Jornal do Brasil

Domingo, 26 de Outubro de 2014

Trânsito

Quem não se comunica...

Celso Franco

Quando, em 1967, fui honrado com a confiança do governador Negrão de Lima, ao convidar-me para o desafio de assumir o Detran GB, recebi dele a recomendação, assim que começamos a resolver os “gargalos” que existiam, que comparecesse à televisão, divulgando o que planejávamos e explicando o que ainda não podíamos resolver, dizendo porquê.

Para cumprir tal tarefa convidamos para o setor de comunicação e divulgação um jornalista de alto nível, da recém-nascida TV Globo, apresentador do jornal de notícias da noite, horário nobre, portanto, Jorge Sampaio, da equipe de Ibrahim Sued, então no auge de sua fama.

Como este último odiava o meu brilhante antecessor, no Governo Lacerda, o coronel Fontenelle, com quem tivera alguns entreveros, passou a me chamar de “O cientista do trânsito”, para irritá-lo, uma vez que estávamos aplicando os princípios de urbanismo e a mais pura engenharia de tráfego, com a estreita cooperação do Clube de Engenharia e o Instituto dos Arquitetos do Brasil

Felizmente era um governo de equipe, sem invejas do sucesso de quem o tivesse no seu setor e, graças à liderança tranquila e sem ódios do governador, ele ainda contava com a sorte de ter sete colegas de colégio em seu primeiro escalão. Colegas de colégio discutem, se xingam, mas não brigam nunca. Setores onde mais deveria haver choques era ocupado por nós sete, ex alunos Maristas, educados no destemor aos homens e no temor a Deus, sempre presente em nossas salas de aula no cartaz  “DEUS ME VÊ”.

Todos os dias havia uma notícia do trânsito no jornal da TV Globo e, também, da líder de audiência, a TV Tupi. O governador chegou a me dizer, numa conversa informal, que a sua imagem havia melhorado graças ao Detran. Acrescemos ao conhecido tripé de sustentação do trânsito, engenharia, policiamento e educação, outra perna, a comunicação, que tornaria a base mais sólida.

Criamos uma audiência diária com os repórteres, acreditados junto ao Detran, na sua maioria “focas”, a quem distribuíamos matéria e fotos, feitas pela nossa equipe e reveladas no nosso laboratório.

Chegamos ao ponto, dois anos após estarmos no governo, de termos um programa diário, na TV Tupi, às 12 horas, de apenas quinze minutos, graças ao patrocínio do Touring Clube. Como era espremido entre uma novela de grande audiência e um programa também muito visto, conseguimos excelente público. Para honra minha, era visto pelo presidente Costa e Silva, quando estava no Rio, segundo me confidenciou sua já então viúva, Dona Yolanda Quem o apresentava era eu, que começara minha carreira de jornalista um ano antes, escrevendo semanalmente aqui no JB, em 1968.

Tudo isto que aqui recordei foi para alertar e, até cooperar, com a jovem administração do trânsito de prefeitura, hoje tão criticada, mercê do que se vê  e se sente nas ruas.

Na função da direção do trânsito, de qualquer cidade, não podemos nos comportar como aqueles três macaquinhos que não falam, não veem e não escutam, até porque não é verdade. Quem está no poder ouve vê e, embora não fale, sofre, e como, estendido este sofrimento aos seus familiares.

A imprensa cumpre o seu papel de “pichar”, como se diz na nossa gíria e, se nada acontece em reposta a estas críticas, elas irão crescendo até por irritação da falta do efeito que é, em última análise, o seu propósito.

Podem acreditar que é muito mais prazeroso, para a imprensa, elogiar e ajudar a construir, esperando apenas atenção ou, melhor dizendo, humildade de quem detém o poder transitório e fugaz.

Já é tempo de a administração do trânsito municipal vir a público, desabafar as suas dificuldades, mostrar que conhece os problemas e que busca as soluções, muitas das vezes complexas e até impossíveis, por ter de contrariar interesses poderosos.

E concluindo, mais uma vez cito o governador Negrão de Lima, que do alto de sua sabedoria política e de vida, sempre nos dizia: “O importante na vida pública não é ser, é ter sido, com aquilo que se leva, como conceito, perante a tirania da opinião pública.”

Tags: Celso, coluna, franco, jb texto, Trânsito

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