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'Missão 115' fala sobre atentado no Riocentro e mostra que anistia como 'autoperdão' traz sérias consequências

Jornal do Brasil MÔNICA LOUREIRO, monica.loureiro@jb.com.br

Estamos no limbo, ainda tentando construir a democracia no Brasil”, afirma o jornalista Lucas Figueiredo, ao resumir a herança da impunidade dos crimes cometidos pala ditadura militar, no documentário “Missão 115”, de Silvio Da-Rin, que entra hoje em cartaz. “Nossa democracia é frágil, parece que aquela transição entre o governo militar a o primeiro presidente eleito não acabou até hoje”, analisa o diretor, em seu novo filme, a respeito dos acontecimentos que antecederam o atentado no Riocentro em 30 de abril de 1981 e suas consequências. O título do longa-metragem remete ao codinome da operação terrorista.

Macaque in the trees
Edição de 1º de maio de 1981 do JORNAL DO BRASIL trouxe estampada na primeira página a notícia do atentado

“O desejo de realizar este filme apareceu assim que eu fiquei sabendo do atentado. Estava fora do Rio, numa fazenda, e fiquei espantado com a dimensão que aquilo poderia ter tido, se a bomba não tivesse explodido antes do tempo. O coronel Newton Cerqueira (comandante da PM na época) havia desmobilizado a segurança e as equipes médicas e, das 20 portas do local, 18 estavam trancadas. Me dei conta de que precisava ser documentado e fui reunindo material de pesquisa através dos anos”, conta Silvio. O diretor diz que ficou esperando o momento adequado, que veio quando leu a publicação de Claudio Guerra, “Memórias de uma guerra suja”: “Se este camarada, estava num daqueles sete carros que foram ao Riocentro, se dispôs a contar tudo no livro, finalmente está na hora de filmar”, chegou à conclusão.

Leque de entrevistados

Para contar o que aconteceu nos bastidores daquele show em homenagem ao Dia do Trabalho, que tinha Gonzaguinha, Gonzagão, Chico Buarque, Clara Nunes, Simone, entre tantos outros, e um público de 20 mil pessoas, o documentário lança mão de imagens de arquivo e entrevistas com jornalistas, historiadores, sociólogos e pesquisadores. “Trabalhei com um leque grande de entrevistados, porém tinha de me manter no episódio do Riocentro. A ideia era ir além, dando ao espectador a chance de projetar nesses atos do passado a situação política e social contemporânea”, diz Silvio.

Macaque in the trees
Durante coletiva em que os jornalistas estavam proibidos de fazer perguntas, os militares tentaram justificar o atentado e eximir o sargento e o capitão da culpa

Uma das entrevistadas, a jornalista Beliza Ribeiro, lembra da discussão entre editores na redação do JORNAL DO BRASIL, quando um brigava para dar a foto do carro com o sargento morto e outro dizendo que não daria “presunto” na capa. Ganhou o “presunto político e a edição de 1º de maio saiu com a foto de Vidal da Trindade estampada no alto da primeira página.

Claudio Guerra, o ex-policial civil que foi “arregimentado” pelo governo militar para matar e ocultar cadáveres e que atualmente é pastor, também dá o seu depoimento. “A Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e os banqueiros davam prêmios para os grupos de extermínio. Os paulistas geralmente ganhavam mais”, conta ele, lembrando que, no episódio do Riocentro, ele tinha uma lista de pessoas para prender e culpar. “A ordem saiu do escritório do SNI (Serviço Nacional de Informações). Só que, quando a bomba estourou antes do tempo, todo mundo foi embora”, diz, friamente. “Os nomes, certamente de militantes de esquerda, foram indicados pelo então coronel Freddie Perdigão”, completa o diretor.

Com um orçamento limitado para a produção, Silvio optou por falar com pessoas que tinham contribuição a dar sobre o tema. “Não havia dinheiro para jogar fora procurando, por exemplo, o capitão Wilson Machado, que sempre fugiu de entrevistas”, diz, referindo-se ao militar que sobreviveu no Puma, onde a bomba explodiu no colo do outro ocupante, o sargento Guilherme Pereira do Rosário, morto no local.

Macaque in the trees
O diretor Silvio Da-Rin

O cineasta explica que o documentário se divide em três partes. Na primeira, ele é sujeito do filme, acompanhando uma diligência da Comissão da Verdade - em uma cena, os militares se esquivam de falar e fecham o portão do quartel na cara da equipe, como uma metáfora em relação ao silêncio da instituição sobre os atentados. A segunda aborda o desastre do atentado e a tentativa de atribuir a terceiros a responsabilidade e a terceira, a da impunidade. “A última é a que mais me interessava, falar de todas as consequências que vivemos até hoje por conta daqueles atentados violentos, como os problemas gravíssimos de segurança pública”, destaca.

