Jornal do Brasil

Domingo, 26 de Outubro de 2014

Trânsito

O dia em que senti vergonha

Celso Franco

Desde que passei a não ter mais um carro, pela sua inutilidade no ir e vir para o Centro, face ao baixíssimo rendimento da nossa malha viária, quando semanalmente, sou obrigado a fazer este trajeto, passei a utilizar o nosso excelente serviço de táxis e o não menos eficaz transporte sobre trilhos, o metrô.

Viajo em táxi executivo, que me presta serviço há muitos anos, do Jardim Oceânico, na Barra, onde resido, até a Praça General Osório, onde pego o metrô.

Outro dia, faz um mês no máximo, enquanto esperava a chegada do trem, fui abordado por um senhor, mais moço do que eu talvez uns 20 anos, bem trajado, de terno e gravata, e educadamente, me disse: “Que boa surpresa ver o senhor utilizando o metrô!”

Surpreso, respondi que houvesse este transporte direto da Barra, não usaria o carro particular para outro fim a não ser para o qual foi destinado, para o lazer, segundo o homem que o popularizou, Henry Ford.

Em seguida perguntou-me se eu não era amigo do general Leônidas Pires Gonçalves, ex-ministro do Exército, no governo Sarney.

Sim, de muitos anos, somos bons amigos e colegas de ideais. Somos da mesma geração, de militares, respondi.

E neste ponto, o meu gentil interlocutor se fez identificar: “Eu lhe fui apresentado por ele quando o encontrei, certa feita, em sua companhia, no centro da cidade. Eu sou o pai do prefeito.”

A partir deste ponto estabeleceu-se entre nós agradável conversação até o destino final dele, a Estação Carioca. Aproveitando a feliz coincidência, e a atitude gentil e até humilde do meu já agora companheiro de viagem, queixei-me de que havia solicitado uma audiência a seu filho, afim de lhe levar, pessoalmente, a minha sugestão da utilização racionada das vias, o URV, uma vez que já o havia feito aos secretários de Transporte sem nenhuma resposta, nem a favor, nem contra. E acrescentei que esperava uma  resposta há mais de um mês.

Adiantou-me que, embora não se intrometesse na vida pública de seu filho, prometeu me ajudar neste propósito.

Ao chegar ao meu destino, o Detran, onde presido uma JARI, relatei aos meus pares a feliz coincidência e a minha esperança de poder, finalmente, levar a minha cooperação ao prefeito, em quem votei.

Infelizmente, até o momento em que escrevo este artigo, nada mais me disse nem lhe foi perguntado. Continuo esperando o que não vai acontecer, para a infelicidade do carioca, que poderia ter o seu caótico trânsito melhorado a padrões toleráveis, para não dizer, civilizados.

No meu caminho de volta das reuniões no Detran, dias depois, em que a pauta de julgamentos era pesada, só pude regressar cerca das 17 horas, o que, infelizmente, já marcava o início do tráfego do pico vespertino.

Saltei, como sempre faço, na Estação Cantagalo, ali na Praça Eugênio Jardim, face à imensa facilidade que ali se tem de se pegar um táxi. Ao fazê-lo, sugeri ao motorista que evitasse a Lagoa, por ser uma das rotas de acesso ao Túnel Rebouças, a maior estação geradora de tráfego sul-norte, àquela hora.

Assim sendo seguimos pela via litorânea e, ao chegarmos à entrada da Avenida Niemeyer, aconteceu a infeliz coincidência de emparelharmos, durante uns cinco minutos, com um ônibus super lotado, com mais de 40 passageiros em pé, espremidos como gado ou como judeus nos vagões de destino aos campos de extermínio, durante o terror nazista, que hoje envergonha o mundo e, principalmente, o civilizado e culto povo alemão.

O olhar daquelas pessoas, cidadãos cariocas como eu, para dentro do meu táxi, onde eu viajava confortavelmente, fizeram-me sentir envergonhado pelo meu privilégio.

Eles não sabiam que, como só vou ao centro uma vez por semana, posso me permitir a este conforto, que eu o tenho de maneira até econômica, dividindo a viagem entre o transporte público e o privado.

O que eles também não sabiam é que eu luto, desde 2006, para lhes melhorar a vida, dando-lhes uma mobilidade urbana com uma solução simples e socialmente justa, da qual os políticos que nos governam, na área municipal, fogem como o diabo da cruz.

Anima-me, e “a esperança é a última que morre”, a iniciativa de jovens estudantes da PUC, em adotarem o que proponho, da utilização racionada das vias, cotizando-se para o transporte solidário, ou seja, fazendo, como se dizia no meu tempo de jovem, uma “vaquinha” entre eles na utilização do carro como meio de transporte.

Como sempre as iniciativas sinceras partem dos jovens, ainda não corrompidos pelo jogo de interesses aprendidos na escola da vida, onde não se tem férias. Estou sem saber conseguindo um aliado invicto. Jamais os jovens foram derrotados em seus movimentos.

A minha geração, com manifestações patrióticas nos anos 40, levou o Brasil a entrar na guerra sabendo que seriamos, como fomos, nós os sacrificados, nas frentes de batalha.

Já que não me ouvem nas altas esferas, vou tentar, e terei sucesso, fazer palestras aos jovens estudantes, começando pelos da PUC, afim de lhes dar conhecimento do que é o URV e, de certa forma, tentar recuperar-me da vergonha que passei.

Tags: Celso, coluna, franco, JB, Trânsito

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