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Papa expressa 'vergonha' diante do fracasso da Igreja no combate aos abusos

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O papa Francisco reconheceu neste sábado (25) sua "vergonha" diante do fracasso da Igreja por não ter enfrentado adequadamente os "crimes ignóbeis" do clero na Irlanda, durante seu discurso diante das autoridades políticas e civis deste país.

"O fracasso das autoridades eclesiásticas - bispos, religiosos superiores, sacerdotes e outros - para tratar adequadamente estes crimes repugnantes provoca indignação e continua a causar sofrimento e constrangimento à comunidade católica. Eu mesmo compartilho esses sentimentos", declarou o papa numa intervenção sobre esta questão.

O pontífice direcionou um pensamento particular às "mulheres que no passado sofreram situações de particular dificuldade". "Eu não posso deixar de reconhecer o grave escândalo causado na Irlanda pelos abusos de menores por parte de membros da Igreja encarregados de protegê-los e educá-los".

O papa argentino se referiu ao seu predecessor Bento XVI, que em 2010 havia escrito uma carta a todos os católicos irlandeses.

"Sua intervenção franca e decisiva serve ainda hoje de incentivo aos esforços das autoridades eclesiais para remediar os erros do passado e adotar padrões rigorosos para garantir que não voltem a acontecer", disse Francisco.

"A Igreja na Irlanda teve, no passado e no presente, um papel de promoção do bem que não pode ser ocultado", ressaltou em seu discurso, acrescentando: "Espero que a gravidade dos escândalos dos abusos, que revelaram as falhas de muitos, sirva para enfatizar a importância da proteção dos menores e dos adultos vulneráveis por toda a sociedade."

Por sua vez, o primeiro-ministro irlandês, Leo Varadkar, pediu ao papa que use sua "posição e influência" para tentar fazer "justiça" às vítimas dos abusos cometidos por membros do clero no mundo inteiro.

"As feridas ainda estão abertas e há muito a ser feito para que as vítimas e sobreviventes obtenham justiça, verdade e cura. Santo Padre, peço que use sua posição e influência para conseguir este feito aqui na Irlanda e em todo o mundo", declarou Leo Varadkar por ocasião da visita do pontífice à Irlanda.

"Devemos garantir que as palavras sejam seguidas de ações", insistiu em seu discurso no Castelo de Dublin, ao lado do sumo pontífice.

Desde 2002, mais de 14.500 pessoas se declararam vítimas de abusos sexuais cometidos por padres na Irlanda.

"É uma história triste e vergonhosa, uma mancha em nosso Estado, nossa sociedade e na Igreja Católica", estimou Varadkar.

O primeiro-ministro irlandês também se referiu ao lugar da Igreja Católica irlandesa, cuja influência, que já foi enorme, vem diminuindo devido aos escândalos de pedofilia e à evolução dos costumes neste país de quase cinco milhões de habitantes.

Francisco, que realiza esta viagem oficial à Irlanda 39 anos depois da passagem de João Paulo II, pediu à população irlandesa que mantenha a fé.

"Rezo para que a Irlanda, enquanto ouve a polifonia da discussão sócio-política contemporânea, não esqueça as vibrantes melodias da mensagem cristã que a sustentaram no passado e que podem continuar a fazê-lo", disse ele.

"A família é o que une a sociedade; seu bem não deve ser visto como garantido, mas deve ser promovido e protegido com todos os meios apropriados", disse Francisco, cujo principal ato durante sua visita à Irlanda será o encerramento do Encontro Mundial das Famílias.

O papa também reconheceu "as dificuldades que as famílias enfrentam na sociedade de hoje em rápida evolução".

Jorge Bergoglio também fez referência ao vigésimo aniversário da assinatura do Acordo da Sexta-Feira Santa na Irlanda. Em homenagem a este acordo de paz, ele elogiou "o ideal de uma família global de nações", atualmente questionado pelo "persistente mal do ódio racial e étnico".

