universal do mundo é o Mandarim, com cerca de 1,052 bilhão de falantes. O inglês tem atualmente 508 milhões de fluentes. Mas não falar inglês, hoje, é fator de diferenciação negativa. As oportunidades para quem fala fluentemente surgem em países como Inglaterra, Irlanda, Canadá, EUA, Austrália, África do Sul, entre muitos outros países do mundo.


Surge a pergunta: “O que é a música, que papel desempenha na comunicação global e irrestrita entre os homens?”. A resposta é rápida e rasteira: “É na música, no seu conceito total, isto é, seja erudita ou popular, que os homens se igualam, se comunicam, derramam as mesmas lágrimas, ou se emocionam, se revoltam, protestam e por aí vai!


A letra das músicas pode, em parte, limitar essa universalidade, mas ela pode ser abstraída ou até mesmo desempenhar muito bem a sua missão, mas limitando a sua universalidade total de abrangência. A música é a língua dos deuses, dos anjos, do sonho, do devaneio, das lágrimas, enfim das emoções que nós todos sentimos. Ela iguala, nivela, faz desaparecer as diferenças pontiagudas existentes nos mais diversos povos.
No domingo, 19 de agosto, no vestuto e lindo Theatro Municipal, no Rio, os sons maravilhosos da Orquestra Sinfônica de Jerusalém, regida por Yeruham Sharovsky, levaram a mim e a numerosa plateia a um estado de encantamento total.


O jovem solista do violino Itamar Zorman foi absolutamente um caso à parte. Parecia novo ser matéria, um monte de células humanas. Ele, o violino e o som mágico que ele produzia se fundiram em um único milagre: sonho, céus, imaterialidade. Não encontro as palavras mais adequadas, mais fiéis para descrever o que transformou o público presente em uma alma em uníssono, vibrando na mesma onda. Vale ressaltar que um instrumento musical se coaduna ou vários se coadunam mais especificamente a determinados povos; o violino, esse instrumento que nos remete para longe deste mundo materialista e grotesco, às vezes parece ser, e é por excelência, o instrumento musical dos judeus. Leve, pequeno, precioso, fácil de carregar em fugas improvisadas em busca da sobrevivência.


Em inúmeros campos de extermínio de milhares de judeus, a caminho das câmaras de gás, alguns judeus executavam a linda melodia no ser “fidele” (“violino” em idish) para envolver os minutos finais de infortúnio. A execução dessa música dava sentido aos seus últimos instantes de vida. Música, divina música: os deuses das mais diversas religiões têm suas vozes enunciadas e reproduzidas através dos seus sons.

* Mestre em Educação pela UFRJ



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