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Acolher de braços abertos

Jornal do Brasil OMAR RAPOSO*

Na última semana, com as bênçãos do arcebispo do Rio de Janeiro, cardeal Orani Tempesta, tive a alegria de iniciar na Paróquia São José da Lagoa um projeto de capacitação para 50 refugiados serem inseridos no mercado de trabalho. No início do ano, também criamos um projeto de música para refugiados e conheci pessoas que deixaram suas famílias, vidas e histórias, em um processo de migração forçada. Por trás de cada rosto sofrido há muita fé e vontade de refazer suas vidas.

A Arquidiocese do Rio de Janeiro, junto com a Cáritas-RJ, desenvolve um importante papel de acolhimento aos refugiados, num trabalho que já ultrapassa 40 anos de serviço. Milhares de pessoas foram recebidas e resgataram a sua dignidade.

Em 1976, a Arquidiocese do Rio de Janeiro iniciou um trabalho pioneiro de assistência a refugiados que chegavam à cidade. Eles vinham de países vizinhos, como Argentina, Chile e Uruguai, fugindo da perseguição política exercida pelos regimes militares da época. Como o Brasil também estava sob governo militar, o Rio de Janeiro servia apenas como rota para que os refugiados chegassem à Europa.

O arcebispo do Rio na época, dom Eugênio Sales, decidiu instalar um serviço permanente de ajuda a refugiados, oferecendo abrigo e, com o apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), buscando encontrar um terceiro país que pudesse protegê-los. O cardeal designou a Cáritas-RJ para assumir essa tarefa em nome da arquidiocese, dando origem ao primeiro trabalho sistematizado de atendimento a refugiados no Brasil.

Segundo o papa Francisco, acolher um refugiado é renovar o amor sem fronteiras, capaz de ir ao encontro do outro que chora, que sente frio, fome e sede de pão e de justiça. Neste tempo de tanta discórdia, ódio e exclusão social, especialmente para com os irmãos refugiados, devemos investir no amor que acolhe e cuida do outro como imagem e semelhança de Deus, perceber no rosto de quem chora, no olhar entristecido dos refugiados e abandonados nas ruas da nossa cidade e do nosso país que ali se esconde também o rosto do Senhor que clama por amor.

Quem ama jamais ignora, exclui, menospreza quem quer que seja, pois o amor não conhece limites, barreiras, ele é incondicional, abraça o outro como irmão, não é exclusivista; ao contrário, amplia os horizontes da comunhão e da unidade.

Jamais vamos explicar o sentido do amor fraterno, mas podemosviver e sentir em nossas vidas, também na comunidade, na igreja e na sociedade, onde estivermosinseridos, o amor incondicional, que rompe todas as barreiras do egoísmo, da ganância e do preconceito.

Vale lembrar sempre as premissas do Evangelho da caridade, a igreja sempre contemplou nos imigrantes a imagem de Cristo, que disse:“Porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era forasteiro e me acolhestes; estava nu e me vestistes; adoeci e me visitastes; estava na prisão e fostes ver-me. Então, os justos lhe perguntarão: Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos forasteiro e te acolhemos? Ou nu e te vestimos? Quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos visitar-te? E responder-lhes-á o Rei: Em verdade vos digo que, sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mateus 25,35-45).

Portanto, convido todos a exercerem a caridade e o amor com os refugiados. Que possamos acolher o outro de braços abertos, como o Cristo Redentor nos acolhe. E enxergar nesse outro o próprio Deus. Vivamos na misericórdia, no amor e na paz, sem preconceitos.

* Pároco da Paróquia de São José da Lagoa e reitor do Cristo Redentor



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