Cinquenta anos atrás

Fevereiro/março de 1963. Com onze anos de idade, saí de casa, Linha Santa Emília, Venâncio Aires, interior do interior do Rio Grande do Sul, para o Seminário Seráfico dos franciscanos em Taquari, RS. Queria ser padre. 

Era uma mudança de vida e tanto. Imaginemos o seguinte. Santa Emília fica a cerca de dez quilômetros do centro da sede do município de Venâncio Aires. Todo mundo só falava alemão (como muitos ainda hoje; eu com minha mãe, por exemplo). Aprendi a falar português quando fui para a escola. Aprendi a ler e escrever com tia Leonida, ela sentada no chão do galpão, sortindo as folhas de fumo e escrevendo letras, sílabas e palavras com carvão nas paredes do galpão. Quando cheguei na Escola São Luiz, com 6 anos, sabia ler e escrever (Tia Nida, como a chamávamos, lia muito, principalmente romances, o Paulus Blatt, revista dos jesuítas que existe até hoje, e a Bíblia, tudo em alemão). 

Não lembro, mas antes de chegar no Seminário, nunca tinha pisado numa cidade. Então, mal havia um ônibus dos meus tios, que circulava nas estradas poeirentas. O mundo era Santa Emília: escola, igreja, campo de futebol do meu tio e padrinho Antônio, algumas festas como as de Kerb e de vez em quando ordenação de algum padre. O resto era trabalhar na roça, cuidar de bois, galinhas e porcos, tirar leite das vacas, cuidar do forno de fumo toda madrugada para não apagar a fornalha que curtia as folhas de tabaco, brincar com os irmãos que nasciam quase um a cada ano. 

Chegar no Seminário com onze anos, verde e virgem, novo mundo, mais de cem pré-adolescentes, adolescentes e jovens morando num casarão de três andares, era quase um espanto. E estudar de manhã, tarde e noite, jogar futebol de vez em quando, trabalhar na horta, rezar bastante com missa todos os dias. Aprendi, definitivamente, a falar português. Devorava todos os livros da biblioteca, especialmente os romances de Karl May e frei Romano Zago, professor de português, ia corrigindo as pronúncias erradas decorrentes do alemão, especialmente o erre ou os dois erres, as trocas do d pelo t, do b pelo p e vice- versa . Os pais vinham de visita pelo mês de maio, na Festa dos Pais. Férias muito aguardadas só em julho e no final do ano. Assim foi a vida de guri e jovem, de 1963 até o final de 1969, quando terminei o segundo grau. 

Fui para o mundo a partir de 1971, quando, já frade franciscano, fui morar na Vila Franciscana, uma casa na Rua Frei Germano, bairro Partenon, Porto Alegre, perto da PUC/RS. E comecei a cursar filosofia no Seminário Maior de Viamão, sendo um dos meus professores mais importantes o hoje cardeal dom Cláudio Hummes. 

Mas foi o seminário dos franciscanos de Taquari que moldou a maior parte da minha vida, minha visão de mundo, meus valores, a ideia do Reino e do Evangelho na ótica de Francisco de Assis. E a vida com os franciscanos, nos anos 1970, parte na comunidade da Vila Franciscana, outra em comunidade na Vila São Pedro, Lomba do Pinheiro, entre Porto Alegre e Viamão, moldou o desejo de mudar o mundo, de perseguir sempre a utopia da transformação econômica, social, política e cultural, de sempre olhar em primeiro lugar os ofendidos e humilhados, os perseguidos e rejeitados, os sem vez e sem voz.  

Cinquenta anos depois, Brasília, no centro do poder. O guri da Santa Emília, que saiu de casa aos onze anos de idade, nunca mais voltou. Ou melhor, vem voltando aos poucos, marcando presença na comunidade de Santa Emília, na política e na imprensa de Venâncio Aires. Uma mudança e tanto, na vida e história pessoal, nas relações, no mundo. Ao mesmo tempo, parece que a pequena comunidade da hoje Vila Santa Emília, onde todos ainda se  conhecem, onde se fala alemão até hoje, onde ainda grande parte do centro da vida é feito ao redor do campo de futebol ou do ginásio de esportes e diversão, da igreja e dos grupos de famílias, das festas comunitárias, dos encontros  com parentes, da agricultura familiar, da Escola São Luiz, continua no centro do coração. Assim os franciscanos, que abandonei formalmente no início dos anos 1980, seguem entranhados na alma e na mente, quase como uma segunda família (Toda vez que encontro um frade conhecido ou me correspondo via internet termino com um Paz e Bem, que reforça os laços e os compromissos de vida.). 

O tempo passa, e como!

* Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República.