Jornal do Brasil

Cultura

Trinta anos após a sua morte, Nico, a cantora que ficou famosa com o Velvet Underground, tem os anos derradeiros contados em filme

Jornal do Brasil ANDRÉ DUCHIADE, andre.duchiade@jb.com.br

“Não me chame assim”, pede a protagonista de “Nico, 1988”, no começo do filme, quando um locutor de rádio a define como “femme fatale”. Utilizada para designar mulheres misteriosas e sedutoras, a expressão francesa, no caso, fazia referência a uma das três canções interpretadas pela alemã no álbum “The Velvet Underground and Nico”, de 1967. Além de marcar a história do rock por introduzir a ideia de uma música pop séria e sombria, o disco consolidou a imagem que Nico carregou por décadas: a de uma mulher bela, fria e, sobretudo, fabricada pela imaginação de Andy Warhol.

Macaque in the trees
A (anti) femme fatale

É exatamente esta concepção que o filme dirigido pela italiana Susanna Nicchiarelli, de 43 anos, que estreia na próxima quinta-feira, quer desfazer. “Nico é mencionada principalmente em associação aos homens famosos com quem dormiu ou em conexão com Andy Warhol e o Velvet Underground. Ela fez, contudo, muito mais coisas nos anos seguintes a essas experiências. Warhol uma vez disse que ela ‘se tornou uma viciada gorda e desapareceu’. Nada poderia ser menos verdade”, afirma Susanna.

Para refundar o mito Nico, a produção adota o que a diretora define como “a distância e a ausência de sentimentalismo dramático necessárias. Conto a história do modo como acredito, ou espero, que ela teria contado”.

Isto significa apresentar uma Nico corpulenta, despojada da beleza clássica, desafinada, irascível, por vezes racista e usuária contumaz de heroína. Corresponde, também, a retratar uma compositora e intérprete frágil, dotada de uma sensibilidade particular, que sofreu incontáveis agressões, e, ao fazer canções, esticou a música popular rumo a direções abstratas, enigmáticas e lúgubres.

Nico nasceu em Colônia, em 1938, com o nome de batismo Christa Päffgen. Aos dois anos, ela se mudou com a família para Spreewald, às margens de Berlim, por conta da guerra. Lá viveu com a mãe e o avô até o fim do conflito.

Após a derrota alemã, a família estabeleceu-se na parte ocidental de Berlim, onde aos, 13 anos, Christa começou a trabalhar como modelo. Dois anos mais tarde, recebeu o nome artístico com o qual se consagrou, um anagrama para “Icon” (ícone).

Em 1959, depois de alguns trabalhos internacionais, fez o primeiro grande papel como atriz, em “A doce vida”, de Fellini. Em 1962, atuou como protagonista no filme francês “Strip-tease”, de Jacques Poitrenaud.

Nico, na época, fascinava e intrigava àqueles ao seu redor. Travou amizade com o guitarrista dos Rolling Stones Brian Jones, com Bob Dylan e com Jim Morrison, entre outros. Em 1962, ela teve um filho com Alain Delon, Ari, que o ator francês não assumiu.

Sua transição definitiva das artes cênicas para o canto veio a partir de Andy Warhol. Segundo a lenda, ela disse ao artista que queria cantar, o que o levou a apresentá-la aos protegidos Lou Reed, John Cale, Sterling Morrison e Maureen Tucker, que formavam a banda The Velvet Underground. No clássico álbum de 1967, frequentemente lembrado como “o disco da banana”, ela canta três músicas: “Femme fatale”, “All tomorrow’s parties” e “I’ll be your mirror”.

Macaque in the trees
A atriz Trine Dyrholm, que interpreta a cantora

Embora hoje consideradas clássicas, as canções foram insuficientes para a permanência de Nico no conjunto. Há relatos de ciúme por parte dos outros membros. Diz-se, também, que a cantora irritava a Reed. Sua surdez parcial, ademais, tornava árdua a tarefa de manter a afinação e levava os demais membros a escarnecê-la. Isso a levou a deixar a banda.

Uma carreira solo sombria

A carreira solo de Nico se divide em dois momentos. O primeiro deles é o álbum “Chelsea Girl” (1967), um disco tradicional de folk, gravado com composições alheias e arranjos amenos com cordas e flautas. Embora inclua algumas de suas canções mais lembradas, a exemplo de “These days” e “The fairest of the seasons”, ela não gostou do resultado.

A partir do sucessor, “The Marble Index”, de 1969, começa sua carreira de compositora. Menos conhecido, muitas vezes nem sequer ouvido, este período corresponde à criação da persona artística que aparece no filme. Cinco álbuns o integram. Os maiores destaques são o supracitado e “Desertshore”, de 1970.

Nico introduziu um estilo de canto declamatório, atmosférico, monocórdico e lento. Sua voz é muito fraca e desesperada para conter melodia ou emoção. Suas letras, enquanto isso, versam sobre traumas da infância, maldições ou loucura. Há um imaginário arcaico, sombrio e gótico, muito antes do termo dar origem a um subgênero do rock, na década de 1980.

Esta obra soturna e carregada, cuja força reside exatamente na fragilidade, foi acompanhada por uma biografia extrema. Nico desenvolveu o vício em heroína. Afastou-se do filho, que cresceu junto aos pais de Alain Delon. Teve um caso com o cineasta francês Philippe Garrel, na época também adicto, que fez com ela filmes que flertam com a insanidade.

Esta história de vida marcada por um comportamento de risco chegou ao fim de modo gratuito há 30 anos, em julho de 1988, quando, em Ibiza com o filho, saiu para andar de bicicleta sem capacete e sofreu uma queda na qual bateu a cabeça. O filme trata dos anos anteriores ao acidente, nos quais, mergulhada nas drogas, com muitas atitudes irritantes e controversas, ela ainda buscou sentido na arte e naqueles que a queriam bem, entre fãs e amigos.

Segundo a diretora Susana Nicchiarelli, sua intenção é retratar Nico de forma crua, em suas qualidades e defeitos. “A música que ela fez era difícil, mas, para alguns, integrou as produções mais interessantes e originais do período. Ela criou um estilo único, combinando pesquisa pessoal com soluções provocativas, experimentais e ironia. Quando a música disco explodia, ela manteve-se compondo obras sombrias e perturbadoras. Apesar disso, muito pouca gente conhece esse período de sua vida”.



Tags: filme

Recomendadas para você