Jornal do Brasil

Cultura

Tim Bernardes apresenta o elogiado "Recomeçar" com show intimista em Copacabana

Jornal do Brasil ANDRÉ DUCHIADE, andre.duchiade@jb.com.br

Das numerosas loas a “Recomeçar”, a estreia solo de Tim Bernardes, do ano passado, boa parte se dirigia aos arranjos orquestrais de cordas, sopros e harpa. O músico concebeu as instrumentações do álbum, assim como fez as vozes e tocou guitarra, violão, baixo, bateria e piano. O acentuado esforço criativo rendeu comparações ao de Brian Wilson em “Pet Sounds” (1966), a obra-prima dos Beach Boys.

Ao subir ao palco do Theatro Net Rio, em Copacabana, às 21h de hoje, no entanto, Tim estará acompanhado só por uma guitarra, um violão e um piano de cauda. Embora venha quase todo do álbum, o repertório surge desprovido de luxo ou grandiosidade. Uma decisão que, sustenta o compositor, o aproxima da proposta vital das canções.

“Esta é uma reprodução da alma do disco”, ele afirma. “Ele tem um clima íntimo, minimalista, frágil. Pensei então que faria mais sentido fazer um show sozinho. É como se eu estivesse no meu quarto, em uma exibição crua das músicas que compus”.

A apresentação é a segunda oportunidade para o público do Rio conhecer a obra solo do vocalista e guitarrista da O Terno, uma das principais referências da música independente brasileira na década, com três discos lançados. O jovem alto, magro e cabeludo de 27 anos toca numa penumbra, em um cenário que remonta a, como diria Guilherme Arantes,“o escuro do seu quarto/ à meia-noite, à meia-luz/ sonhando”.

As composições são resultado de, segundo Tim, um momento mais solitário, de autorreflexão e introspecção. Ao invés de terem sido escritas de supetão, em uma crise particular, todavia, elas resultam de acúmulo ao longo de mais de oito anos.

Macaque in the trees
TIm Bernardes

“Não me recolhi em um momento específico. Gestei as canções de intimidade durante muito tempo, e as guardava para mim. Acho que a boa recepção do Terno me deu confiança para mostrar essa produção”.

Tim gosta de pensar nas músicas como partes de uma só suíte. São, ele diz, “músicas simples, sem mirabolâncias”, unidas pela delicadeza e pelo lirismo. Isso afasta um pouco esta produção daquela de O Terno, mais enérgica, viçosa e bem humorada. O compositor observa, entretanto, que algumas das músicas da banda, como “Melhor do que parece” e “Vamos assumir” poderiam estar em “Recomeçar”. Não à toa, elas também fazem parte do show, em arranjos circunspectos.

Uma série de videoclipes, publicada aos poucos, tem acompanhado o álbum. Filmada sempre em planos-sequência de Tim tocando um só instrumento, com câmera imóvel, a coleção já conta com cinco vídeos e foi concebida pelo próprio. Esta é outra diferença em relação à banda, de clipes artificiosos e elaborados (como “Culpa”, laureado no Prêmio da Música Brasileira semana passada). Ainda há mais vídeos por vir. O mais recente, “Calma”, foi lançado há uma semana e já tem mais de 20 mil visualizações no Youtube.

O sucesso de “Recomeçar” tem sido considerável e rendeu a Tim espaço em diversas listas de melhores álbuns do ano. Além de honrarias como elogios dos jornais franceses Libération e Le Monde, veio também um pedido de Gal Costa para cantar uma de suas músicas. A escolhida, a inédita “Realmente lindo”, é descrita pelo compositor como “um afoxé” e estará em “A pele do futuro”, álbum produzido por Marcus Preto que a cantora edita em setembro.

Tim, que é filho de Maurício Pereira, compositor e cantor que formou Os Mulheres Negras nos anos 1980, ao lado de André Abujamra, mantém os pés no chão. Notório workaholic (chega a passar 15 horas seguidas no estúdio), diz que planeja a carreira com visão profissional. Atualmente, compõe para o quarto álbum de O Terno, a ser lançado em 2019. Entende que a música autoral vive boas condições. “Nos anos 1990, antes da internet, eu via como meu pai sofria como músico independente. Por conta disso, cresci me preparando para o apocalipse. Hoje tento entender quem é o meu público, o que ele espera de mim e o que eu, enquanto artista, quero e acho importante dizer”.

-------------

SERVIÇO

Tim Bernardes apresenta Recomeçar. Theatro NET Rio (Rua Siqueira Campos, 143 – Copacabana; Tel.: 2147-8060). R$ 70 (balcão) e R$1 90 (frisa e plateia). Classificação indicativa: 12 anos. 21h.



Recomendadas para você