Os escândalos que abalaram a Igreja Católica da Irlanda

A Igreja Católica da Irlanda esteve, desde os anos 1980, no centro de vários escândalos estremecedores, como abusos sexuais, adoções ilegais e casos de meninas transformadas em escravas.

O papa Francisco se reunirá com algumas vítimas em sua primeira visita à Irlanda, que começou neste sábado.

Veja os principais casos que fizeram tremer a Igreja católica irlandesa nos últimos anos.

- Padres pedófilos:
Os líderes da Igreja católica da Irlanda são acusados de acobertar centenas de padres suspeitos de abusar sexualmente de milhares de crianças por várias décadas.

As primeiras acusações surgiram na década de 1980, no início de uma onda de revelações que acabaria se tornando global.

As denúncias levaram a várias investigações e julgamentos civis e criminais.

"Os abusos sexuais eram endêmicos nas instituições para crianças", estabeleceu uma comissão de inquérito, encarregada pelo governo, que estudou o período entre 1936 e o final dos anos 1990.

"As autoridades religiosas sabiam", disseram os investigadores, mas "o problema foi tratado com procedimentos disciplinares internos".

O governo estabeleceu um mecanismo público de compensação financeira para as vítimas, ao qual recorreram mais de 14.500 pessoas.

A Igreja católica da Irlanda, após vários escândalos, estabeleceu em 1996 um procedimento interno detalhado que exige que tais atos sejam sistematicamente "denunciados à polícia".

A partir de 2008, uma série de investigações internas revelou acusações de abusos sexuais cometidos desde 1975 por pelo menos 85 padres.

- As lavanderias de Madalena:
Entre 1992 e 1996, mais de 10.000 meninas e mulheres trabalharam gratuitamente em lavanderias, exploradas comercialmente por freiras católicas na Irlanda.

As internas, apelidadas de "Magdalene Sisters" ("Irmãs de Madalena"), eram principalmente meninas que engravidaram fora do casamento ou que tinham um comportamento considerado imoral, especialmente vítimas de estupro ou prostitutas.

Em 2013, as autoridades irlandesas publicaram um relatório de mil páginas sobre esses comportamentos, o que levou o então primeiro-ministro Enda Kenny e as congregações religiosas a pedir desculpas públicas.

Em mais de um quarto dos casos, o Estado foi responsável pelo envio dessas mulheres para essas lavanderias.

- Fossa comum:
Em 2015, o governo irlandês abriu uma comissão para investigar 18 centros de nascimento que acolhiam jovens mães solteiras, para examinar sua "alta taxa de mortalidade" de recém-nascidos.

Esta investigação se deu após o trabalho de uma historiadora, Catherine Corless. Segundo ela, cerca de 800 crianças nascidas em um desses centros, o Lar St. Mary das Irmãs do Bom Socorro de Tuam (oeste da Irlanda), haviam sido enterradas em uma fossa comum, entre 1925 e 1961.

Os atestados de óbito apontavam que os bebês tinham morrido de desnutrição e doenças infecciosas, como tuberculoso e sarampo.

Em 2017 foi encontrado um grande número de ossadas infantis.

Em 2014, o primeiro-ministro irlandês Enda Kenny chamou de "abominação" a maneira como as jovens mães haviam sido tratadas e lamentou que seus filhos tivessem sido considerados como "subespécies inferiores".

- Adoções ilegais:
Nos últimos anos, várias investigações revelaram a extensão das práticas de adoção ilegal de crianças nascidas de mulheres solteiras, realizadas pelo Estado irlandês com a cumplicidade da Igreja católica.

Uma investigação sobre uma agência de adoção, a St Patrick's Guild, gerida pela congregação católica das Irmãs da Caridade, estabeleceu em maio que pelo menos 126 certidões de nascimentos foram falsificadas entre 1946 e 1969, constando nelas o nome dos pais adotivos como seus biológicos.

O primeiro-ministro Leo Varadkar pediu desculpas em nome do Estado irlandês, e considerou que essas revelações constituíam "um novo capítulo sombrio na história do país".

