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Uma lição de cinismo

Jornal do Brasil FLAVIA BRUNO*

Diógenes de Sinope ou Diógenes, o cínico, é o filósofo cuja vida e pensamento conhecemos através de uma coleção de anedotas que compuseram a excentricidade desse personagem. Apesar dos diferentes olhares que pensam sobre ele, inúmeros autores reconheceram o seu valor e virtude. Foucault, por exemplo, diz que ele fixou o traço recorrente e fundamental da filosofia - a parresía, a fala comprometida com a verdade por inteiro em qualquer circunstância, para além de todas as convenções e proteções culturais.

O modo de ser de Diógenes, ainda que bizarro para o olhar comum, demonstra uma absoluta independência de julgamento, uma afirmação da liberdade de expressão, mas, sobretudo, um desdém saudável pelo obscurantismo humano, revelando um nível incomum de lucidez intelectual. Por isso D’Alembert diz que toda época precisa de um Diógenes, isto é, alguém com a coragem necessária para sustentar seu ataque contra as mais estimadas das convicções, contra os dogmatismos cultivados e cultuados, aparentemente protegidos de qualquer hesitação.

 

Diógenes Laércio diz que o pai de Diógenes, um banqueiro, teria adulterado moedas e por essa razão ele e seu filho foram punidos: o pai com a prisão e Diógenes com o exílio. Em outras versões que surgem a partir do século II d.C., aparece uma ligação entre a falsificação de moedas e uma sentença oracular que lhe determinava “desfigurar a moeda” política, ao que ele teria interpretado mal e desfigurado a moeda real.

 

Essa expressão “desfigurar a moeda” tem diversos significados, incluindo travar uma guerra contra a “moeda” cultural e política, isto é, desmistificar os valores e normas aceitas com base nos quais as pessoas organizam a sua vida, e essa é a tarefa maior do cinismo. Ele nos leva a ver o mundo sem distorções ou enganos, propiciando que os homens compreendam que a realidade não é o que os donos do poder ou os que ocupam os cargos públicos mais elevados desejam que as pessoas comuns acreditem; tampouco a realidade se reduz ao que o inerte pensamento humano santifica.

 

O espanto diante do atrevimento ou do exotismo de Diógenes tanto é maior quanto maior for o apego às ideias e verdades cultivadas pelo homem. Dentre essas, há inúmeras invenções fabricadas pela classe governante para manter o povo subjugado, regras essas que se converteram em princípios sagrados ou invioláveis, todos racionalmente justificados.

 

Para Diógenes, não se pode ter a propriedade de parentes, amigos, reputação, lugares, familiares ou convívio social - todas essas coisas não me são próprias. O que me é próprio é saber lidar (sem nenhum empecilho ou restrição) com as circunstâncias externas e com as impressões que tenho delas. Por isso, de modo sarcástico, Diógenes ridicularizava a estupidez da guerra, denunciava a ignorância dos homens, as convenções que os acorrentam e os incapacitam, como as preocupações de ordem financeiras que ludibriam praticamente todo o mundo, produzindo luxúria, ganância, soberba e mesmo ódio, que sempre ameaçaram a humanidade e escravizaram o seu espírito.

 

Como diz Navia, o cinismo é uma atitude filosófica que diagnostica corretamente e identifica, talvez cruelmente, as chagas e as mazelas que permeiam a condição humana dessa e de qualquer outra época, apontando o caminho (rude e brutalmente quanto possível) que pode aliviar ao menos em parte tais chagas e mazelas.

 

Diógenes declarou guerra a esse mundo sem qualquer espécie de trégua. Seus exageros, suas distorções ou mesmo suas vulgaridades foram as armas para se distinguir dele e ensinar os homens a se tornarem independentes. A “loucura” de Diógenes é a sua reação ao mundo, uma reação relevante não apenas para o seu próprio tempo e cultura, mas também para o nosso. Precisamos de sua figura para despertar as consciências em meio à sonolência intelectual e à melancolia moral que tantas vezes caracteriza a existência humana. Sua presença funciona como um despertar da nossa confusão e da nossa inércia.

* Professora de Filosofia da Faculdade São Bento e da Universidade Cândido Mendes



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