Jornal do Brasil

Cultura

Samba da Baixada hoje em Botafogo

Compositor e pesquisador Bira da Vila celebra 20 anos de carreira com show e álbum

Jornal do Brasil ANDRÉ DUCHIADE, andre.duchiade@jb.com.br

Bira da Vila diz que faz arte porque quer falar da vida na Baixada Fluminense. Nos seus sambas, a região não é aquela de um clichê ordinário e preconceituoso, “como se somente tivesse violência e analfabeto”, ele assegura, mas outra, onde há um “caldo cultural em ebulição, grandes artistas e muito motivo para ter orgulho”.

O artista completa 20 anos de carreira com um show especial, hoje, em Botafogo, no qual gravará um novo CD, entre antigos sucessos, canções inéditas e interpretações. É uma conquista para um compositor que representa uma região com décadas de tradição no samba, que, só dos anos 1940 para cá, inclui nomes como Cabana, Osório Lima, João da Paz, Catone e Anésio. Artistas que, como diz o próprio Bira, não têm o reconhecimento devido:

“Pode parecer folclore, mas existe uma barreira muito grande para um artista da Baixada expor o trabalho no Rio. Vários desses compositores tiveram obras gravadas por Clara Nunes, Beth Carvalho ou Martinho da Vila. Apesar disso, quando fui pesquisar sobre eles, achei no máximo uma matéria sobre um samba com que Cabana e Catone ganharam um torneio na Portela. A Zona Norte sempre tem compositores como Monarco, Paulo da Portela e Candeia lembrados. A Baixada, nunca”.

A pesquisa, no caso, foi para o “Canto da Baixada”, álbum de estreia de Bira, de 2010, que tinha por propósito exatamente reunir e tornar conhecido o trabalho desses autores. De lá pra cá, houve apenas outro álbum, “Em canto”, lançado no ano passado. Discografia breve, para alguém com tanto tempo de estrada, um método particular de compor, um vasto conhecimento sobre a história do samba e um aprimorado pensamento sobre o gênero musical, o funcionamento do mercado fonográfico e a sociedade em geral.

Sem ônibus, caciqueiros criaram nova roda em Duque de Caxias

O samba começou a ser decisivo na vida de Bira da Vila – o apelido de Ubiraja Silva de Souza, 55 anos –, nos primeiros anos da década de 1980. Na época, as rodas do Cacique de Ramos, onde ele e os amigos queriam ir, ficavam boas lá para as 2h. A falta de transporte público da Baixada Fluminense para a quadra com a tamarineira na Rua Uranos, contudo, tornava a viagem árdua ou mesmo impossível. Para compensar, o grupo passou a se reunir para tocar em Caxias, ao lado do Clube Recreativo Caxiense. “Na mesma época, minha mãe faleceu subitamente. O único lugar onde eu conseguia ficar numa boa, sem pensar na perda e sem sofrer, era na roda de samba”, diz Bira, cujo sobrenome artístico “da Vila” evoca a Vila São Luiz, em Duque de Caxias. “Aí comecei a cantar umas músicas, como ‘Pedro Brasil’, do Djavan, e ‘Meu guri’, do Chico Buarque”.

Em 1982, ele conheceu a pessoa que mais o ajudou na carreira musical, a quem sempre se refere com enorme reverência e carinho: Luiz Carlos da Vila (1949-2008). Aos 19, Bira já conhecia o compositor da escola de samba Vila Isabel, morador da Vila da Penha. O primeiro contato foi pelos discos do pai, o que levou o jovem a escutar “A graça do mundo”, canção de que se tornou fã incondicional, e composições interpretadas por Mussum, como “Artigo esgotado”.

Macaque in the trees
Nome artístico vem da Vila São Luiz, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, onde o compositor foi criado

Em uma visita de Luiz Carlos a Duque de Caxias, uma amiga em comum, Lúcia, pôs os dois em contato. “Fiquei, então, amigo do meu ídolo”, diz Bira. “No meu interior, pensei também que aquele cara chegou para dar uma reviravolta na minha vida. Até então, nunca pensara em ser artista. Mas mostrei ‘Vou ficar por aqui’ [lançado em ‘Em canto’] e ele se apaixonou por esse samba. Ele sempre me inspirou”.