A agência em questão encerrou suas atividades em 2014. Mas de acordo com a ONG de defesa das crianças Barnardo's, todas as agências de adoção na Irlanda estiveram envolvidas em práticas ilegais semelhantes.

Seu diretor apontou que pelo menos 150 mil adoções deveriam ser investigadas, das quais ele considerou que 10% eram ilegais.

Sobrevivente de abuso sexual nos EUA pede ação do papa Francisco

Shaun Dougherty está "doente e cansado de ser enganado". Em plena visita do papa Francisco à Irlanda, o americano que sobreviveu aos abusos sexuais por parte de um padre, quer que o chefe da Igreja Católica ajude as vítimas a obter justiça.

Com raízes irlandesas, Dougherty, de 48 anos e proprietário de um restaurante em Nova York, diz que foi abusado e agredido sexualmente dos 10 aos 13 anos em uma escola católica em Johnstown, Pensilvânia.

Como muitos sobreviventes, está farto das declarações dos líderes da Igreja sem que se transformem em medidas concretas para responsabilizar os criminosos.

"O Vaticano e o papa, e o papa anterior, e o papa antes desse, emitiram declarações sobre isso", disse Dougherty à AFP. "O homem sentado aqui hoje está cansado de declarações. Eu estou cansado de ser enganado... quero ver ações".

O papa Francisco reconheceu neste sábado na Irlanda sua "vergonha" diante do fracasso da Igreja por não ter enfrentado adequadamente os "crimes ignóbeis" do clero.

"O fracasso das autoridades eclesiásticas - bispos, religiosos superiores, sacerdotes e outros - para tratar adequadamente estes crimes repugnantes provoca indignação e continua a causar sofrimento e constrangimento à comunidade católica. Eu mesmo compartilho esses sentimentos", declarou numa intervenção sobre esta questão.

"Espero que se exponha na Irlanda e fale de coração. Quero que diga o que, na condição de papa, fará!", declarou Dougherty, de barba grisalha e óculos.

Em campanha para mudar as leis americanas sobre crimes sexuais contra menores, ele quer que o Vaticano pare de pressionar para que não se estenda a lei de prescrição e que a lei seja aplicada retroativamente, e que as vítimas "tenham o que precisam para sobreviver".

"A ironia nessa situação é que, se um padre desperdiça dinheiro da igreja é processado de maneira firme", reclamou à AFP.

Dougherty se opõe a qualquer noção de impunidade para os padres pedófilos. Seu agressor era seu padre, professor de religião e treinador e ainda está vivo, com agora em torno de 60 anos.

Agora aposentado, vive "a sete minutos de carro" da casa que Dougherty possui na Pensilvânia.

Ele foi transferido para outra paróquia após as primeiras denúncias públicas em 2012, e retirou-se quando novas acusações vieram à tona. Mas está em liberdade.

"Ele não está registrado como agressor sexual. Não passou nem um dia na cadeia. Recebe aposentadoria", denuncia Dougherty.

O oitavo de nove filhos de uma família católica praticante, Dougherty esperou ter 21 em 1991 para contar para a sua família sobre os abusos que ele e alguns de seus colegas sofreram nas mãos do padre.

Seus pais levaram anos para acreditar em suas palavras. Em 2012, ele falou pela primeira vez à polícia, depois de um apelo para que testemunhas se apresentassem quando o sacerdote foi acusado publicamente.

- "Pular do penhasco" -
Dougherty trabalhou duro desde o ensino médio, passando de lavador de pratos a chef de cozinha, a dono de um café e finalmente construindo um restaurante com seu irmão. Mas avançar seis anos atrás foi uma decisão difícil.

"Perguntei a mim mesmo o que eu deveria fazer. Estava construindo um restaurante, valeria a pena voltar para a Pensilvânia e encarar a Igreja Católica? Seria como pular do penhasco".

