Jornal do Brasil

Sexta-feira, 21 de Novembro de 2014

Trânsito

Facilidades de trânsito

Celso Franco

Era este o título de dez mil cartões que, encontrei distribuídos, ao assumir o Detran GB, em junho de 1967. Tinha sido uma manobra eleitoreira do governo anterior, durante a campanha para sua sucessão, em 1965. Não impediu a verdadeira “lavagem” que levou da coligação, dos ainda existentes, PTB-PSD, que elegeram com folga o embaixador Negrão de Lima, por maioria absoluta. O golpe baixo, entre tantos, foi amenizado pelo  sentimento de dignidade e respeito absoluto ao lema “A lei para todos”, do saudoso diretor de trânsito, coronel Francisco Américo Fontenelle, que colocou nos verdadeiros “santinhos” eleitorais a seguinte mensagem: “O portador tem autorização de estacionar onde quiser, desde que respeite as restrições do Código Nacional de Trânsito”. Em outras palavras, restringiu o absurdo da autorização a um mero documento que dava ao seu portador a credencial de ter amigos no Detran.

O governador Negrão, um diplomata, não os extinguiu de pronto, pois já governava há um ano e meio, para não angariar a antipatia de quem já não votara nele.

Ciente do dilema político, propus ao governador uma solução diplomática e útil, do cancelamento de todos aqueles cartões e, substituindo-os por uma carteirinha, de Colaborador de Trânsito, contendo o retrato do portador e o seu ramo de atividade, contendo também, no seu verso, numa tarja vermelha diagonal, o aviso:”Não goza de privilégios.”

Foi este seleto grupo da maior utilidade na medida em que colaboravam. De fato, inclusive sugerindo multas a irregularidades por eles constatadas. Bons tempos aqueles, em que havia ordem e disciplina no trânsito carioca.

Hoje, existe um novo grupo motoristas que, sem cartão algum, gozam de facilidades, e que facilidades, no nosso trânsito. Sabem quem são? Os motoristas de ônibus. Fazem o que querem, cometem as maiores barbaridades, praticam o assassinato por atropelamento, como ocorreu faz pouco tempo, quando cinco crianças foram atropeladas, com três óbitos , avançam o sinais vermelhos, bloqueiam os cruzamentos e, outras infrações menos votadas...

A par da absoluta falta de fiscalização preventiva e, por conseguinte, eficaz, a filosofia de administração que, também faz tempo, se instalou no controle do trânsito do Rio, quando escolheram as medidas restritivas (multas com pardais) em vez das medidas construtivas, conforme recomendou o mestre inglês sir Alker Tripp em livro didático, em 1935.

Ainda não chegaram no Brasil as medidas de “traffic calming”, também recomendas e aplicadas na Inglaterra, a partir da década de 70.

Nos áureos tempos do trânsito sob controle, os motoristas de ônibus que cometiam mais infrações eram recolhidos à Escola de Reciclagem, que funcionava no Detran. Houve o caso de um que, de tão mal comportado, foi punido com o castigo de ser, durante um mês, o motorista oficial do carro do diretor do trânsito. Saiu “fino” e meu amigo, que inclusive o alimentei durante o período em que aprendeu a ser disciplinado.

Preveníamos o excesso de velocidade, com sinalização restritiva e de alerta, medidas de “traffic calming” (antes dos ingleses), como a criação de chicanas ou, nos locais de possíveis derrapagens, o uso de um tipo de asfalto antiderrapante. Este seria o caso de tratamento da curva onde, recentemente, atropelaram as crianças.

Para coibir o seu excesso de velocidade, selamos as injetoras dos seus motores diesel, em 60 km/h, com a estreita colaboração de seu fabricante, a multinacional alemã Bosch. Para coibir a poluição da descarga de seus motores, a recolocação de seu cano de descarga para baixo, como de fábrica, pois absurda e burramente, eram usados para cima, a fim de possibilitar a fiscalização, com equipamentos especiais, para ter acesso às suas descargas, de onde se retiravam as amostras dos gases exalados, também com a cooperação da Bosch. Tudo isto era rigorosamente fiscalizado, periodicamente, pelo Grupo de Exames Técnicos, do Detran, remunerado pelos examinados, os donos as empresas de ônibus, justiça se lhes faça, interessados em melhorar o serviço prestado.

Colocamos faixas seletivas em alguns eixos principais de tráfego, de onde eles não podiam sair. Não era permitida a ultrapassagem nestes locais.

Motociclistas efetuavam ronda permanente nesses mesmos eixos, onde, com um simples toque de sirene, os colava na linha.

Dava gosto vê-los nas pistas do Aterro do Flamengo, em fila organizada, com a velocidade limite da lei, escoltados pelos meus excelentes motociclistas, remanescentes da finada Guarda Civil (vale lembrar que a polícia da Guanabara era federal, optante, a partir  da inauguração da nova capital Brasília).

Pintamos no seu teto seu número de série, que faziam o deleite dos colaboradores, moradores nas vias principais de tráfego, fotografando-os do alto de seus apartamentos.

Pessoalmente, os monitorava, assim como todo o sistema de circulação, a bordo de um helicóptero, várias vezes na semana, inclusive aos domingos, nas idas para as praias de São Conrado e Barra, além dos jogos importantes do Maracanã.

Até hoje, os números estão lá, pintados, talvez apenas como decoração.

Finalmente a grande vitória do bom senso, com consenso e concordância dos empresários, o desligamento, perante a lei, ilegal, de suas buzinas O Contran esperneou, ameaçou até intervenção federal. A posição de firmeza e o apoio que tinha do meu governador e, o respaldo da população, desmoralizaram a reação desequilibrada de quem não enxergava a realidade do trânsito urbano, o que, aliás, até hoje ocorre.

Eis ai, meus caros leitores, como foi e como poderia ser. Fica a pergunta:  “Até  quando vamos chorar os nossos mortos pelas “facilidades de trânsito”, ilegítimas e até suspeitas, dos ônibus que se constituem, segundo dizem os seus proprietários, no principal meio  de transporte de massa da cidade do Rio de Janeiro?” 

Tags: Artigo, Celso, coluna, franco, JB, Trânsito

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