Uma das particularidades do samba de Bira é o seu método de composição. Ele não toca nenhum instrumento de harmonia, mas apenas de percussão. Isto é, o músico não domina cavaquinho, banjo ou violão, mas sim o pandeiro, o atabaque ou o tantã, entre tantos outros. O aprendizado veio desde bem pequeno, quando frequentava terreiros de candomblé com a família.

Este modo de compor, ele diz, torna as suas harmonias não convencionais, já que elas seguem caminhos que fogem ao esperado. “Tenho um pouco de dificuldade para mostrar um samba novo em uma roda, como as pessoas não entendem de cara as harmonias que proponho”.

No caso de “Sorriso de banjo”, por exemplo, seu parceiro de composição Fidélis Marques cismou que uma súbita mudança do tom de ré maior para fá menor era impossível. Procuraram Arlindo Cruz, para ver se ele “endireitava” a canção. “Ele disse para eu não mudar nada, que era isso que tornava meu samba especial. Mas depois isso virou uma brincadeira do Arlindo, dizer que ‘o Bira é maluco’”, se diverte.

Bira diz que teve uma influência decisiva do Cacique de Ramos e do pagode do Fundo de Quintal em sua obra, sobretudo pela introdução de novos instrumentos, mais baratos, em oposição aos outros mais caros, como surdo e pandeiro.

“O Cacique modificou o modo de se fazer música e me deu o pontapé inicial de que eu poderia ter um lugar na música. O Fundo de Quintal inventou o tantã, o repique de mão e outros instrumentos muito baratos e acessíveis. Isso começou a explodir em todos os botecos e foi uma revolução para os crioulos da Baixada como eu”.

Lugar na história

A partir de agosto de 1998, Bira começou a se dedicar à música de forma profissional, motivo para o show de agora. A influência de Luiz Carlos foi outra vez fundamental, ajudando-o a pensar a carreira, “sem ansiedade pela fama”, entendendo que o reconhecimento, se fosse para vir, chegaria com o tempo.

O compositor diz que ambiciona dar uma modesta contribuição à história do samba, por meio de um diálogo com o seu próprio tempo. É isto o que ele almeja no álbum lançado ano passado.

“Noel Rosa já tentava retratar a própria época em que vivia. No ‘Em canto’, faço um esforço para falar do momento de caos que o país vive, com as pessoas desesperadas, se matando e morrendo. Brinco que não é um disco fácil, mas que, daqui a cinco ou dez anos, quando o Brasil voltar ao rumo, as pessoas irão entendê-lo”.

Além de músico inventivo, o artista também é um grande intelectual e pensador do samba, sobretudo de seus esquemas mercadológicos e de distribuição. É muito crítico, por exemplo, de quem assina as próprias criações ao lado de nomes famosos, apenas para conseguir projeção e visibilidade.

Também ataca as gravadoras, que adiantam pagamentos por direitos autorais, à condição de depois deterem a integridade da propriedade intelectual das obras por 70 anos. Por criticar este modo de funcionamento, acabou por produzir, gravar e lançar os dois discos de modo independente, o que também fará no novo álbum.

No show, ele também toca músicas de Candeia, Arlindo, Wilson Moreira e, claro, Luiz Carlos da Vila. Sobe ao palco acompanhado por Diogo no cavaco, Feijão no violão de sete cordas, Miguel nos sopros), Marquinho no pandeiro e caixa, João no tantã e repique e Pavarotti no surdo e efeitos.

Em relação ao reconhecimento, diz que todo mês batalha para fechar as contas, mas que mantém a cabeça livre de quem sabe ser dono de si. “O Luiz Carlos uma vez falou para eu não me preocupar com isso, porque, se vier, será pelo conjunto da obra. Ela segue caminhos imprevisíveis. Um dia estava na casa de um amigo e recebi um telefonema de um cara dizendo que tinha desistido de se suicidar porque tinha escutado ‘A casa’, uma das minhas músicas, repetidas vezes. Então, eu comecei a chorar. Se nada mais acontecer, está cumprida a minha missão”.

__________

BIRA DA VILA

AUDIO REBEL. Rua Visconde de Silva, 55 - Botafogo; Tel.: 3435-2692. Hoje, às 20h. Entrada: R$ 20.



Recomendadas para você