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A mulher em tempos de crise: Confira a crítica de "As herdeiras"

Jornal do Brasil FRANK CARBONE, Especial para o JB

Chela está sendo abandonada pela força do tempo. A herança com a qual ela e sua esposa, Chiqui, viveram nos últimos 30 anos está no fim e lhes resta apenas os objetos de valor. Brevemente, nem eles. Nem Chiqui, que acaba de receber uma notificação de que precisa se apresentar à Justiça.

Ao se ver solitária na casa que hoje representa decadência e solidão, Chela é levada por circunstâncias alheias a se transformar em motorista, e, a partir daí, ver sentido em uma vida que há muito já não tinha nenhum. Não tenha medo ao descobrir que o longa de Marcelo Martinessi ganhou três prêmios no último Festival de Berlim e seis no recém-encerrado Festival de Gramado: cada troféu recebido foi merecido. Uma estreia poderosa em longas, que praticamente abre mão da figura masculina (não aparecem mais do que cinco homens em toda a projeção, nenhum deles como personagem, e isso em momento algum soa forçado) para repaginar um ideal feminino que está em processo de reinvenção constante, e que o filme celebra e apoia. Acrescida ao olhar sobre a crise econômica mundial, o longa consegue manter a força sobre dois temas tão prementes e fidelidade a ambos.

Se nada é muito óbvio é porque a coprodução Paraguai-Brasil-Uruguai-Alemanha-Noruega-França se vale da força das imagens para esculpir seu roteiro. O plano final do filme, por exemplo, não conta com a presença da protagonista, a igualmente estreante em longas Ana Brun. Mas talvez essa ausência represente o tanto de sua força, que não se esvai nem quando ela finalmente não está. A personagem carecia de uma atriz que representasse uma leoa faminta e amargurada; que ela coloque de volta as garras no jogo só mostra que toda sua construção corporal e emocional foram acertadas.

*Assistente de direção e jornalista



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