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Brasil, democracia ou barbárie?

Jornal do Brasil MARCOS ESTELLITA LINS*

Assombrados pelo radicalismo político dos dias de hoje, presenciamos a demonstração viva da frase do filósofo Bertrand Russel: “Uma das raízes dos problemas do mundo é que os estúpidos estão cheios de certezas, e os inteligentes estão cheios de dúvidas”. Entretanto, essa não é toda a história. Os “estúpidos” são apenas a caricatura de uma paradoxal, pervasiva e insidiosa condição humana.


Diante da violência desenfreada que vivemos no país, entre tantos eminentes literatos nos três poderes e na sociedade civil, a voz da razão é ouvida de um líder militar, portanto comprometido com resultados, muito mais do que com discursos letrados. Trata-se do general Eduardo Villas Bôas, ao denunciar (JB de 25 de agosto) que “continuamos a proceder com naturalidade em face à barbárie de perder mais de 63 mil vidas por ano”. Sua capacidade de indignar-se e engajar-se na busca de soluções leva a uma compreensão da complexidade do problema e à necessidade de pensar “fora da caixa”.


De fato, a visão compartimentada, baseada na simples definição de hierarquias e funções burocráticas, leva à atitude passiva e irresponsável presente na resposta do governador ao general: “... o Estado do Rio... atende às solicitações que lhe são feitas...’’, limitando-se ele a relatar medidas operacionais de investimentos em pessoal, equipamentos e tecnologia, sem apresentar análise estratégica e evidências prospectivas de sucesso na redução substancial da violência nos próximos anos ou décadas.


Em oposição a isso, outra lição advinda do engajamento militar no serviço à sociedade é a necessidade de integração, não apenas logística operacional, mas do pensamento estratégico e planejamento de ações. O general Villas Bôas denuncia a “falta de vontade de modificar com urgência as leis vigentes”, “de adotar medidas socioeconômicas” e “o diversionismo, radicalização retrógrada e fragmentação social”, uma vez que “o componente militar é o único a engajar-se em missões”. Note-se que todos os elementos desse diagnóstico apontam para uma grave disfunção em nosso paradigma cultural, que inviabiliza a interação dialogal estruturada em torno da defesa de nossa nação, cuja natureza individual e social precisa ser compreendida através dos fenômenos de autismo social e transtorno dissociativo, na Teoria da Mente.


Desenvolvemos nossa Teoria da Mente à medida em que interpretamos e explicamos as mentes alheias e a nossa própria, de modo a nos relacionar e nos integrar socialmente e psicologicamente. O autista social possui uma deficiente Teoria da Mente, pois tem dificuldades em compreender que nem tudo o que se passa em sua própria mente corresponde à realidade. Muito mais do que uma patologia personalizada, decorre do empobrecimento da capacidade metacognitiva, uma vez dominado pelo autoengano. Falta-lhe a capacidade de testar a falseabilidade de sua representação da realidade, o que lhe permitiria dar-se conta do equívoco ou incompletude de sua própria representação e manter em perspectiva outros cursos de ação complementares ou substitutivos. Essa deficiência cognitiva não é inata, mas requer a constante supressão de evidências contrárias à crença na ideia dominante. Como isso nem sempre é possível, advém o fenômeno dissociativo de personalidade, patente na incapacidade de conciliar as diferentes percepções e decisões, seja no interesse público, seja na decisão econômica (proposta como contabilidade mental pelo prêmio Nobel Richard Thaler).


Autismo e dissociação impedem a clareza e organização mental para lidar com a complexidade dos problemas reais; são responsáveis por verdadeiros estados de transe pessoal e social, em que agimos automaticamente, sem nos dar conta dos erros que cometemos como sociedade. Tornam-se crônicos a partir de uma convergência de conveniências patológicas: a primazia da competição como motor do desenvolvimento – quando se sabe hoje que no darwinismo ela é insuficiente para explicar a evolução – a crença na fama e riqueza fáceis (emblemática nas “lições” do Big Brother), a tolerância aos crimes hediondos e de lesa-pátria (reforçada por décadas de “rouba, mas faz”) e a falta de valores humanos coletivos, como a confiança, justiça, solidariedade e sensação de pertencimento.


Tal qual uma manada de presas, indiferentes aos ataques dos predadores, deixamos que se sacrifiquem cerca de 60 mil vidas inocentes por ano no Brasil. Não se trata de uma guerra, mas de um genocídio. Sequer os militares interventores estão em guerra, porque apenas a um dos lados é “permitido” matar sumariamente.


O problema é pensado sob uma racionalidade compartimentada e hierárquica, não há uma determinação nacional para acabar com o genocídio em dez anos, por exemplo. Deveria haver uma campanha “Nem mais um policial morto!”, pois a desmoralização da segurança pública consolida essa barbárie em que vivemos.
Em vez de financiamentos bilionários de campanhas políticas pífias, governos e sociedade civil organizada deveriam estar usando intensamente a mídia – com representatividade de todas as perspectivas envolvidas – para discutir ações emergenciais para estancar a sangria da violência pública. As propostas dos partidos políticos não têm credibilidade para envolver corações e mentes.


A mudança é urgente e precisamos começar compreendendo o conselho de Einstein: “Não podemos resolver nossos problemas usando a mesma forma de pensar usada para criá-los”.

* Professor da Unirio e da Coppe/UFRJ e pesquisador do CNPq



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