Jornal do Brasil

Cultura

Com a seleção mais pop de sua história recente, Festival de Veneza inaugura sua 75ª edição entre Ryan Gosling e Jeff Goldblum

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA *, Especial JB

Veneza (Itália) - Sob um calor de escaldar temperaturas e pressões, Veneza abriu a 75ª edição de seu festival anual - o mais antigo da Europa, agora disposto a tudo para ser também o mais pop do Velho Continente - com os olhos voltados para o espaço - e para possíveis Oscar. Damien Chazelle, diretor de 33 anos que foi aclamado no Lido em 2016 por “La La Land - Cantando estações”, regressa à terra das gôndolas, agora, com um épico sobre os feitos espaciais do astronauta Neil Armstrong (1930-2012): “O primeiro homem”. Ao fim da projeção para a imprensa, muitos críticos cravaram que o trabalho esbanja maturidade, em especial na interação da câmera com Ryan Gosling, o galã a quem o cineasta confiou a tarefa de recriar o icônico momento de Armstrong pisando na Lua, em 1969.

No saldo geral, fala-se bem do longa-metragem, cujo título mundial será “First man” (o nome em Veneza é “Il primo uomo”). Na mídia europeia, a melhor definição dada a ele é: “uma mistura do ‘2001’ de Kubrick com ‘Os eleitos’, de Philip Kaufman, feita com muito humor”. Ele carrega, portanto, o existencialismo kubrickiano, somado a um tônus político.

Além de abrir o festival, “O primeiro homem” inaugurou a briga pelo Leão de Ouro de 2018. E, na disputa, o achado desse dia de abertura de portões da mostra competitiva italiana foi o drama psiquiátrico “The mountain”, de Rick Alverson, um americano de Richmond conhecido pelo filme “Entertainment” (2015). Com um desempenho singular de Jeff Goldblum (de “A mosca”), quiçá o melhor de sua carreira em anos a fio, o longa narra a exótica rotina de um médico que, nos EUA dos anos 1950, fazia da lobotomia uma promessa de salvação para os doentes. As cenas de seu procedimento causaram arrepios na plateia, que segue a trama a partir dos olhos de um assistente do cirurgião, vivido por Tye Sheridan, de “Jogador nº 1”.

Macaque in the trees
Ryan Gosling faz o principal papel em “O primeiro homem”, épico de Damien Chazelle, que recria o momento em que Neil Armstrong pisou na Lua (Foto: Divulgação)

Anteontem, como um “esquenta” para o evento, o festival projetou só para convidados uma cópia restaurada de “O Golem, como ele veio ao mundo” (1920), cult da fase expressionista da Alemanha nas telas, sobre um herói criado para proteger o povo judeu. É nesse pacote de clássicos recauchutados que Veneza inclui documentários inéditos sobre mestres das telas. É o caso do filme nacional “Humberto Mauro”, dirigido por André Di Mauro com foco no mítico realizador das Minas Gerais.

Hoje, o Lido acolhe um dos projetos mais ambiciosos da grife Netflix: o melodrama em preto & branco “Roma”, sobre uma família de classe média no México dos anos 1970. Dona do trailer mais bem comentado na web na atualidade, a produção traz o oscarizado cineasta mexicano Alfonso Cuarón (“Gravidade”) de volta à ativa, após um hiato de cinco anos. Nota-se, no clima da cidade, uma aura de “já ganhou” em torno do longa, ainda que o festival mal tenha começado. Parte do entusiasmo em torno de “Roma” é pelo prestígio de Cuarón (que fez seu nome aqui em 2001, com “E sua mãe também”). E parte é pelo fato de que o júri do Leão dourado deste ano é presidido por um conterrâneo (e amigo) dele, Guillermo Del Toro, de “A forma da água”. Vejamos o que vai dar.

Em paralelo a Cuarón, quinta é dia de Peter Bogdanovich em dose dupla. O mítico diretor de “A última sessão de cinema” (1971) assina a direção do documentário “The great Buster: A celebration” (sobre o comediante Buster Keaton) e aparece como ator em “The other side of the wind”, filme inacabado de seu amigo Orson Welles (1915-1985), realizador de “Cidadão Kane” (1941). “Cada um desses artistas tem um lugar de honra na minha memória”, afirma Bogdanovich ao JB. “Ambos são gênios que desafiam definições”.

* Especial para o JB. Roteirista e crítico



Recomendadas para você