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Cultura

As herdeiras defende o amor contra a desigualdade

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA*, Especial para o JB

Pouco conhecido fora de seu território, e lembrado mais por experiências documentais (como o recente Exercícios da memória”) e uma comédia, “7 Caixas”, o cinema paraguaio produziu no drama de tintas LGBT “As herdeiras” (”Las herederas”) um ímã de elogios e de prêmios, infalível no gosto de crítica e público desde a passagem pelo Festival de Berlim.

Em cartaz no Brasil a partir desta quinta-feira, e já com exibições de pré-estreia no Reserva Cultural, até quarta, às 15h30, esta história de redenção afetiva e social, dirigida pelo estreante Marcelo Martinessi, foi o título mais premiado entre os concorrentes da competição estrangeira de Gramado. Desceu a Serra Gaúcha com seis troféus: ganhou os Kikitos de melhor filme estrangeiro, direção e atriz (para o trio Ana Brum, Margarita Irun e Ana Ivanova), além das láureas da Associação Brasileira de Críticos de Cinema e do júri popular.

Com o resultado de Gramado, seu currículo de vitórias já soma 19 prêmios, começando pelo troféu Alfred Bauer dado a Martinessi na Berlinale: a láurea é confiada a filmes que abrem novos paradigmas estéticos de representação no cinema. Na capital alemã, o filme ganhou ainda o Urso de Prata de melhor atriz para Ana Brun e o prêmio da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci). Na trama, Chela (Ana) e Chiquita (Margarita Irún) vivem uma história de amor há três décadas. Tinham uma herança de família (bem abastada) para custear seu cotidiano em Asunción. Porém, quando o dinheiro acaba, elas começam a vender seus bens. Em meio à crise, Chiquita vai presa por fraude bancária. Sozinha, Chela se vê diante da necessidade de reinventar sua vida, oferecendo seus serviços como motorista para idosas de alta classe média. Nesse processo de reinvenção, ela esbarra com uma jovem, Angy (Ana Ivanova), e encara uma nova transformação, agora afetiva. Martinessi conversou com o JB:

‘Momento é de desarmonia’

JB: De que maneira você define as diferentes realidades de classe social representadas em “As herdeiras”?

MARCELO MARTINESSI: O Paraguai é um dos países mais desiguais do mundo. Por isso, era importante que o filme retratasse Chela e Chiquita em um momento de desarmonia não só no âmbito afetivo: o contingente social delas também deveria estar em crise. É uma crise que afeta uma burguesia mais acomodada, que sempre conseguiu se manter, mas que, agora, tem problemas. Essa condição obriga as personagens a um questionamento sobre sua classe. Já a empregada doméstica que ocupa um lugar central na narrativa, pois, a partir dela, vemos como Chela vai se transformando ao longo da trama. Já a relação entre as mulheres mais velhas, passageiras de Chela, tem outros componentes. Elas são parte de uma sociedade classista, cheia de prejuízos e chegadas a uma fofoca. Estão em uma idade em que suas maldades e suas invejas vão se acentuando. O cuidado era não deixar que esse retrato caísse na caricatura.

JB: Como foi seu trabalho com fotógrafo Luis Armando Arteaga na construção da luz desse Paraguai mais intimista?

Trabalhamos juntos há cerca de dez anos. Com isso, polimos bem o processo de construção de atmosferas. Sempre debatemos muito e sinto que, dessa nossa fusão, saem os melhores resultados. Desde a construção do roteiro, era claro pra mim que essa história deveria ser contada pelas frestas de portas entreabertas, à meia luz. Tive o mesmo cuidado com a equipe de som, para armar uma construção sonora que correspondesse a essa direção: os ruídos só se tornam mais fortes quando o mundo da protagonista, Chela, começa a se abrir.

JB: O que te levou a essa aposta numa dinâmica mais minimalista?

A sensação de que, em “As herdeiras”, aquilo que se oculta é mais importante do que aquilo que se mostra.

*Rodrigo Fonseca é roteiro e crítico de cinema



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