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Quinta vai ser dia de Elisa Lucinda

Jornal do Brasil ANDRÉ DUCHIADE, andre.duchiade@jb.com.br

Elisa Lucinda diz que gosta da “política do cotidiano”. Pequenos momentos em que flagra a resistência a uma cena de opressão, ou uma situação inesperada de alegria, ou um tapado qualquer se dando mal. Acontecimentos como esses serão a argamassa da coluna semanal que ela estreia amanhã no Caderno B do JORNAL DO BRASIL. “Vou me deixar livre. Posso escrever um poema, ou crônicas, ou, às vezes, um pequeno conto. Será uma espécie de ‘jornalismo poético’, a partir do que vejo e sinto”, ela diz.

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A poeta e atriz faz amanhã a estreia da coluna, que será uma espécie de jornalismo poético (Foto: Vitor Nogueira/Divulgação)

Lucinda chamou o espaço de “Cercadinho de Palavras”. A expressão, ela diz, traduz a força de um bom argumento: algo resguardado, seguro, fora do alcance da bruteza. “Uma coluna é um cercadinho, antes de tudo”, ela afirma. “Além disso, uma boa argumentação pode criar uma proteção de modo que o outro não possa destruir, desconsiderar ou insistir em um caminho que vá me ferir”.

Um dos principais assuntos, ela conta, deve ser a importância da própria palavra e do pensamento. Para Lucinda, é este, muitas vezes, o fundamento para a autonomia e a emancipação de qualquer pessoa. “Escrevo para ser útil para a vida das pessoas. Eu sou uma uma artista muito comprometida com meu tempo e quero que as pessoas saiam mais fortalecidas depois de me ler. Não existe cidadania sem palavra. Para mim, ela é o alicerce, o tijolo e o instrumento para qualquer construção. É a minha espada e minha asa mais querida”.

Em sua vida, ela lhe diz, o domínio da linguagem a ajuda também em trivialidades do cotidiano, que, de outro modo, poderiam causar aborrecimentos consideráveis. Um exemplo disso, diz, foi uma vez em que um produtor de café ficou a lhe cortejar por meio de uma deselegante lista dos próprios bens.

“Ele dizia: ‘Tenho um Rolls Royce. Tenho uma Ferrari. Vamos lá para casa, tenho um home theater. Tenho cinco milhões e quero investir no teatro. Vamos logo’. Se queria me conquistar, era o pior caminho possível”, conta. “Quando finalmente me entregou o cartão, eu disse: ‘muito obrigada, querido, mas não vou ligar.

Você não tem uma carta do ser, mas só uma carta do ter. Nem você acredita em si. Realmente, não insista”.

A colocação classuda, diz Lucinda, serviu para o sujeito se recolher à insignificância e ver todo o afinco se esvair. Esse é um exemplo, ela conta, de como uma mensagem bem colocada pode ser poderosa. “Não adianta dizer ‘não’. É necessário ir para um lugar onde o opressor não saiba transitar nem o que fazer. Desenquadrar quem nos constrange”.

Segundo a poeta, para que estas situações particulares despertem interesse, é necessário que transbordem para além de seu caráter particular. Só assim alcançam uma descrição de mecanismos gerais e comuns e contribuem para a vida do leitor, ela garante. “Se eu disser ‘meu namorado terminou comigo’, isso não interessa a ninguém. Se, a partir desse fato, falo dos mecanismos de opressão em uma relação, por outro lado, não será mais só sobre mim. Vou ter criado uma conversa com o leitor”.

Um exemplo disso deve ser tema de uma de suas primeiras colunas (ela guarda segredo sobre o assunto da estreia, e deixa escapar apenas que tem a ver com cinema): o primeiro Dia dos Pais sem o próprio progenitor. A partir dessa ausência, ela pretende refletir sobre a função da paternidade. “Se não falo sobre o mundo, não tem graça”.

Uma pessoa hiperativa

A coluna é a mais recente atividade de Lucinda, em meio a uma extensa lista. Dois filmes estão previstos para este ano. Um dos projetos é “Borderline”, dirigido por Cibele Amaral. Lucinda faz uma psiquiatra de Brasília, que cuida da protagonista Bárbara Paz, que sofre de transtorno de personalidade.

Já em “Pulo do gato”, roteirizado por Marcelo Adnet e Lusa Silvestre e com direção de Felipe Joffily, ela interpreta uma bispa, Maura. O humorista faz o personagem principal, um pastor que enriquece. O lançamento está previsto para dezembro.

Outro trabalho atual de Lucinda é um especial para a Globo que ela escreve em parceria com o rapper Emicida e a roteirista Patrícia Andrade, sob consultoria da filósofa negra. O programa ficcionalizará a vida de Dandara, guerreira negra que, no século XVII, foi uma das líderes do Quilombo dos Palmares. Dandara era casada com Zumbi. O programa, diz a poeta, incluirá vários trechos musicais em ritmo de rap.

Duas empreitadas literárias também a mobilizam: uma é uma revisão de “Parem de falar mal da rotina”, um de seus 18 livros, publicado em 2010, que planeja relançar no começo do ano que vem. A segunda é um romance, em fase de finalização. “Esse é segredo. É um livro que adoro escrever. Ele tem uma pegada erótica”.

Há, ainda, um disco de música, com composições dela e de outros. Ademais, Lucinda tem feito palestras pelo Brasil, dá aulas de poesia falada em sua própria casa toda semana e leva adiante a iniciativa “Versos em liberdade”, de estímulo à poesia entre jovens que cumprem medidas socioeducativas. Depois de participar da Flip e de outras programações, ela deve ano que vem fazer uma turnê por Portugal, Espanha e França, países onde será publicado “Fernando Pessoa - O cavaleiro de nada”, seu primeiro romance.

A pergunta que permanece, diante da lista comprida de atividades, é como há tempo para tanto. Ela faz alguma espécie de sacrifício? A resposta está na ponta da língua: ”Eu sacrifico um pouco o convívio com amigos. Mesmo assim, na minha folga, eu fui ao cinema, namorei, fui à praia e ainda fiz novela. Durmo oito horas por noite, antes que você me pergunte. Sou realmente muito ativa, mas é porque sempre gostei muito de viver. A fortuna da vida é a própria vida. Não preciso de outra”.



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