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Cinema argentino lota as salas de seu país, desafiando a concorrência americana

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA*

Mais (e melhores) gols da Argentina estão previstos no gramado do planisfério cinéfilo, neste momento em que cerca de 15 filmes locais bombam nas telas de Buenos Aires, renovando um repertório temático antes limitado a dilemas familiares, Guerra das Malvinas e sequelas da ditadura. Thrillers como “El Ángel”, de Luiz Ortega - comparado a “Cidade de Deus” (2002) em sua passagem por Cannes, pela reconstituição dos feitos de um temido bandido dos anos 1970 – provam a diversidade de gêneros que tiram a produção de nossos hermanos da estância da política e do existencialismo, com cores que vão além da paleta hollywoodiana, com temperos portenhos.

Macaque in the trees
"Él Ángel" trata dos crimes do adolescente Carlos Eduardo Robledo Puch, que, na década de 1970, acumulou dezenas de roubos e assassinatos por prazer

Em Hollywood, em geral, dinheiro e amor são as razões que levam personagens de boa índole a enfrentar o pior de si, ao contrário do que acontece no cinema argentino: em Buenos Aires, hoje, tem gente aplaudindo, com ardor, um suspense chamado “Animal”, de Armando Bo, no qual Guillermo Francella é capaz de tudo por... um rim.

“Se a gente fosse feliz por aqui, não faríamos o cinema que fazemos hoje”, disse Luis Ortega ao JB, na passagem de “El Ángel” em Cannes.

Seu longa é centrado nos crimes do Anjo, ou melhor de Carlos Eduardo Robledo Puch, adolescente que, entre 1971 e 72, acumulou dezenas de roubos e um punhado de assassinatos, em nome do prazer, e não da necessidade. É um tipo contrário do que se vê em “Animal”, longa que atualmente lota salas de exibição na capital argentina com um enredo digno de “Breaking bad”: Francella vive um gerente de frigorífico que joga seus valores no lixo à cata de um doador que lhe possa garantir um transplante renal. Até em armas, ele vai pegar por isso. “Esse novo cinema que temos feito é uma reação à comodidade, à apatia moral dos novos tempos”, diz Ortega.

Essa inércia de juízos morais de que ele fala mobiliza uma comédia de humor negro que chegou às salas de exibição de Buenos Aires na quinta-feira passada, esgotando ingressos: “Mi obra maestra”, dirigido por Gastón Duprat e produzido por Mariano Cohn. É a mesma dupla do aclamado “O cidadão ilustre” (2016). Lá, eles falavam de literatura e hipocrisia. Agora, falam de charlatania no ambiente das artes plásticas.

“Mi obra maestra” chegou para desbancar a concorrência estrangeira na briga pelo público argentino. Mas vai ter conterrâneos de peso como seus conterrâneos, além de “Animal” e “El Ángel”. Um dos maiores campeões de bilheteria da Argentina, laureado com o prêmio de melhor diretor no Festival de Veneza por “O clã” (2015), Pablo Trapero voltará ao evento italiano, na semana que vem, com um filme novo, sobre o qual nada se sabe, mas muito se espera: “La quietud”.

Na produção, selecionada por Veneza em seção hors concours, Martina Gusmán, mulher e atriz assinatura do cineasta, conhecida por cults como “Leonera” (2008), contracena com Bérénice Bejo (de “O artista”) numa história sobre lavação de roupa suja em família. Edgar Ramírez (o Gianni Versace da série “American crime story”) também está no elenco. “Este novo filme pode ser definido como um melodrama um pouco surreal com toques de thriller sobre a relação entre irmãs. Daqui a um mês, eu termino e vou saber melhor o que é”, disse Trapero ao JB.

Falando da participação de argentinos nos festivais do mundo, o muso cinematográfico deles, Ricardo Darín, vai estar na abertura da mostra anual de San Sebastián, no dia 21 de setembro, ao lado de Mercedes Morán, para promover a comédia romântica “El amor menos esperado”. Na produção, esperada pelos exibidores de lá com a promessa de ser o arrasa-quarteirão do ano, Darín e Mercedes encarnam um casal que se separa depois de quase 30 anos de união. “É bom seguir filmando na nossa língua, buscando histórias nossas”, disse Darín. “Tem muito personagem bom nas ruas da Argentina. É bom dar voz a eles”.

Para os próximos meses, os argentinos já têm engatilhada a volta às telas de seu mais popular ganhador do Oscar, Juan José Campanella. Coroado em Hollywood está finalizando, a todo vapor, um “Las comadrejas”, rodado em Domselaar, uma cidadezinha de 2,4 mil habitantes, a Leste de Buenos Aires. Com toques de humor negro, a produção é um remake de um cult de 1976, dirigido por José Martínez Suárez, chamado “Los muchachos de antes no usaban arsénico”.

“Este talvez seja o filme argentino mais engenhoso dos últimos 50 anos. Mas teve o infortúnio de ser lançado em meio a um golpe militar em nossas terras”, disse Campanella à imprensa de sua pátria. “Meu cuidado nessa refilmagem é não cair em armadilhas de representação de gênero, em machismos”.

Na trama original de “Las comadrejas”, uma veterana atriz (Graciela), há tempos sumida das telas e dos palcos, decide vender um casarão onde vive com três homens: seu marido, seu médico particular e seu contador. A venda do imóvel gera nesses homens, que dependem dela para viver, uma insegurança acerca do futuro. A fim de preservarem seu teto, eles inventam planos estapafúrdios para matar a veterana estrela e ficar com a mansão (a locação usada para reproduzi-la é um castelo do século XVIII preservado em Domselaar).

Ainda não se sabe de Darín, melhor amigo e ator-assinatura do cineasta, estará no projeto. Juntos, eles fizeram sucessos como “O filho da noiva” (2001), também indicado ao Oscar, e o cult “O Clube da Lua” (2004), que ficou meses a fio em cartaz no Brasil. Mas, com ou sem o muso, Campanella há de elevar o cacife autoral de seu país nas telas. E aumentar em alguns milhares de ingressos a receita de nossos vizinhos nas telas.

*Rodrigo Fonseca é roteirista e crítico de cinema



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