Jornal do Brasil

Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2014

Trânsito

'Estão conversando', enquanto prossegue o massacre rodoviário

Celso Franco

Dentre as inúmeras oportunidades felizes de minha vida, sempre destaco o período em que, recém chegado da Holanda, recém promovido a Capitão de Corveta, passando a merecer o titulo de Comandante, fui designado para o cargo de Capitão dos Portos do Estado da Paraíba. Assumi em 10 de novembro de 1960 e fui exonerado em março de 1962. Foi um período bastante conturbado da vida brasileira, quando tivemos quatro presidentes: Juscelino que passou ao Jânio, que renunciou, assumindo Raniere Mazilli, até que, finalmente, assumiu o vice presidente eleito João Goulart, com a mudança do regime de presidencialista da parlamentarista. Apesar de tudo o que passei, com a responsabilidade do único comando naval naquele Estado, foi um dos melhores períodos de minha vida, até porque, trouxe de lá um inesquecível e precioso souvenir, meu primeiro filho homem, um paraibano, portanto.

Dentre as inúmeras lições de vida que lá pude aprender, no contato estreito com um dos brasileiros mais cultos e politizados, no convívio com a elite local, os grandes políticos locais e o humilde pescador de jangada, além dos sindicatos do trabalho no porto, guardei, como preciosa relíquia, a gíria local. É única e de supina inteligência, que se estende por todo o nosso maravilhoso nordeste. O título deste artigo, que pretende alertar os leitores para a pouca ação efetiva dos responsáveis pela segurança do nosso trânsito, principalmente o rodoviário, é uma das gírias locais. Quando alguém está rodeando um assunto, “enchendo linguiça”, sem chegar a nada, realmente objetivo, vem a observação ao enganador: “Estás conversando...”

Pois é exatamente o que está ocorrendo no combate à insegurança do trânsito rodoviário, repito, principalmente, muito piorado depois da remoção do DNER para Brasília, que até mudou de nome, provocando a aposentadoria de uma excepcional plêiade de engenheiros de tráfego rodoviário. A outra causa, bem mais grave, foi a transferência da Polícia Rodoviária da subordinação do DNER, para o Ministério da Justiça. Se trânsito seguro é engenharia policiada, separá-los foi um crime, cujo  resultado as estatísticas estão ai para provar.

Motivou-me a escrever, revoltado, este artigo, um filme que recebi, pela Internet, que mostra durante uma seção de cinema, num pais do extremo oriente,a inserção de um filme, apresentado um fato real, montado, em que filmado de dentro do carro, acontece uma colisão fatal, por haver o motorista atendido ao telefone celular. Encerra com a mensagem, que serve para o Brasil: “A maior causa de acidentes é o uso do celular na direção”. Se não sabem, fiquem sabendo, é, hoje, maior do que a ingestão de bebida alcoólica. 

Criaram uma lei seca, que atua de maneira incorreta na sua fiscalização, dando ênfase ao nível de álcool, sem testar a habilidade do controle do carro, quer para seleção, quer para o teste do selecionado, causando uma enxurrada de processos de recursos, que “afogam” as JARIS do DETRAN, atualmente com cerca de 40 mil processos em julgamento ou para se julgar.

Não vejo, no caso da aplicação da lei seca, nenhuma medida educacional aos punidos, como reciclagem com palestras e filmes demonstrando acidentes reais, fruto da ingestão alcoólica, facilmente importados de países onde os responsáveis não estão “conversando” .

Está muito claro no manual de liderança, utilizado na Academia Naval de Anápolis, da Marinha dos Estados Unidos:  “Não basta punir ou premiar, é preciso, principalmente orientar, educar”.

As campanhas esporádicas são de um amadorismo gritante. Não se delega este tipo de campanha a publicitários sem a orientação do especialista. Já temos, felizmente, a medicina de trânsito, com excelentes profissionais. A eles cabe orientar uma campanha séria e eficaz e contínua para ser válida, apresentado estatísticas regularmente, da evolução ou involução dos efeitos da campanha.

Para ilustrar e justificar a minha revolta pelo nosso primarismo vou lhes listar algumas das publicações do maior centro de pesquisas de trânsito do mundo, o ROAD RESEARCH LABORATORY, situado em Crowtorne, Berkshire, nos arredores de Londres.

São elas:

>> Research for a road safety campain. Accident studies for adverstising formulation

(Pesquisa para uma campanha de segurança rodoviária. Estudo de acidentes visando estratégia de propaganda). A mais aconselhável é a que mostre fatos reais chocantes dos acidentes.

>> Age group and accident rate-Driving behaviour and attitudes.

(Grupos por idade e a sua razão de variação nos acidentes. Procedimento dos motoristas e suas atitudes)

>> Alcohol and road accidents.

(O álcool e os acidente rodoviários.)

>> Medical factors and road accidents.

(Os fatores médicos e os acidentes rodoviários)

Todas estas publicações foram editadas entre os anos de 1966 e 68

Baseado nelas já escrevi muita coisa e apresentei, a quem de direito, sugestões para campanhas realmente eficazes sujeitas a uma avaliação mensal. Nada foi feito nem, em alguns casos, tive retorno.

Se houver interesse do governo federal, será muito fácil conseguir um estágio, naquele verdadeiro “santuário” Eu o consegui, apenas como diretor do Detran GB, solicitando ao consulado britânico aqui no Rio. Evidentemente as despesas foram minhas, apenas lá tive um carro à minha disposição, com motorista e uma guia. 

Até quando continuarão impunemente assistindo a este holocausto rodoviário?

Quando terei desmentida a minha declaração, após apenas seis meses do exercício do cargo de diretor do Detran GB: “O grande mal é que é muito difícil se fazer trânsito com política e, desgraçadamente, é muito fácil fazer política com o trânsito”.

Com a palavra os que têm a obrigação moral de me desmentir e, deixem de estar conversando.

Tags: Artigo, coluna, JB, texto, Trânsito

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