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O pretexto da luta contra a corrupção

Jornal do Brasil EMIR SADER*

 tema é antigo. Desde que começou a perder eleições, a deixar de ter o governo do Brasil nas suas mãos, a direita passou a apelar para a defesa da moralidade, para a denúncia da corrupção dos líderes políticos que surgiam e lhes ganhavam eleições. O primeiro foi Getúlio. Tomou o poder das mãos da direita, daquela, muito bem representada por Washington Luis, para quem “a questão social é questão de polícia”. Getúlio era ditador e corrupto. Começou ali o mote que a direita nunca deixou de lado.

Deslocada pelas políticas sociais de Getúlio, por garantir, pela primeira vez, direitos dos trabalhadores, inclusive de se sindicalizarem, foram derrotados sistematicamente. Se refugiaram na suposta defesa da “democracia”; eles, que quando governavam se impunham através de um sistema político de coronéis, uma democracia de araque. Tentaram, na contrarrevolução de 1932, liderada por São Paulo, derrubar Getúlio e voltar à economia primário-exportadora, dominada pelos barões do café. Em São Paulo, não há praticamente nenhum espaço público com o nome de Getúlio, o maior estadista brasileiro do século 20, mas avenidas, rodovias e outros espaços mais com o nome de Washington Luis, seu ídolo.

O mote da luta contra a corrupção e o estatismo – forma que assumiu a luta democrática, quando foi instaurado um sistema político-liberal – continuou durante todo o segundo governo de Getúlio, o de JK e o de Jango, até que desembocou no golpe e na ditadura militar, que em nome de supostos riscos de uma “ditadura de esquerda” impôs a mais brutal ditadura militar no Brasil, que destruiu tudo o que havia sido construído de democrático no país. Ao mesmo tempo em que instaurou um brutal sistema de corrupção, acobertado pela censura à imprensa (o senador Severo Gomes me disse que a construção do aeroporto de Cumbica, em São Paulo, e a da ponte Rio-Niterói, no Rio, foram os maiores casos de corrupção durante a ditadura, devidamente acobertados pela censura à imprensa).

No retorno à democracia liberal, o governo de José Sarney deu continuidade aos desvios, com a conivência da direita, a mesma que se reivindicava ser a campeã da luta contra a corrupção. O mesmo aconteceu com o governo de Collor, que só foi derrubado com o apoio dessa direita quando as denúncias tornavam a situação dele insustentável. Igualmente no governo FHC, em que a privatização indiscriminada de patrimônio público tornou-se o maior escândalo da história do Brasil, também acobertado pela mídia, que tinha naquele governo seu amparo fundamental.

Quando Lula triunfou, voltou a agenda da luta contra o estatismo e a corrupção como temas centrais da direita. Uma vez mais as denúncias de corrupção se davam como instrumento da luta contra um governo popular, que desfazia o modelo neoliberal assumido pela velha direita e a nova também – os tucanos. A luta da direita é, ao mesmo tempo, para deslocar a agenda social, da esquerda, responsável por grande apoio popular. Não podendo questionar seus efeitos, tem que tentar abolir o tema. A desqualificação do Estado como fonte de corrupção, serve para tentar desacreditar as políticas sociais como populistas e para caracterizar as forças políticas que as implementam como corruptas.

A situação atual do Brasil é a mais paradoxal, também desse ponto de vista. O governo mais corrupto da história do país foi instalado em nome da luta contra a corrupção. O Judiciário condena o líder político de mais prestígio na história do Brasil, sem nenhuma prova, apenas baseado em convicções de um juiz inimigo político frontal desse líder.

O uso da luta contra a corrupção volta a causar danos graves à democracia brasileira e à soberania do voto popular. O Judiciário perde credibilidade, os meios de comunicação, que promoveram ativamente um impeachment sem justificativa, ficam reduzidos a órgãos partidários da direita.

A direita demonstra, assim, que não tem nada a propor ao país. Em muito pouco tempo o seu governo ficou reduzido a 3% de apoio e não consegue ter candidato minimamente em condições de disputar as eleições com possibilidades de vencê-las. Sua vitória de Pirro levou o país à pior crise da sua história, da qual só poderá sair com uma contundente derrota política desse governo, assim como do Judiciário e dos meios de comunicação responsável pelo descalabro que vive o Brasil atualmente. Espero que na contagem regressiva para o seu fim.

* Sociólogo



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