Jornal do Brasil

Sábado, 25 de Outubro de 2014

Trânsito

Entschuldigung 

Celso Franco

Esta foi a palavra, que significa desculpe, mais usada pelos excelentes jogadores da seleção alemã, após a aula de futebol que deram na seleção brasileira, no último dia 8 do corrente. Embora esta coluna seja sobre trânsito, não pude resistir de, pelo menos, registrar esta, para a maioria do povo brasileiro, catástrofe. Para mim não foi. Foi a realidade de um confronto entre uma seleção bem preparada, que encara o futebol como esporte, competição, não como defendendo a honra da pátria. A mídia tem uma enorme parcela de responsabilidade neste infausto resultado, pelo clima e “oba oba” e de endeusamento  que conseguiram criar em torno de uma equipe, apenas regular, se comparada a outras seleções, já formadas pelo Brasil. Agora, em vez de “chorar sobre o leite derramado”, é preciso ter a humildade de reconhecer o nosso atraso, em tudo, em relação ao que se faz na Europa, no popular e apaixonante esporte bretão.

Para não fugir ao tema da coluna, devo aqui comentar o que publicou a famosa revista francesa: France Futebol, em matéria de dose páginas, analisando as mazelas que se iria encontrar no Brasil, durante a Copa, todas terríveis e, infelizmente verdadeiras.

Felizmente, a maioria destas mazelas foi superada pelo comportamento do excelente e sofrido povo brasileiro, enaltecido, pelas palavras do jogador alemão, nascido na Polônia, Lukas Podolski, em mensagem, em português, para o nosso povo.

Mas, voltando às críticas da revista francesa, no assunto transporte, desanca a não construção da ligação Rio- São Paulo, por trem-bala, apesar da imensa verba votada para tal obra.

Considera o serviço de ônibus complicado e ineficaz. O metrô que não atende aos aeroportos e só atende a 10% da necessidade da população e o fato de que aos taxistas não foi ensinado o idioma inglês, enquanto o foi às prostitutas. Consideram o aluguel de carros caríssimo, quase inútil, face a falta de mobilidade urbana. E, finalmente, como apoteose final, o perigo que é confiar nas travessias de pedestres, nas faixas, que não protegem ninguém, pode-se ser atropelado e o motorista irá fugir, sem lhe prestar socorro.

Ter e merecer este conceito é que é, para mim, uma tragédia, da qual são protagonistas e responsáveis os governantes e os legisladores eleitos por nós, graças á carência conveniente da cultura e da educação.

Voltando ao comportamento elegante, educado e esportivo, da seleção alemã, que se isolou, onde o Brasil começou, devo lhes dizer que não me surpreendeu absolutamente. Convivi com o nobre povo alemão, por diversas ocasiões e, fui até incentivado a conhecer um pouco da sua bela língua, no meu interesse de conhecer os segredos do trânsito urbano, em que também são mestres. Tenho como preciosa lembrança um relógio cronômetro de pulso, a mim presenteado, quando estagiário na Alemanha, com quatro colegas do Detran de Buenos Ayres, a convite da Siemens, em 1969, que me foi ofertado com a seguinte observação: “Para você cronometrar as partidas de futebol, esporte que tanto aprecia e seus congestionamentos.” 

Também compareci, com vários colegas brasileiros e de mais oito países do Terceiro Mundo, como nós, a um magnífico seminário, em Berlim, por quinze dias, sobre o tema:O trânsito nos conglomerados urbanos, em 1977. Deste último conclave, guardo até hoje, a mágoa de ninguém haver nos ouvido, quando regressamos, pois já teriam sido eliminadas, de maneira socialmente justa, todas as favelas que hoje nos afligem como refugio de traficantes, num processo inteligente e, repito, socialmente justo,  previsto para um prazo de trinta anos. Isto foi em 1977 e hoje estamos em 2014, e tudo comprova no tema de controle da migração urbana, quando o professor conferencista nos alertou: “Se nada mudar em termos sociais, nos países de onde os senhores são originários, até a primeira década do próximo século, mais de 50% da população urbana,de suas grandes cidades, estará ocupando sub habitações”

“Eintsculdidung”,mas estes fatos sim, me provocam tristeza e considero desgraça, não uma derrota de uma seleção de futebol, composta e treinada por pessoas milionárias, de um país que trocou a melhoria da saúde e do ensino públicos por super estádios, em exigência do padrão Fifa.

Não sei, quando escrevo esta matéria, quem será nesta segunda-feira, de sua publicação, o novo campeão do mundo. Por ser torcedor do Flamengo irei torcer e, anda por gratidão, pelo rubro negro europeu: Sieg Heil, Deutchland!!

Tags: Celso, coluna, franco, JB, texto, Trânsito

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