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Esperando por um milagre

Jornal do Brasil GEORGE VIDOR*

O que mais o país precisava nessas eleições, e não teremos, é serenidade. Os ânimos andam exaltados, refletindo aquela velha história de “casa onde falta pão todo mundo briga e ninguém tem razão”. A crise econômica foi longa demais, a recuperação segue em ritmo muito lento e incapaz de recompor um cenário mais promissor para o futuro.


E “nessa falta de pão” cada candidato se apresenta como salvador da pátria. Se as coisas não têm dado certo é porque “falta vontade política”. Ao que tudo indica, basta alguém ocupar a cadeira de presidente ou governador portando um bastão, tal qual um imperador romano, decidir que teremos de fazer isso ou aquilo e tudo então se resolverá, como num passe de mágica, sem grandes sacrifícios da própria sociedade.

Para início de conversa, os próximos governantes enfrentarão um ambiente de sérias restrições orçamentárias. Mesmo com o esperado crescimento das receitas – acompanhando a recuperação da economia – será preciso cortar despesas. O setor público como um todo tem um déficit primário anual equivalente a mais de 2% do Produto Interno Bruto. Nessa conta não entram nem o pagamento de juros nem a rolagem da dívida pública (títulos que estão vencendo). Então o setor público só se equilibra emitindo mais dívida, seja para cobrir a diferença entre despesas e receitas correntes (déficit primário), seja para honrar os compromissos do endividamento, quitação dos juros e substituição dos títulos vencidos por outros novos. A queda da inflação e a credibilidade da equipe econômica levaram os mercados a aceitar taxas básicas de juros mais baixas, o que dá algum alívio na conta financeira.

Mas se o déficit primário não for estancado, esse quadro não se sustentará ao longo do tempo. Os governantes salvadores da pátria têm a tendência de querer resolver essas questões caindo em cima dos contribuintes. Asfixiam a economia e dão um tiro pela culatra. A previdência social, por exemplo, é inviável dentro das regras em vigor. O desequilíbrio não se resolverá se os segurados não contribuírem por mais anos. Os servidores que lutam por aposentadorias acima do teto do regime geral precisam saber também que terão de contribuir mais para isso. Aliás, bem mais.

Serão quatro anos de orçamentos apertados, buscando-se valorizar cada centavo arrecadado ou gasto. Os governantes terão de fazer mais com menos e, para tal, não podem abrir mão da engenhosidade, das parcerias, das concessões de serviços públicos, da privatização de companhias deficitárias. E das ferramentas que a tecnologia hoje oferece. O intervencionismo de qualquer espécie dará com burros n’água. O faço e aconteço não funcionará.

É por isso que precisaríamos muito de serenidade nas eleições, para poder separar o joio do trigo entre os candidatos. Avaliar a governabilidade, as alianças políticas, os compromissos com as reformas. Mas isso se tornou um sonho. O líder das pesquisas está encarcerado, cumprindo uma longa pena. Responde a outros processos com possibilidade de novas condenações. Evidentemente que segue fazendo campanha para tentar levar o seu indicado para o segundo turno das eleições. Todavia, é impossível esperar serenidade nesse jogo político. Na cola do líder das pesquisas, vem o candidato do eu sozinho. Os demais estão embolados.

Só a repetição do milagre da multiplicação dos pães nos tiraria dessa situação política tragicômica. Agora é esperar que ele aconteça até o domingo, 7 de outubro.

* O jornalista não é bom de oração. Mas sabe que tem muita gente que consegue ser ouvida pelos céus



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