Jornal do Brasil

Cultura

Marcelo D2 lança "Amar é para os fortes", projeto com filme, disco e outros desdobramentos

Jornal do Brasil MÔNICA LOUREIRO, monica.loureiro@jb.com.br

Uma chama se acendeu e Marcelo D2 voltou a sentir algo que o impulsionava lá em 1993, no início do Planet Hemp. “Muito tempo fazendo disco, show, disco, show... Precisava dar uma balançada na minha carreira e, então, chegou um momento que me deu aquela vontade de falar de novo com as pessoas, mostrar algo para a sociedade, como naquela época. Estamos numa situação em que líderes alimentam medo e ódio e parece que eles estão ganhando”, diz o cantor e compositor, que agora também assina como diretor e roteirista. Ele acaba de lançar “Amar é para os fortes”, um álbum visual - filme que tem como trilha as dez músicas do novo disco. “Tinha feito 16 clipes do disco anterior e só depois me perguntei por que não fiz um link entre eles. Em ‘Amar é para os fortes’, escrevi tudo junto, música e roteiro, uma coisa ia ajudando e dando ideias à outra”, explica.

D2 considera o trabalho uma grande ambição artística, pois decidiu que faria tudo sozinho. “Muitos amigos ofereceram ajuda, mas eu pensei: ‘Este filme é meu’. Sei que até foi meio arrogante, Aí comecei a escrever e vi que não dava, dei com a cara na parede. Passei um ano e meio só estudando para fazer o roteiro. O processo todo levou quatro anos”, conta ele, que vê nesse formato um caminho para o futuro. “Mais do que ouvindo, as pessoas estão vendo muita música, basta observar os acessos no Youtube e outras plataformas”, diz.

Macaque in the trees
Stephan com o pai no pré-lançamento de “Amar é para os fortes”, terça-feira, no Centro Cultural Banco do Brasil (Foto: José Peres)

Inspirado em filmes que marcaram sua infância e juventude, como “Kids” (1994), de Larry Clark, e “Rockers” (1978), de Ted Bafaloukos, D2 diz que a intenção em “Amar é para os fortes” não foi a de contar a sua vida. “Poderia ser a minha história, a daqueles meninos... Mas tem uma hora, da música ‘Resistência cultural’, em que os moleques se reencontram e prometem, entre si, que tudo vai dar certo. Isso poderia ser autobiográfico”, destaca. Emoção foi o que não faltou neste trabalho, onde Stephan Peixoto, filho de D2, interpreta Sinistro, jovem que vive numa comunidade em meio à violência. Ele sai de casa em busca de trabalho e encontra na arte e no amor alternativas à criminalidade. “Escolhi um personagem que não fizesse nada, não fosse rapper, artista... Ele escolhe a cultura como caminho para sair da violência. Eu estou com 50 anos e, quando olho para trás, vejo o quanto a cultura me salvou. Então, digo que sim, a cultura é a saída”, afirma o músico.

Cultura que salva

“Amar é para os fortes” foi rodado na Lapa, Centro, Glória e Catete. Áreas que, segundo D2, eram familiares ao elenco formado por jovens amadores, a maioria amigos de Stephan que, por incrível que pareça, não foi a primeira escolha do artista. “No começo ele nem queria fazer, agora tá feliz pra caramba! Foi muito bonito ser o diretor e pai nas filmagens. O dia em que fizemos as cenas do tiroteio coincidiu com o dia em que Marielle foi assassinada. E a equipe era formada 70% por mulheres, sendo a maioria negra. Foi muito importante e relevante ter ele ao meu lado”, diz, emocionado. E lembra de “Loadeando”, rap que gravaram juntos quando Stephan tinha 10 anos: “Aquilo me mudou muito”, diz o pai do jovem rapper de 25 anos, que é avô de Geovanna, de 4 anos.

