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Internacional

Papa pede perdão

Arcebispo rival de Francisco acusa pontífice de acobertar abusos

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DUBLIN - Em seu segundo e último dia de visita à Irlanda, o papa Francisco pediu perdão, durante missa realizada em Dublin, para uma longa lista de vítimas de abusos cometidos por padres ou instituições religiosas no país. No mesmo dia, o arcebispo Carlo Maria Vigano, embaixador aposentado do Vaticano nos Estados Unidos, pediu a renúncia do pontífice, acusando-o de demorar a agir rapidamente sobre as acusações de assédio contra Theodore McCarrick, ex-arcebispo de Washington.

Em uma carta de 11 páginas, Vigano diz que as sanções impostas contra McCarrick pelo papa Bento XVI foram levantadas por Francisco, apesar dos informes sobre o “grave comportamento imoral com seminaristas e padres”. Vigano disse ainda que informou Francisco pessoalmente, em 2013, sobre as práticas de McCarrick.

O embaixador aposentado afirma ainda que o papa “continuou a acobertar” o ex-arcebispo de Washignton” e, além disso, tornou o religioso seu “conselheiro”. “Nesta dramático momento para a Igreja, ele deve reconhecer seus erros e, mantendo-se fiel ao princípio de tolerância zero, papa Francisco deve ser o primeiro a dar o bom exemplo para cardeais e bispos que acobertaram os abusos de McCarrick e renunciar ao lado de todos eles”, diz Vigano.

O Vaticano não comentou o assunto. Conhecido por sua postura conservadora e anti-gay, Vigano é considerado um rival de Francisco, que tem uma postura reformista e mais aberta para os padrões do clero. Até mesmo vítimas de abusos cometidos por padres disseram que era preciso ter calma, pois Vigano teria motivações políticas, mas, mesmo assim, o Vaticano deveria responder as acusações.

A polêmica surge em um momento em que Francisco realiza visita histórica à Irlanda, a primeira de um papa à nação desde 1979, quando João Paulo II esteve no país, considerado um dos mais católicos do mundo. No segundo dia de sua visita, ele realizou uma missa no parque Phoenix, em Dublin, durante a qual pediu perdão “aos sobreviventes dos abusos de poder, de consciência e sexuais” cometidos por membros do clero.

Em um momento, Francisco chegou a listar os crimes cometidos por clérigos na Irlanda. O papa se desculpou pelas “crianças tiradas das mães” solteiras, e condenou os “membros da hierarquia que se calaram”. Mais cedo, durante uma visita ao Santuário de Knock, a 180 quilômetros da capital, o papa implorou “o perdão do Senhor por estes pecados, pelo escândalo e pela traição sentida por muitas pessoas na família de Deus”.

Desde 2002, mais de 14.500 pessoas foram vítimas de abusos sexuais por membros do clero na Irlanda. A hierarquia da Igreja irlandesa é acusada de ter encoberto centenas de padres. Várias investigações também revelaram práticas ilegais de adoção de crianças nascidas de mulheres solteiras, realizadas pelo Estado irlandês com a cumplicidade da Igreja Católica.

 



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