Intercalando fatos, material de arquivo e entrevistas, Silvio optou por incluir uma encenação onde um terrorista, sempre de costas e não identificado, fabrica as bombas, traça estratégias e escreve panfletos, com o que dizia que Golbery do Couto e Silva (chefe da Casa Civil) era traidor e precisava ser enforcado. “A encenação foi um dispositivo original que encontrei para equilibrar a grande quantidade de entrevistas. São cenas que ora preenchem, ora equilibram”, justifica Silvio.

“Missão 115” permeia várias questões que parecem ter a sua importância diluída através dos anos ou pior, figuras públicas que tentam fazer com que caiam no esquecimento, alegando que “passado é passado”. A Anistia é uma delas, que funcionou, na verdade, como um “autoperdão”, onde nenhum dos envolvidos em atentados terroristas - não só o Riocentro, mas as bombas em bancas de jornais, na Ordem dos Advogados do Brasil e na Câmara dos Vereadores - foi incriminado. “Ela não beneficiou os praças, só o alto escalão”, aponta Ivan Proença, militar cassado em 1964, que também dá depoimento no filme. “O Brasil está farto de anistias, ele precisa é de justiça”, resume outro entrevistado. “Foram pactuações que resultaram nesse estado de direita”, completa o diretor.

Macaque in the trees
Claudio Guerra conta que matava e ocultava corpos

O governo fracassado do general Figueiredo, que não quis se indispor à época com os antigos companheiros e preferiu não investigar o caso, os vários documentos que comprovam os atos - “O Exército não destrói sua memória, a esconde”, diz, a certa altura, um dos entrevistados, enquanto outros condenam a falta de eficiência da Comissão da Verdade (que também esbarra nas restrições da lei da anistia “ampla, geral e irrestrita”) - e a falta de divulgação das informações sobre as mortes no Araguaia são outros pontos destacados.

“Procurei lançar o filme para que ele permita uma discussão oportuna nesse momento pré-eleições, para que as pessoas questionem e percebam de onde se origina esse arcabouço”, diz Silvio Da-Rin, que participará hoje, às 20h30, no Cinema Reserva Cultural de Niterói (Av. Visconde do Rio Branco, 880 - São Domingos) da mesa de debate sobre o documentário.

O diretor convidou a advogada Rosa Cardoso e o historiador Daniel Aarão Reis para a conversa com o público. Sustenta que muitos episódios no Brasil e na América Latina ainda precisam ser esclarecidos. “Se você quer entender de algum assunto, tem de submetê-lo a um processo histórico”, assevera ele, que prepara um próximo projeto ao lado do cineasta Belizário Franca. Este, internacional, será rodado em países como Alemanha, China, Polônia e Cuba e abordará as consequências da queda do Muro de Berlim pelo mundo.

Exorcizando porões dos anos de chumbo: confira crítica de 'Missão 115'

Texto Virtuoso em sua engenharia narrativa, obrigatório como autópsia de um cadáver histórico ainda perfumado a impunidade (no caso, o atentado ao show do Primeiro de Maio de 1981, no Riocentro), “Missão 115” põe carne onde só se encontrariam verbos. Tudo começa com um sujeito (civil), em visita a um quartel, esboçando em um papel a arquitetura do espaço de tortura e claustro por onde passou, durante a ditadura. O tal sujeito, que foi preso político, é o próprio diretor do filme, Silvio Da-Rin. Realizador do febril curta “Fênix” (1980), ele é autor de um livro dos mais seminais sobre a estética do real: “Espelho partido – Tradição e transformação do documentário” (2004). Sua reflexão sobre a linguagem documental se reflete aqui – com mais refinamento do que fez nos longas-metragens “Hércules 56” e “Paralelo 10” - na tensão (e no rigor dialético) que costura todo o organismo fílmico deste ensaio investigativo. Há nele um tom de thriller. Sua poética furiosa lembra os melhores momentos do mestre chileno Patricio Guzmán (em especial, “O botão de pérola”). E encontram-se em seus planos ecos da trajetória pessoal de Da-Rin, como militante de organizações de resistência ao governo militar. Essa experiência pessoal empresta ao longa uma bem-vinda voz na primeira pessoa a um coro de bocas (historiadores, sociólogos, jornalistas e o ex-torturador Claudio Guerra, hoje pastor evangélico) que se complementam mesmo nos pontos nos quais se contrastam. O corpo de Da-Rin entra em cena como um legitimador da memória, a partir dos muitos relatos que colheu (editados por Célia Freitas com objetividade expositiva invejável), fazendo deste .doc um debate sobre a prática da institucionalização do terror. Cada frase - costurada com fotos de época, recortes de jornais e outras matérias do passado - traça uma nova curva no desenho do terrorismo de Estado, mostrando que a bomba que explodiu no colo de dois soldados, no Riocentro, foi plantada como uma estratégia para manter os fardados no poder. Fazendo da divergência e da dúvida seus instrumentos para exumar a história, Da-Rin sofistica seu dispositivo formal e nos dá um filme incômodo e vivo.

* Rodrigo Fonseca é roteirista e crítico

COTAÇÃO: * * * * (Muito Bom)



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