Jornal do Brasil

Segunda-feira, 1 de Setembro de 2014

Trânsito

Insuportável

Celso Franco

Não é mais possível para nós, pagadores de IPVA, aturarmos mais de duas horas e meia, no pique vespertino, para viajarmos do Centro até a Barra da Tijuca, cujo IPTU merece ser respeitado, por quem foi eleito para isto. Se a Barra cresceu, na contramão do que se aprende em urbanismo, não atendendo ao avanço do transporte de massa, a culpa não é nossa.

O grande indutor do progresso da Barra, não só em ocupação mas, como polo de atração de lazer, graças aos seus shoppings, foi o avanço da nossa indústria automobilística que, mui facilmente, passa de instrumento de progresso para produtora do inimigo público número um, o automóvel.

Vejo, com tristeza, a notícia de que vão duplicar as pistas de São Conrado, a fim de melhorar o escoamento no local. Por quanto tempo acontecerá este “alívio’ ilusório? Afinal, o Rio emplaca 60 mil veículos por ano e, creio eu, cerca de 80% estarão de posse dos habitantes da Barra e do Recreio.

Diariamente vejo, num jornal televisivo, vespertino, horrorizado e revoltado, o tempo que se está levando para percorrer os 36 km da Barra ao Centro, o que nos dá um rendimento das vias em que se trafega, menor do que 10%.

Neste ponto, estamos disputando com a reserva de água de São Paulo, em ambos os casos, fruto da inação governamental.

Sinto-me como aquele ex-jogador de futebol que vai assistir ao jogo do seu ex-­time e se desespera pela mediocridade do que vê em campo. O aumento de automóveis, irreversível e necessário para a economia nacional, pode e deve ser equacionado, da mesma maneira como tenta se controlar a falta d´água e o consumo de energia, perto do limite do fornecimento: pelo racionamento.

Se não temos espaço para o volume de carros, por falta da opção do transporte, enquanto esta não chega, por que, não se racionar o uso das vias disponíveis, que estão abaixo do mínimo necessário?

Na edição de 17 de abril da prestigiada revista “The Economist” está enfocada a baixa produção do trabalhador no Brasil, face à indolência que o clima e as facilidades da natureza nos proporcionam. Está lá escrito, com todas as letras, a opinião do Sr Regis Bonelli, da Fundação Getúlio Vargas: “Grandes retenções, congestionamentos de tráfego, perda de horas de encontro, para compromissos sérios e, outros atrasos são duradouros, por tanto tempo, que os brasileiros se tornaram anestesiados a estas dificuldades da vida urbana”.

Não é desculpa ou explicação para mim, um Dom Quixote, na luta pela valorização da nossa engenharia de tráfego.

O sistema URV, (Utilização Racionada das Vias) é a única solução, em curto prazo, para resolver este problema insuportável e estressante que a nós, residentes na Barra e Recreio, aflige. Onde hoje o espaço de um carro transporta um passageiro (cerca de 96% dos circulantes, em hora de pico), o que se propõe pode levar, ou melhor, deve levar, cinco passageiros, donos de carro e que se conheçam, reduzindo, no mesmo horário,  o volume de carros em até 80%. Tudo informatizado, controlado por “chips”, sem despesa para o erário público, muito ao contrário, gerando recursos para o subsídio do precário e caro transporte público, incapaz de atrair os donos de carro.

O projeto baseia-se no conceito básico da engenharia de tráfego: “Aproveitamento ao máximo das condições viárias existentes”, principio do qual Paris, com a sua circulação em sentido único, é exemplo insofismável. Fosse esta minha luta, uma partida de xadrez, e  este artigo poderia ser considerado um xeque mate, a quem tem o poder de decidir.

Tags: Celso, coluna, franco, JB, Trânsito

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