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Cultura

Autor de cults como American Flagg, Howard Chaykin emplaca Hey Kids! Comics!, sobre os bastidores do mercado editorial

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA*, Especial para o JB

Definido pela crítica especializada como sendo uma mistura de “Lobo de Wall Street” com paradoxos do universo Marvel, “Hey Kids! Comics!” chegou às gibiterias e livrarias americanas há duas semanas, propondo uma devassa dos bastidores da criação de vigilantes mascarados. Em poucos dias, o novo título da editora Image Comics passou a ser encarado como “o” quadrinho do momento nos Estados Unidos.

O nome por trás dos créditos de roteiro e desenho justifica parte do encantamento da imprensa e dos leitores: é o hoje sexagenário Howard Chaykin (de “Falcão Negro – Ferro e fogo”, “O Sombra: Crime e castigo”) quem desenha uma Nova York estilizada, cheia de racismo e sexismo.

É lá, em solo nova-iorquino, que o quadrinista de 67 anos ambienta a saga de vaidade, traições e heróis de papel protagonizada pelos cartunistas Ted Whitman e Ray Clarke e pela roteirista Benita Heindel, ligados ao sucesso de um personagem chamado Powerhouse. Citações indiretas aos X-Men e a outros ícones superfortes povoam uma trama sobre sexo, rasteiras profissionais e lealdade perdida: é um balanço do lado B da cena editorial dos EUA. Tudo começa em 1967 e vai até os anos 2000.

Macaque in the trees
Divulgação

O êxito de “Hey Kids! Comics!” coincide com uma notícia que deveria arrancar risadas de alegria de Chaykin: o cineasta francês Luc Besson (“O quinto elemento”) vai verter o maior sucesso do quadrinista, “American Flagg!”, em série de TV, a partir da Europa Corp, sua empresa de produção e distribuição. Marco da década de 1980, o gibi está completando 35 anos. Cogita-se que, no seriado, Clive Owen viverá Reuben Flagg, um astro fracassado de TV transformado em agente secreto em uma versão futurista dos EUA, em que a lei foi transformada em negócio.

Como se define como um “realista romântico”, entretanto, Chaykin não quer julgar a transposição de sua obra-prima para a telinha antes de o material estar pronto. Como trabalhou na série do “Flash” dos anos 1990, sabe que a televisão tem códigos que nem sempre são compatíveis com os desejos e os sonhos dos quadrinistas.

Macaque in the trees
Divulgação

Em entrevista por e-mail ao JB, o gênio por trás de cults como “Black kiss” (1988), sobre uma sádica travesti, e “The divided states of hysteria” (2017), faz um balanço da arte dos quadrinhos e avalia a relação deles com Hollywood e com a TV.

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JORNAL DO BRASIL: Qual é a América de “Hey Kids! Comics!”?

HOWARD CHAYKIN: Esse trabalho é uma narrativa ficcional sobre a história dos gibis nos EUA e a gente tem uma indústria que prefere aparências ao que existe de mais caudaloso nas relações.

O mercado dos quadrinhos mudou muito diante da febre de filmes de super-herói?

Eu sou um cinéfilo que vê de tudo e costumava ver uns dois filmes por semana, em circuito, com a minha mulher. Vejo essas adaptações de HQ sem um entusiasmo especial. Gostei de alguns filmes desse filão, não gostei de outros. E, sendo sincero, o dinheiro na indústria do entretenimento hoje não está no cinema, onde eles são feitos, e sim na televisão. E, na TV, o roteirista é encarado como a base de tudo, o que leva alguns escritores de quadrinhos a enxergarem os colaboradores de desenho apenas como um trampolim para o sucesso. Mas o filmes de heróis estão por aí e eu só tenho a certeza de que eles são como os westerns: uma narrativa épica que tende a se esgotar pelo excesso, pela repetição.

Que quadrinhos americanos hoje mais te atraem?

Eu lamento te desapontar, mas eu desisti de ler quadrinhos, pois perdi o interesse nos temas que eles retratam. Eu ainda tenho meus ídolos. Sou fã de Eduardo Risso, David Aja, Leinil Yu, Jose Garcia Lopez e tantos outros que fica até difícil listar. E gosto dos mestres do passado, como Alex Toth, Ferdinand Tacconi, Harvey Kurtzman. Fico envergonhado de não citar brasileiros. Quando estive aí, lembro de ter visto muito material para crianças. O caso é que não leio mais os quadrinhos de hoje.

Mas o que dizer do seu legado? O senhor criou obras seminais, como “Black kiss” e segue fazendo alarde, com “Hey Kids! Comics!”. O que dizer de seu futuro nas HQs?

Eu invisto nos trabalhos que assumo com profissionalismo. Isso não muda. O que deveria mudar é essa história de eu ser “uma lenda viva”. Não chego perto disso. O que acontece é que meus trabalhos mais recentes foram idealizados para a Image Comics, uma editora que investe na independência, o que funciona como um paraíso para quadrinistas autorais.