D2 conta que o filme está recheado de referências que remetem a influências que moldaram sua carreira profissional e vida pessoal. Entre as primeiras estão os vinis que aparecem logo no início, antes mesmo do nome do filme, um de 1987 da banda de punk rock paulista Grinders e o “Hip hop Cultura de rua” (1988), o primeiro disco de hip hop brasileiro. “Eles sintetizam muito bem o que eu sou e remetem a como era difícil fazer este tipo de música na época”, afirma ele, reforçando que tudo tem um porquê no filme. Como a bonita homenagem que faz a grandes nomes do samba. “É incrível como havia uma sincronicidade, onde as coisas apareciam sempre que eu precisava. Eu já estava editando o filme quando liguei para o Rui Mendes (fotógrafo) e comentei que queria alguma coisa para ilustrar a parte da resistência cultural. Ele disse que tinha as fotos do ensaio ‘Heróis do samba’ (que saiu em 1994 na revista ‘Showbizz’ e depois foi editado em livro) que tanto me tocou e ficou amarradão quando disse que ia colocar no filme”, cita.

Uma citação direta acontece numa cena em que skatistas, para vingar um deles que foi agredido, espancam um cara fortão. “Isso eu refiz de uma cena de ‘Kids’, que vi quando era moleque e me identifiquei. É tipo ‘eu tô aqui na minha, não mexe comigo porque eu não tô só. Não sou bandido, mas também não sou otário!’”, compara, lembrando, no entanto, que a produção tem muito mais a falar de amor e cultura do que violência. “Num momento como esse que vivemos, o amor é que é subversivo”, reitera.

No álbum, D2 teve participações de Rincon Sapiência, Marisa Monte, Gilberto Gil, Nação Zumbi, Danilo e Alice Caymmi - os dois últimos, pai e filha, cantam em “Filho de Obá”. “Ela é minha primeira parceria com o Rincon (Rogê também é parceiro) e meu primeiro afrosamba. Não sou nada religioso, mas escolhi falar de Obá, a rainha da guerra, para representar aquele momento de escolha do Sinistro, em que ele tem ou não que puxar o gatilho. Já “Febre do rato” - onde Zizo, personagem de Irandhir Santos no filme de Claudio Assis homônimo abre falando - foi a primeira música que D2 escreveu para o disco e filme. “Ela foi uma luz, pois conta uma história, sem ser litaral, num filme que não teria quase diálogo”, diz ele, que destaca a participação do músico Money Mark, tecladista dos Beastie Boys.

“Amar é para os fortes”, que será lançado amanhã com exclusividade pela plataforma Apple Music, é parte de uma “obra de arte transmídia”, que ele assegura que ainda vai se desdobrar em outras iniciativas. “Quero que seja um trabalho que transborde! Vou fazer, por exemplo, uma exposição com as artes da Verena Smit e várias intervenções e elementos que aparecem no filme. Também estão planejados o lançamento do álbum em vinil e de uma coleção de roupas em parceria com a C&A”, revela.

Macaque in the trees
O jovem em uma cena do filme com Beatriz Alvez, que interpreta sua namorada, Chloe (Foto: José Peres)

Outro projeto audiovisual em que o artista teve participação foi no longa “Legalize já - Amizade nunca morre”, sobre sua relação com Skunk e o surgimento do Planet Hemp. “Dei uma mãozinha no roteiro e fiz a trilha. É uma história foda do Johnny Araújo (que dirige ao lado de Gustavo Bonafé), que começou a fazer há nove anos. A produtora morreu no meio do processo, ficou pronto, tivemos resistência da bancada evangélica - o filme tem dinheiro da Riofilme e quando a prefeitura mudou... Mas sei que agora vai estrear e o trabalho do Renato Goes e do Ícaro Silva está incrível. Aliás, o Ícaro me tirou do sério, ficou muito parecido com o Skunk. tanto que, na filmagem da morte dele, eu não aguentei ficar”, lembra.

Enquanto não vai para a estrada com o novo disco e antes de fazer mais um show com o Planet Hemp em 1º de novembro na Fundição Progresso, D2 faz várias paradas no exterior com seu “Samba drive”, com repertório de samba jazz. “No fim de outubro vou para os Estados Unidos e, depois, para a Austrália e Nova Zelândia. É um projeto que tem dado muitos frutos”, conta, feliz.



Tags: Marcelo D2

Recomendadas para você