Exposição em Nova York busca nova abordagem para o 11/9

Logo na abertura de "11 de Setembro", a exposição inaugurada nenste domingo no braço do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) dedicado à arte contemporânea, o P.S.1, o curador Peter Eleey lembrou que nenhuma tragédia teve tantas testemunhas quanto os ataques às Torres Gêmeas, uma década atrás. A trivialização das imagens relacionadas ao assalto terrorista a Manhattan levou Eleey a elaborar uma mostra impressionante, emocionante, com um quê de clarividência, sem apresentar obras relacionadas diretamente ao dia infame, com uma única e importante exceção.

Como o P.S. 1 fica no Queens, do outro lado do East River, o impacto foi especialmente forte para os que decidiram encarar os corredores e salas do segundo andar do museu na abertura de "11 de Setembro", vindos da cerimônia-tributo às quase 3 mil vítimas da ação terrorista, ou mesmo após uma manhã grudados no aparelho de TV, observando do outro lado da tela os discursos de Barack Obama e George W. Bush ao lado do cenário ainda de terra arrasada do Marco Zero. A tal exceção da mostra é a obra "Marco Zero", de Ellsworth Kelly, produzida em 2003, e hoje na coleção permanente do museu Whitney. O artista americano imagina um imenso gramado verde, uma espécie de Central Park no sul da ilha, cobrindo toda a área antes ocupada pelas torres do World Trade Center (WTC).

Um dos trunfos da exposição, que se destaca entre os eventos relacionados aos 10 anos da ação da Al-Qaeda, é o de ser, como pontua a crítica Roberta Smith, do New York Times, mais focada em arte do que em documentação. A maioria dos 68 trabalhos apresentados foram produzidos antes de 2001. "Se todas as outras mostras relacionadas ao tema na cidade nos fazem encarar a morte, '11 de Setembro' apresenta a tragédia como um dos inevitáveis tópicos da arte, mesmo quando não percebemos esta relação", diz Smith.

E nem só de imagens vive "11 de Setembro". O curador pinçou um texto do mais nova-iorquino dos cronistas, E.B.White, de 1948, que encara o visitante já na primeira parede do segundo andar: "Nova York é um convite à mortalidade, no som dos aviões sobre nossas cabeças e nas manchetes impressas em cor negra na última edição de nossos diários". Vira-se um corredor e surgem as placas vitorianas de cerâmica fotografadas por Susan Hiller em um parque de East London, reproduzidas com um banquinho de madeira em uma das mais tocantes instalações da mostra. Os nomes são de cidadãos de Londres que morreram, no século XIX, tentando salvar vidas humanas. "Fiquei emocionado e não pude deixar de pensar nos bombeiros, policiais e voluntários que perderam sua vida há dez anos, tentando salvar pessoas que eles nem conheciam, presas nas Torres Gêmeas", lamentava Mark Williams, 42 anos, do Arizona, em visita à cidade por conta do tributo às vítimas de 2001.

A sala mais forte de "11 de Setembro" é a que inclui uma instalação do britânico Roger Hiorns, formada por um pó cinza, com tons pretos, que ocupa todo o chão de uma galeria. Uma das assistentes que anda pela mostra com os visitantes explica que se trata dos resíduos de um motor de um avião. O silêncio, imediatamente, toma conta do ambiente. A próxima sala à direita traz outra surpresa incômoda: a bandeira tricolor, recriada pela conceitualista americana Bárbara Kruger em que estrelas e a oposição do azul, branco e vermelho surgem em meio a provocações como a pergunta, direta, doída, direcionada a cristãos, muçulmanos, ateus e afins: "Quem reza mais alto?".

Ande mais uma sala e a "Missão Cumprida" de George W. Bush aparece em letras garrafais, no momento mais documental da mostra. Jeremy Deller reproduziu o cartaz que ilustrou o discurso de vitória do presidente republicano em 2003, no porta-aviões Abraham Lincoln, quando da queda de Saddam Houssein. Mas a ala favorita dos visitantes da exposição do "11 de Setembr"o no dia 11 de Setembro foi a que apresentava o curta "Pequenas Bandeiras", dirigido por Jem Cohen em 1991, um retrato enviesado de uma parada de saudação aos soldados americanos vitoriosos na primeira Guerra do Golfo que aconteceu justamente nos arredores do WTC. A imagem em preto e branco das Torres Gêmeas e das ruas estreitas do centro antigo da cidade cobertas de papel remeteram às cinzas daquela manhã de 2001.

Uma década antes do ataque terrorista, o império apresentava suas armas, enquanto o povo sorria, feliz, em êxtase. Subitamente, um trio de jovens brancos desfila para a câmera com camisetas com os dizeres "Vá a m...Saddam!". Na platéia do P.S. 1, uma década depois da tragédia, a nova-iorquina Martha Gregory solta um gemido de desgosto. E sai da sala. "Não consigo ver isso impunemente. Não hoje".

"11 de Setembro", a exposição, que fica em cartaz até janeiro no PS1 MoMA, consegue ser quase tão intensa quanto 11 de Setembro, o dia. Que parece não acabar nunca.