O que significa ter “American Flagg” adaptado para a TV, como seriado, pelo diretor Luc Besson, nos 35 anos do quadrinho, comemorados num momento em que as séries de televisão estão no apogeu?

Expectativa zero. Não por descrença no projeto, mas por acreditar que ficar especulando sobre adaptações é cultivar ressentimento de véspera, pois a indústria do audiovisual não faz o que a gente quer... ou espera. Vou participar desta empreitada como espectador e nada mais.

Como o senhor avalia hoje o sucesso de Reuben Flagg, seu James Bond?

É curioso lembrar que eu me mudei para Los Angeles, numa certa época, por conta do sucesso de “American Flagg!” e de seu protagonista, Reuben. Ele foi canibalizado entre potenciais projetos e nunca foi filmado. O que mais surpreendeu nas aventuras de Reuben é o fato de ele ser um herói fraturado, nas raias da lama, o que tornava seu universo algo bastante alternativo se comparado com o mainstream dos quadrinhos americanos de seu tempo. Não crio quadrinhos pensando em Bem e Mal, mocinhos e bandidos. Penso em personagens principais e seus antagonistas, sem o tônus moral dos melodramas.

Como o senhor vê os tabus que quebrou com seus quadrinhos?

Eu apenas tento retratar de uma maneira carinhosa experiências que vivi nos tempos pré-Aids, nas décadas de 1960 e 70, entre uma série de excessos.

*Roteirista e crítico de cinema

JORNAL DO BRASIL: Qual é a América de “Hey Kids! Comics!”?HOWARD CHAYKIN: Esse trabalho é uma narrativa ficcional sobre a história dos gibis nos EUA e a gente tem uma indústria que prefere aparências ao que existe de mais caudaloso nas relações.

O mercado dos quadrinhos mudou muito diante da febre de filmes de super-herói?Eu sou um cinéfilo que vê de tudo e costumava ver uns dois filmes por semana, em circuito, com a minha mulher. Vejo essas adaptações de HQ sem um entusiasmo especial. Gostei de alguns filmes desse filão, não gostei de outros. E, sendo sincero, o dinheiro na indústria do entretenimento hoje não está no cinema, onde eles são feitos, e sim na televisão. E, na TV, o roteirista é encarado como a base de tudo, o que leva alguns escritores de quadrinhos a enxergarem os colaboradores de desenho apenas como um trampolim para o sucesso. Mas o filmes de heróis estão por aí e eu só tenho a certeza de que eles são como os westerns: uma narrativa épica que tende a se esgotar pelo excesso, pela repetição.

Que quadrinhos americanos hoje mais te atraem?Eu lamento te desapontar, mas eu desisti de ler quadrinhos, pois perdi o interesse nos temas que eles retratam. Eu ainda tenho meus ídolos. Sou fã de Eduardo Risso, David Aja, Leinil Yu, Jose Garcia Lopez e tantos outros que fica até difícil listar. E gosto dos mestres do passado, como Alex Toth, Ferdinand Tacconi, Harvey Kurtzman. Fico envergonhado de não citar brasileiros. Quando estive aí, lembro de ter visto muito material para crianças. O caso é que não leio mais os quadrinhos de hoje. 

Mas o que dizer do seu legado? O senhor criou obras seminais, como “Black kiss” e segue fazendo alarde, com “Hey Kids! Comics!”. O que dizer de seu futuro nas HQs?Eu invisto nos trabalhos que assumo com profissionalismo. Isso não muda. O que deveria mudar é essa história de eu ser “uma lenda viva”. Não chego perto disso. O que acontece é que meus trabalhos mais recentes foram idealizados para a Image Comics, uma editora que investe na independência, o que funciona como um paraíso para quadrinistas autorais. 

O que significa ter “American Flagg” adaptado para a TV, como seriado, pelo diretor Luc Besson, nos 35 anos do quadrinho, comemorados num momento em que as séries de televisão estão no apogeu?Expectativa zero. Não por descrença no projeto, mas por acreditar que ficar especulando sobre adaptações é cultivar ressentimento de véspera, pois a indústria do audiovisual não faz o que a gente quer... ou espera. Vou participar desta empreitada como espectador e nada mais.   

Como o senhor avalia hoje o sucesso de Reuben Flagg, seu James Bond? É curioso lembrar que eu me mudei para Los Angeles, numa certa época, por conta do sucesso de “American Flagg!” e de seu protagonista, Reuben. Ele foi canibalizado entre potenciais projetos e nunca foi filmado. O que mais surpreendeu nas aventuras de Reuben é o fato de ele ser um herói fraturado, nas raias da lama, o que tornava seu universo algo bastante alternativo se comparado com o mainstream dos quadrinhos americanos de seu tempo. Não crio quadrinhos pensando em Bem e Mal, mocinhos e bandidos. Penso em personagens principais e seus antagonistas, sem o tônus moral dos melodramas.

Como o senhor vê os tabus que quebrou com seus quadrinhos?Eu apenas tento retratar de uma maneira carinhosa experiências que vivi nos tempos pré-Aids, nas décadas de 1960 e 70, entre uma série de excessos.*Roteirista e crítico de cinema



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