Jornal do Brasil

Sexta-feira, 31 de Outubro de 2014

Trânsito

As lições a tirar dos nossos erros

Celso Franco

Acabou a Copa do Mundo, onde venceu o melhor, contrariando o chavão de que no futebol não há lógica. Tal chavão não admite ignorância, atraso e falta de atualização no que se deve fazer. A mim, que devo aqui tratar de trânsito urbano, cada vez mais importante face ao fenômeno mundial da migração para as cidades, devo aproveitar a reação ao fracasso futebolístico, ao que se passa na direção do trânsito nas duas maiores cidades do país.

Não que se deva mudar as comissões técnicas que dirigem o nosso trânsito, que de nada adiantaria. É preciso atualizar a técnica. A nossa soberba, em qualquer setor de atividade humana, nos faz achamos que somos os maiorais, haja vista o refrão musical de primeira Copa por nós conquistada, onde existia o verso: “Com o brasileiro não há quem possa”.

O refrão do momento, válido para nós e os nossos hermanos, tão ou mais convencidos do que nós, é o da canção mexicana, dramática como suas novelas , quando diz: Señor tabernero sirva-me outra “copa” que yo quiero olvidar...

Vamos pois, esquecer o que já passou e, se me permitem, alertar aos atuais membros das comissões técnicas que dirigem o trânsito caótico das duas nossas maiores megalópoles.

A história é antiga. Em 1953, a pedido do governo brasileiro à ONU, compareceram ao Rio, para um estudo técnico sobre o nosso trânsito, dois técnicos ingleses, Mr R.L. Moore e Mr. George Charlesworth. Produziram minucioso relatório abordando todas nossas mazelas e recomendavam como corrigi-las. Tive acesso a este magnífico trabalho, graças à minha amizade com meu saudoso amigo Dr Hélio Cypriano. Escrevi uma séria de artigos sobre este trabalho, em 1968, já no JB, que o meu amigo Hélio teve a gentileza de verter para o inglês, e encaminhá-los ao Mr Charlesworth, de cuja amizade fez juz até o fim da vida do técnico inglês. Para minha surpresa recebi gentil carta, datada de 18 de novembro de 1968, do já então presidente do famoso Road Researgh Laboratory, sediado nos arredores de Londres, sendo também a segunda pessoa do Ministério do Transporte Britânico, com o seguinte final: “It is very gratifyng to now that even at this late time you have found the report relevant and of interest” (é muito gratificante conhecer que, após tanto tempo, você tenha achado o relatório relevante e de interesse).

Fiquei profundamente chocado e envergonhado de que, até aquela data, ninguém houvesse se manifestado a este respeito àquela autoridade internacional.

O mesmo ocorre hoje com os chefes das comissões técnicas dos trânsitos que são todos os dias goleados pela falta de mobilidade urbana. Já escrevi, em outro veículo da mídia, que não sabem definir o que é a mobilidade urbana no entendimento deles. Não enxergam o problema e , “ipso facto”, com maior razão, muito menos a solução, que é de uma lógica ululante.

O excesso de carros transportando somente o seu condutor nas horas de pico, cerca de 96% do volume circulante, numa malha viária insuficiente, saturada. Como em qualquer caso de fornecimento crítico, o racionamento é a solução imediata, até que se tenha  a solução definitiva que, no caso da mobilidade, com eu a entendo, é complexa, cara e de longo prazo.

Descobriram como solução o uso do BRT, enquanto não chega o metrô. Quantos usuários do BRT são possuidores de carro e o trocaram por este novo meio de transporte?

Desafio que façam uma pesquisa que, de certo, o seu resultado irá condenar este transporte como capaz de retirar carros das vias.

A solução, da qual os governantes fogem como o diabo da cruz, é o uso racionado das vias, de modo inteligente e socialmente justo, na medida em que retira de 50 a 80% dos carros das vias,nas horas de pico, e ainda subsidia o transporte público,  previsto do sistema URV.

Muito antes disso, o controle do escoamento do tráfego com “sinais burros”, de tempo fixo, comprometendo o rendimento da malha viária, é dos fatores mais importante para se otimizar o escoamento existente. Ainda, por incrível que pareça, não adotamos os sistemas computadorizados, funcionado auto comandados pelas necessidades do tráfego, acompanhando  seu perfil, com um atraso de apenas cinco segundos, ou seja, desprezível.

Não utilizamos a “onda verde” capaz de tirar o máximo rendimento da capacidade das vias principais, além de condicionar o motorista a andar na velocidade mais eficaz para o aproveitamento da capacidade viária à sua disposição.

Como exemplo, na Avenida das Américas, caso funcionasse com os seus semáforos, acionados por “onda verde” seria possível ao grupamento de carros que trafegasse surfando na crista da onda verde, atravessá-la sem parar e ainda aumentando a capacidade de escoamento dos retornos.

Eu poderia , a exemplo de Chalesworth, continuar a enumerar as mazelas, algumas fruto de interesses políticos e financeiros, mas de nada adiantaria. Ninguém quer ter a humildade de reconhecer o seu despreparo atualizado e, muito menos, reconhecer o que está errado.

Estão, plagiando o Felipão: Consideram o seu trabalho bem feito. 

E agora? Infelizmente, no trânsito não existe o hiato de quatro anos, como nas Copas. É no dia a dia do nosso sofrimento. Vamos continuar a sofrer uma goleada diária: no nosso suposto direito de ir e vir, em tempo tolerável e possível de ser previsto, ou seja, termos um orçamento de tempo, para os nossos deslocamentos.

Até quando iremos conviver com esta alta inflação de tempo, pior do que a monetária?

Tags: Artigo, Celso, franco, JB, Trânsito

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