Agora casado, ele diz que não se arrepende. Liderar uma campanha contra a Igreja enquanto administra um negócio pode ser difícil, mas sente "um senso de dever".

Todo mês ele organiza uma reunião em seu restaurante para sobreviventes de abusos sexuais por membros do clero para a rede de sobreviventes SNAP. Suas declarações públicas lhe renderam mensagens diárias de apoio de vítimas em todo o mundo.

Recentemente, um australiano o parabenizou, dizendo que, enquanto estava velho e morrendo, estava "muito feliz em ver pessoas novas" lutando por justiça.

Mas mesmo que o papa finalmente aja de forma decisiva, Dougherty diz que nunca mais voltará à Igreja. A última vez foi em 2014 para o funeral de seu pai em Saint Clement, Johnstown.

"Esse foi o dia mais difícil da minha vida. Quando acenderam o incenso, o cheiro... minha pele se arrepiou, as paredes pareceram se fechar... Eu queria literalmente arrancar a carne dos ossos e pular pela janela de vidro", disse ele.

Papa não é 'bem-vindo' por todos em Dublin

O papa não é "bem-vindo" por todos: a visita de Francisco à Irlanda causou neste sábado (25) um debate nas ruas de Dublin sobre o papel da Igreja no país, muito afetado por abusos cometidos por eclesiásticos.

De um lado, estão os partidários do papa Francisco, que o aclamaram quando o Sumo Pontífice acenou de dentro do carro que o conduzia pelas ruas da capital irlandesa.

Acompanhados pelos sons dos sinos da cidade, fiéis, entres os quais havia uma importante delegação espanhola, levantaram bandeiras que diziam "Papa Francisco, juntos te amaremos por toda a eternidade".

Alguns jovens não hesitaram em seguir o cortejo papal pelas ruas, fechadas para o trânsito. As calçadas também estavam cheias de policiais e ambulantes vendendo bandeiras do Vaticano.

Mas havia também opositores, como Rosa López, de 45 anos, que chegou com uma bandeira coberta de frases provocativas e claramente opostas ao papa, como: "O papa não é bem-vindo" e "solidariedade com os sobreviventes (de abusos do clero)".

"Existe um crime e ele deve ser processado", disse à AFP a mulher, originária da Espanha, que mora em Dublin.

A visita papal, primeira à Irlanda desde 1979, é um "insulto aos sobreviventes", insistiu. "Ele disse que sentia muito, mas isso não é o suficiente".

Desde 2002, mais de 14.500 pessoas se declararam vítimas de abusos sexuais cometidos por sacerdotes na Irlanda. A magnitude desse escândalo acelerou a queda da influência da Igreja, antes muito ampla, na sociedade irlandesa, tradicionalmente católica.

- "É só um homem"
Em um discurso ao meio-dia, o papa expressou em Dublin sua "vergonha" e "sofrimento" diante do "fracasso das autoridades eclesiásticas - bispos, superiores, religiosos, sacerdotes e outros - em lidar de maneira adequada com esse crimes "desprezíveis" no passado.

Atravessando a multidão, Rosa López recebe olhares irritados de alguns irlandeses, mas também aplausos de um homem que toma uma bebida no terraço de um café.

Esta é a reação que teme Anne-Marie Dean, católica de 47 anos, para quem os fiéis na Irlanda são cada vez menos respeitados.

A visita papal, considera Dean, é uma oportunidade para "o Santo Pai nos apoiar", mas também um convite para a "reconciliação" entre a Igreja e os irlandeses.

Outro opositor, Richard Duffy, de 31 anos, escreveu "Detenham o papa" em um cartaz que mostra com orgulho.

"Não posso acreditar que o festejam", disse. "Seguem negando e se recusam a admitir qualquer falha e fornecer informações sobre o mal que ocorreu aqui", disse, se referindo aos responsáveis do clero e dos abusos sexuais.

Ao ouvir essas palavras, um homem se detém para defender o papa.

"Como ele poderia se desculpar de tudo isso? Ele é só um homem", disse, recusando-se a se identificar.



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