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De poste a árvore

Jornal do Brasil ÁLVARO CALDAS*

Para os dois ou três lados que se confrontam, a grande incógnita desta eleição presidencial chama-se Fernando Haddad, o nome que Lula indicou para seu vice depois de várias tentativas frustradas e demoradas articulações ao longo dos últimos quatro meses, desde sua prisão. Não era o preferido do PT. Parte do partido desconfia dele, um acadêmico que veio de fora da base sindicalista. As tendências mais à esquerda preferiam a senadora Gleisi Hoffmann e os pragmáticos do setor majoritário insistiram com Jaques Wagner, ex-governador da Bahia e ministro de dois governos petistas. O “galego”, amigo de Lula há 40 anos, não topou e parada e Haddad acabou assumindo a candidatura, ainda que timidamente e na corda bamba.

O quadro está consolidado, os nomes são conhecidos e os candidatos estão em campanha. Pesquisas do Ibope e Datafolha, as primeiras após os registros das candidaturas, deixam claro as possibilidades e os limites de cada um. Lula continua à frente e aumentou sua vantagem, com 39% das preferências de voto, quase que a soma de todos os demais. Como tudo indica não será candidato, a eleição vai depender de seu carisma e da força para transferir votos, em um ambiente de pressões e turbulências pelos opositores, pelo mercado, a mídia e o Judiciário.

Haddad desponta como uma esfinge a ser desvendada. De um lado para o PT, que teme que o poste desta vez possa se transformar numa árvore. De outro, o mistério acerca de seu desempenho eleitoral ameaça os partidos dominantes, do centro à extrema direita, que veem Bolsonaro crescer, Ciro e Marina estacionarem numa faixa intermediária, e Alkmin desaparecer. Se o eleitor fizer a leitura de que Haddad é Lula e Lula é Haddad, o número 13 tem tudo para encher as urnas em novembro.

Diferente da ex-guerrilheira Dilma Rousseff, o ex-prefeito de São Paulo é um acadêmico com um discurso moderado, tido como aberto ao diálogo, com ironia já identificado como um petista com cara de tucano. Jaques Wagner, que decidiu disputar uma vaga para o Senado pela Bahia, recusou a indicação para vice por se sentir incomodado em ser “o eventual substituto imposto por uma farsa”. Considera Haddad, coordenador do programa de governo do PT, o nome mais indicado. Destaca sua jovialidade e o fato de compor com Manuela d´Ávila, do PCdoB, que assumirá a vice com a eventual impugnação de Lula, “a chapa mais glamorosa da eleição”.

O perfil de Haddad é o avesso do de Lula. Intelectual, professor, tímido, de gestos discretos, não tem a cara de um militante que vai para a rua e os comícios de camisa vermelha e boné na cabeça. Não possui os seus trejeitos, a voz grossa e rouca, enfim o seu carisma. Nada tem em comum com o “sapo barbudo”, como o definiu Leonel Brizola. Lula extravasa, abraça, chora, conta piadas, beija esfregando a cara no suor do companheiro que está à sua frente.

Se funcionar a identificação, dessas diferenças pode surgir um candidato novo e inesperado, não apenas do PT e identificado com suas mazelas, denúncias de corrupção e a prisão de seus principais lideres. Um candidato maior do que o partido, com possibilidades de criar suas próprias raízes, deixar de ser um poste e crescer como uma árvore abençoada por Lula.

Terá Haddad determinação e tempo para mudar seu estilo, vestir a camisa e entrar em campo de peito aberto? A estratégia arriscada do partido é a de segurar ao máximo sua passagem do virtual para o real, até as vésperas do dia 17 de setembro, prazo limite da lei eleitoral. Outro grupo, representado pelos governadores e a corrente majoritária CNB, próximos de Haddad, acreditam que o ex-prefeito precisará ter pelo menos um mês para rodar o país como candidato oficial.

A liderança folgada de Lula consolida um cenário em que a chapa Haddad-Manuela estará no segundo turno, seguida por Bolsonaro, que lidera as pesquisas quando o nome do ex-presidente preso em Curitiba é retirado. Essas são as regras do jogo, mas atenção para o vale-tudo do jogo pesado daqui para frente.

O Comitê de Direitos Humanos da ONU recomendou que o nome do encarcerado Lula esteja na lista de candidatos. Fato ignorado pela grande mídia, que também retira das manchetes seu nome situado no topo das pesquisas. Acompanhada pelo mercado, que atua de forma explícita via oscilações do dólar e da bolsa, a grande mídia abandona seus declarados princípios de jornalismo apartidário pluralista e independente. O balé eleitoral tem suas próprias regras, com clara predominância da hipocrisia e manipulação. Há outras escolhas, em que a força das redes sociais pode fazer a diferença.

* Jornalista e escritor



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